Violência verbal é a agressão mais comum contra motoristas mulheres de aplicativo
Pesquisa revela que xingamentos, ameaças e gritos são o tipo mais recorrente de violência enfrentada por motoristas mulheres no Brasil; casos seguem invisibilizados e mal registrados
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 16/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Uma pesquisa realizada pela consultoria Think Eva, em parceria com a plataforma de mobilidade 99, escancarou uma realidade ainda pouco debatida: a violência moral e verbal é o tipo de agressão mais comum sofrido por motoristas mulheres. Os dados foram apresentados em São Paulo, durante o evento “99 Mais Mulheres”, com a presença de representantes da empresa, especialistas em gênero e motoristas parceiras.
“O assédio moral vem em primeiro lugar. Elas estão falando de violências praticadas dentro do carro por passageiros, que são as agressões físicas ou verbais, xingamentos”, afirmou Maíra Liguori, diretora da Think Eva, ao apresentar os resultados. Segundo ela, o problema se repete “de uma forma muito presente, seja de homens ou de mulheres, mas uma postura bastante agressiva”.
“Fui com medo de tudo, de assalto, de mudar de direção…”
As entrevistas qualitativas e os relatos coletados mostram que, para muitas mulheres, o medo de enfrentar passageiros hostis é constante. “No início, eu fui com medo de tudo, sim. Fui com medo de assalto, com medo de mudar de direção. Fui com medo de tudo porque a gente não tem prática”, relatou uma motorista que começou recentemente na plataforma.
Mesmo motoristas com experiência relatam dificuldades. “Teve uma mulher que nos relatou que ela pegou uma mulher que tinha sido apanhada e estava indo pro hospital levando o filho junto. Essa motorista se desesperou e ela viu o tanto de vulnerabilidade que estava posto ali”, contou Maíra sobre a ausência de preparo emocional para lidar com episódios de violência.
Outro relato mostra como o assédio verbal pode ser minimizado ou naturalizado: “Desde gestos que podem ser interpretados como real, violento, mesmo que a intenção deles não tenha sido essa, ou evitar determinadas conversas, determinados comentários e tudo mais, que muitas vezes eles nem entendem que pode ser um assédio”.
Passageiras também sofrem, mas motoristas estão mais expostas ao confronto
Embora passageiras também enfrentem riscos e situações desconfortáveis, a posição da motorista impõe um nível maior de exposição. “Quando a gente pergunta para as motoristas, elas têm medo da violência urbana. Quando a gente pergunta para as potenciais motoristas, elas têm medo da violência no trânsito”, disse Maíra Liguori. No entanto, o assédio moral aparece de forma transversal nas duas experiências.
Segundo a 99, “comportamentos que são inaceitáveis dentro da plataforma resultam em um bloqueio”, e há medidas educativas dependendo da gravidade. Ainda assim, motoristas relatam insegurança em denunciar por medo de retaliações nas avaliações ou da falta de retorno concreto.
Desconhecimento sobre ferramentas dificulta enfrentamento
A falta de informação sobre as funcionalidades de segurança também dificulta que motoristas saibam como agir. “Nós, como passageiras, muitas vezes não sabemos. A gente só sabe quando aparece, avaliamos a nota do motorista e acabou. A informação pode me dar essa autonomia como passageira”, disse uma participante da coletiva.
A 99 afirma que possui mais de 50 funcionalidades de proteção, incluindo gravação de áudio, botão de emergência, bloqueio de usuários e uma central de segurança 24 horas. Mas mesmo internamente, há o reconhecimento de que as passageiras e motoristas pouco conhecem essas ferramentas. “Vocês sabiam que na 99 isso roda por trás?”, disse a gerente Malu durante o evento.
O que está por trás do silêncio: naturalização e falta de respaldo institucional
A pesquisa também expôs a desconfiança institucional e a falta de respaldo legal como fatores para a subnotificação de casos.
“A gente tem uma questão muito grande de subnotificação, especialmente em caso de violência contra a mulher, em caso de violência sexual. E a gente conseguir incentivar essa notificação ajuda também o poder público a ter políticas direcionadas”, apontou uma das representantes da equipe jurídica da empresa.