Violência contra crianças cresce no Brasil: alertas e ações de proteção
Dados da Fundação Abrinq e especialistas indicam aumento de casos e a importância do fortalecimento da rede de proteção infantil
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 15/05/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A violência contra crianças e adolescentes continua a ser uma realidade alarmante no Brasil. De acordo com dados obtidos pela Fundação Abrinq, publicados na Caderneta do Cenário da Infância e Adolescência no Brasil em 2025, apenas em 2023 foram registradas mais de 78 mil notificações de violência, das quais mais de 57 mil envolviam vítimas com menos de 19 anos. A região Sudeste lidera o ranking com mais de 35 mil casos. No Norte, a violência sexual contra meninas chama atenção: 75,8% das agressões acontecem dentro de casa.
Violência online em alta
O ambiente virtual também se mostra um campo preocupante. Segundo levantamento da SaferNet, o número de denúncias envolvendo usuários do Telegram que compartilharam imagens de abuso e exploração sexual infantil aumentou 78% entre o primeiro e o segundo semestres de 2024. Além disso, o Brasil ocupa o quinto lugar no ranking mundial de países com mais denúncias de páginas que divulgam esse tipo de conteúdo, conforme relatório da rede internacional InHope.
A psiquiatra Juliana Mokayad, do CAPS Infantojuvenil M’Boi Mirim, alerta para os riscos do ambiente virtual. “A internet e as redes sociais podem ser grandes aliadas na divulgação e prevenção da violência. Porém, sabemos que também são veículos de exposição e risco para crianças e adolescentes, que podem se tornar vulneráveis aos abusadores ou consumir conteúdos violentos. O uso da internet precisa ser regulamentado e acompanhado pelos pais”, destaca.
Impactos emocionais e sociais
Mudanças de comportamento são um dos principais sinais de alerta. Segundo a médica, crianças expostas a situações de violência apresentam instabilidade emocional, ficando mais chorosas, irritáveis ou agressivas. Também podem surgir comportamentos erotizados ou falas inadequadas para a idade, além de evitarem locais ou pessoas que antes frequentavam.
Os impactos emocionais e cognitivos são profundos. “O abuso sexual e qualquer tipo de violência geram traumas que podem desencadear transtornos psiquiátricos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. O desenvolvimento cerebral pode ser afetado, especialmente em crianças pequenas, devido às respostas fisiológicas desencadeadas pelo trauma”, explica Mokayad.
Além das consequências neurológicas, há impactos nas relações afetivas e na capacidade de estabelecer vínculos seguros com adultos e pares. Crianças vítimas podem apresentar dificuldades em criar laços duradouros, levando a um padrão de insegurança.
Prevenção e acolhimento
A orientação sobre abuso deve ser adaptada à idade. Mokayad ressalta que a comunicação deve ser clara e respeitar o nível de compreensão da criança. “Para os menores, o ideal é orientar sobre não se aproximar de estranhos e não permitir toques indesejados. À medida que crescem, o diálogo pode ser mais específico”, recomenda.
A psiquiatra também enfatiza a importância de um ambiente familiar aberto ao diálogo. “O maior fator de proteção é um ambiente acolhedor e receptivo em casa. Os pais devem manter uma comunicação clara e não violenta”, afirma.
Para além do ambiente familiar, campanhas de conscientização são essenciais para inibir agressores e ampliar as denúncias. Dados da Equipe Especializada de Violência (EEV) do Campo Limpo, gerenciada pelo CEJAM, mostram que entre 2022 e abril de 2025, mais de 4.780 vítimas foram atendidas. Em média, a unidade acolhe 80 crianças/adolescentes por mês.
O gerente da EEV, Maximiliano Costa, aponta para o desafio da subnotificação. “Ainda enfrentamos um cenário de subnotificações, o que dificulta o cuidado integral e ações eficazes de enfrentamento”, observa.
Nos casos mais graves, as vítimas são encaminhadas a centros especializados de atendimento, como os CAPS e os Núcleos de Prevenção à Violência das UBS gerenciadas pelo CEJAM. As denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo telefone 100, WhatsApp (61) 99611-0100, site da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH) ou pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil.
Como denunciar
- Telefone: 100 (ligação gratuita)
- WhatsApp: (61) 99611-0100
- Site: Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH)
- Aplicativo: Direitos Humanos Brasil
- Telegram e videochamada em Libras
Para que o enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes se torne uma realidade, é fundamental fortalecer a rede de proteção com ações intersetoriais que envolvam saúde, educação, justiça e assistência social.