Violência armada mata 3 vezes mais homens negros no Brasil

Relatório do Instituto Sou da Paz aponta racismo e vitimização de jovens como padrão histórico no país

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A violência armada foi o desfecho da tentativa de Carlos Alberto de Jesus de fazer justiça com as próprias mãos ao atirar contra o estudante Igor Melo, no Rio de Janeiro. Em um cenário similar em São Paulo, Fábio Anderson disparou contra Guilherme Dias após ser assaltado. Ambos os jovens alvejados eram inocentes e compartilhavam uma característica que os tornou alvos preferenciais: a cor da pele. Estes casos não são isolados, mas reflexos de uma estatística alarmante trazida pelo relatório “Violência Armada e Racismo: O Papel da Arma de Fogo na Desigualdade Racial”.

De acordo com a quarta edição do estudo realizado pelo Instituto Sou da Paz, a violência armada impõe um risco desproporcional à população negra. Os dados revelam que homens negros têm 211% mais chances de serem assassinados por armas de fogo em comparação a homens não negros.

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Perfil das vítimas e a persistência dos homicídios

O levantamento cruzou dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), abrangendo o período de 2012 a 2024. Embora os índices gerais de homicídios tenham oscilado, a letalidade causada por armas de fogo mantém-se estável e elevada. Entre 2000 e 2023, esses artefatos foram responsáveis por 71% de todos os homicídios no Brasil.

O recorte de gênero e idade é brutal: 94% das vítimas são homens. O grupo mais vulnerável compreende jovens entre 20 e 29 anos, cuja taxa de mortalidade chega a 81,2 mortes por 100 mil homens. Além da idade, o racismo estrutural é evidente, visto que 80% dos homens mortos por arma de fogo são negros.

Sobre este cenário, Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, destaca a urgência de ações específicas:

“A pesquisa dá visibilidade aos impactos da violência armada sobre a população brasileira negra e masculina, com objetivo de suscitar a defesa de novas políticas públicas que enfrentem o forte viés de gênero e raça observado na vitimização por arma de fogo no país.”

Disparidades regionais e o cenário no Nordeste

A geografia da violência armada no Brasil apresenta contrastes profundos. A região Nordeste lidera as estatísticas negativas, concentrando quase metade dos homicídios masculinos por arma de fogo em 2023. A taxa na região é de 55,8 mortes por 100 mil homens, sendo que 90% dessas vítimas eram negras.

A região Norte aparece na sequência, com uma taxa de 45,75, impulsionada por disputas de facções, garimpo ilegal e conflitos fundiários. Em contrapartida, o Sudeste apresenta a menor taxa entre as regiões (15,3), enquanto o Sul é a única área onde há predominância de vítimas não negras (66%), refletindo a demografia local.

Estados e capitais com maiores índices de letalidade

Em números absolutos, os estados da Bahia (5.209), Pernambuco (2.810) e Rio de Janeiro (2.596) lideram o ranking de homicídios. No entanto, ao analisar a taxa proporcional por habitante, o Amapá assume a liderança nacional com 111,5 mortes por 100 mil homens.

Nas capitais, a situação é crítica em:

  • Macapá: 123,5
  • Salvador: 107,5
  • Recife: 74,4
  • Maceió: 72,9

É importante notar que, em todas as capitais brasileiras, as taxas de homicídio de homens negros superam as de não negros. Carolina Ricardo analisa a abrangência nacional do problema:

“A desigualdade racial na vitimização por violência armada se reproduz em todas as regiões. Estados da região Nordeste, onde a desigualdade racial na vitimização é mais acentuada, prevalecem entre as unidades da federação com as maiores taxas de homicídios masculinos com arma de fogo desde 2012.”

Espaços públicos e o aumento da violência não letal

Diferente dos feminicídios, que ocorrem majoritariamente no ambiente doméstico, a violência armada contra homens é um fenômeno das ruas. Em 2023, 49% dos homicídios ocorreram em vias públicas, enquanto as residências foram palco de apenas 11,6% dos casos.

Além das mortes, o relatório aponta um crescimento preocupante nas notificações de violência não letal. Após uma queda até 2021, os registros voltaram a subir, totalizando 5.605 casos em 2024 — um aumento de 59% em três anos.

A diretora do Instituto Sou da Paz reforça a necessidade de controle de armamentos como política de segurança:

“Os dados apresentam uma realidade conhecida, mas é preciso reconhecê-la no cerne das políticas públicas voltadas à redução das desigualdades de raça, gênero e classe que vulnerabilizam populações inteiras. É preciso investir na prevenção dos fatores da violência armada, controlando a disponibilidade de armas de fogo na sociedade brasileira, tanto no mercado legal quanto no enfrentamento ao seu tráfico ilegal, ponto de partida fundamental para que as políticas públicas de segurança democráticas sejam bem-sucedidas.”

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 20/11/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo