Vingadores: A República Contra-ataca

Uma tragicomédia institucional em cinco atos sobre o julgamento que enfrentou o fantasma da anistia e os vilões da democracia

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Abertura

Chegamos enfim ao “dia” — ou melhor, ao dia em que o Café com Cinismo precisou de um pouco mais de tempo para ficar pronto para apresentar: Os Vingadores. Quem disse que atraso é problema? Dia rima com ironia: hoje a coluna vem com o sabor extra de um café que ficou um pouco mais no fogo — o aroma saiu mais forte, a cor ganhou profundidade e a paciência se perdeu, mas foi só para acumular tempero.

Se a semana já vinha longa, o julgamento do século foi mais longo ainda — um épico digno de audiobook narrado pelo Cid Moreira. Foram horas que viraram atos, atos que viraram capítulos; em muitos momentos parecia que estávamos gravando um O Senhor dos Anéis em cinco partes. O STF colocou as togas, vestiu heróis e transformou o plenário num crossover: tragédia e comédia no mesmo cartaz, onde mocinhos de toga enfrentaram vilões dispostos a reescrever o roteiro da República.

Agora que acabou, a confissão é rápida: foi estressante, exaustivo e, por vezes, surreal. Um blockbuster jurídico que exigiu não só paciência, mas também aquele gole extra de cinismo entre goles de acidez — a bebida certa para quando o mundo decide fazer teatro. Houve digressões que fariam inveja a qualquer diretor: mais de 11 horas de falação, cortes improvisados que às vezes soavam mais como pregações inflamadas da Igreja Universal, do que como intervenção processual.

Acomode-se onde preferir: puxe a cadeira, estique a perna, abrace o sofá. Pegue sua xícara de café, seu mocaccino, o saco de Doritos escondido no armário ou o potinho de pipoca — e, se tiver que sair buscar o filho, deixa a mochila no banco de trás e pega a leitura daqui a pouco. Se estiver em reunião, minimize a janela; se estiver com sono, finja que é trilha sonora e dê play. São esses pedaços do cotidiano que a gente carrega quando a política vira novela e precisa de plateia fiel.

No final, as regras são as do Arnaldo: clareza, sarcasmo e punção certeira. O “grande dia” chegou — e com ele a grande piada, que muitas vezes somos nós, de nariz de palhaço no final. Relaxe, sente-se e mergulhe: o Café com Cinismo já está servido, com a dose exata de humor ácido. O show começa agora.

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O perigo não chegou de súbito — veio em marcha, com enganados de verde-e-amarelo fazendo papel de figurante enquanto outros tentavam maquiar a destruição da cena democrática com o rótulo suave de “anistia”, esperando sair ilesos do ato final. Quem pode nos ajudar não é herói de quadrinho, mas a engrenagem real. No quartel-general dos “heróis”, o clima era de tensão; a semana que vinha não era ensaio, era a chamada para valer, e a opinião pública, minada e financiada por interesses obscuros, se partiu em faces que agora se encaram como arqui-inimigo. Porque, sim, a esperança é que nossos heróis estejam atentos — e, se não estiverem…

Ato I – A Chegada dos Heróis

Se Brasília fosse uma série da Marvel, esta semana teria sido o crossover definitivo. Os Vingadores no STF, Congresso, Planalto e delatores reunidos em um episódio especial escrito por Nelson Rodrigues, com diálogos de Stephen King e direção de Quentin Tarantino. O tribunal virou palco, os votos viraram falas, e os ministros, atores de toga com roteiro em mãos e microfone na lapela. A estética era de julgamento, mas o clima era de final de campeonato, com torcida organizada, bandeiras tremulando e memes sendo produzidos em tempo real.

A plateia? O Brasil inteiro. De Norte a Sul, de esquerda a direita, de quem torce, de quem chora, de quem bebe e de quem posta. O julgamento de Jair Bolsonaro deixou de ser um processo jurídico e se transformou em um espetáculo nacional — uma catarse coletiva que misturava justiça, vingança, memória e alívio. E como toda boa narrativa brasileira, teve interrupção da sessão da tarde, trilha sonora involuntária e frases que já nasceram virais. Teve início com música tema e tudo mais: “Vingadores – Ultimato” no plenário.

Bolsonaro entrou em cena como o vilão que tenta escapar do próprio roteiro. Sua defesa, digna de um episódio de Law & Order: Brasília, alegava que não houve golpe, apenas “atos preparatórios”. A tentativa de desviar o foco era tão frágil que parecia escrita por roteiristas de novela das seis: cheia de emoção, mas sem lógica.

Mas o Brasil já viu esse filme antes. A anistia de 1979, os acordos de bastidor, os silêncios que viram esquecimento. E como diria Stephen King, o mal sempre tenta retornar dos esgotos. Bolsonaro não era apenas um réu — era o símbolo de uma tentativa de apagar a memória, de reescrever a história, de transformar golpe em gafe. Nos quadrinhos, o Rei do Crime. Figura notória de cargo público de maior destaque no cenário, mas na verdade, um arquirrival das justiça, com agenda maligna esconde seus crime e os desejo de dominação por debaixo dos panos.

Do outro lado do palco, Lula assistia ao julgamento como quem vê a final da Libertadores. Sem se envolver diretamente, mas articulando nos bastidores com o Centrão, com ministros, com aliados e com adversários. Lula não é só personagem — mas também um pedacinho integral desse texto. E como todo bom roteirista do Brasil adora, ele sabe que às vezes é preciso cortar personagens, mudar falas e reescrever finais.

Então eis que surge Flávio Dino — um Deadpool institucional. Com humor ácido, apartes certeiros e caretas que viralizam, Dino é o personagem que ilumina a cena sem roubar o foco. Quando Cármen Lúcia falava de provas e papéis, Dino soltava um comentário que vinha como socorro cômico: a faca do argumento era levada a sério; a faca do riso, também.

Silenciosa, poderosa, e quando fala, muda o clima. Cármen Lúcia é a Tempestade do STF: não precisa levantar o tom, basta levantar a Constituição. Seu voto foi o raio que iluminou a escuridão institucional, e sua fala, o trovão que acordou até os mais distraídos.

E então entra em cena Mauro Cid: o delator, o traidor, o anti-herói. Para a direita, um Judas. Para a esquerda, uma ferramenta. Para o Brasil, um personagem que só existe porque o roteiro exige. Mauro Cid entrou no roteiro como o Magneto da delação: atraía problemas como quem coleciona inimigos, operava jogos duplos com a destreza de quem já sabe que será traído — e mesmo assim, ajudou os mocinhos. Não por redenção, mas por cálculo.

E no apagar das luzes, surge Luiz Fux: o Demolidor da toga. Jurista cego — no sentido de imparcialidade — que escuta mais do que fala, mas quando fala, deixa rastro. Fux não apareceu na quinta, mas no dia anterior…. como protagonista, mas como aquele personagem que entra no final do episódio e deixa uma pista para o próximo.

Na quinta-feira, enquanto o Brasil esperava o voto final, a sessão da tarde foi interrompida pelo Plantão da Globo. A notícia: Bolsonaro condenado. Quando o filme voltou, a primeira cena foi um churrasco com a frase “Obrigado, meu Deus”. A vida tem timing. E a semiótica, senso de humor.

Ato II – Bastidores da Resistência

Nos bastidores da peça, o roteiro se desenrolava com mais tensão que final de novela das nove. Brasília virou um camarim institucional onde cada personagem ensaiava sua fala, ajustava o figurino e tentava não tropeçar no próprio ego. O julgamento de Bolsonaro não era apenas sobre atos golpistas — era sobre quem ainda tinha lugar no palco e quem seria apagado do elenco.

Quando Cristiano Zanin entrou em cena, o clima mudou. Com a calma de quem já enfrentou multidimensões jurídicas, ele começou a conjurar artigos, precedentes e interpretações como quem tira coelhos da cartola. Zanin entrou como o Doutor Estranho do tribunal — puxou precedentes do chapéu e fez desaparecer argumentos com uma conjuração de artigos.

E então, como em todo bom crossover, surge Alexandre de Moraes: o Professor X da democracia. Líder cerebral, estrategista silencioso, e com uma persuasão quase telepática. Moraes não precisa convencer — ele apenas aponta. E quando aponta, a institucionalidade se reorganiza.

Enquanto o STF votava, a entidade chamada “Centrão”, que ensaiava suas falas nos bastidores. Deputados e senadores ajustavam o tom, testavam narrativas e tentavam entender se o roteiro ainda os incluía. O Centrão é o Cable da política: imprevisível, mercenário, sempre voltando no tempo e muda de lado conforme o cachê — mas sempre rouba a cena.

E o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que outrora tentava ser o equilibrado, agora se estapeia na fila do sucessor do Rei do Crime, foi de um lado amargando distância da ala bolsonarista: mesmo que no passado tenha sido pupilo do mito, aliado ao Centrão, certamente será peça-chave no tabuleiro da direita institucional. Hoje, Tarcísio não tenta mais disfarçar. Ele não é o moderado — é o moderador, mas do caos golpista.

Ato III – A Guerra dos Memes

Se o tribunal foi palco, as redes sociais foram arquibancada. E como toda boa arquibancada brasileira, teve torcida organizada, fogos de artifício, cerveja gelada e memes em tempo real. A sessão de julgamento virou maratona digital, com comentaristas improvisados, influencers togados e edições de vídeo que fariam inveja à equipe do Porta dos Fundos.

O resumo das defesas? Um clássico instantâneo: o meme dos três Homens-Aranha, cada um apontando para o outro. Bolsonaro, o atual Rei do Crime culpando os militares, os militares culpando os assessores, os assessores culpando o PowerPoint. E no meio disso tudo, Mauro Cid entregando o roteiro como quem revela o final da novela antes do último capítulo.

Na quinta-feira, o Brasil viveu um momento de pura semiótica. A sessão da tarde exibia o longa nacional “A Sogra Perfeita”, quando o Plantão da Globo entrou com a notícia: Bolsonaro está condenado! Mas, assim que filme voltou após a interrupção, a primeira cena que vimos foi: um churrasco com a frase “Obrigado, meu Deus”. O país inteiro entendeu o recado — e o meme nasceu pronto.

Enquanto os bolsonaristas tentavam digerir a derrota, o humorista Antonio Tabet postou a imagem da ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, sorrindo de orelha a orelha, com a frase: “Você pode até estar feliz, mas imagina quem ganhou um vale night de 27 anos e três meses com 40 milhões na conta…”

Frases como “Carluxo, pega a Cloroquina que o pai naum taokei”, “O choro é livre, Bolsonaro não”, e “Sextou com força, pois hoje eu vou beber como um condenado”. Já pode ser comemorado: Jair foi mesmo condenado” e agora não são só memes — são refrões narrativos. Elas funcionam como slogans de uma nova era, onde a política é comentada com emojis, figurinhas e vídeos de TikTok.

Ato IV – O Tabuleiro do Poder

O julgamento havia terminado, mas o jogo político estava longe de acabar. Lula, como sempre, não estava no palco — estava na coxia, regendo a orquestra. Com o Centrão afinando desafinado, ministros tentando manter o compasso, e aliados que mudam de tom conforme o vento, o presidente se comportava como maestro de sinfonia dissonante.

O Centrão, como sempre, como nunca, como eternamente, farejava oportunidade entre os escombros. E enquanto o país discutia golpe, eles discutiam emendas. Porque no Brasil, o orçamento é o verdadeiro superpoder.

Tarcísio, o antigo fiel da balança — técnico de uma direita de diálogo multilateral —, hoje ostenta com rosto descoberto, daquele discurso de esgoto ideológico e sujeitos com sérias questões patológicas. Sim, as mesmas falas da turma que leva criança do colo em meio a um conflito acalorado da câmara pra usar filho de escudo. Os “patriotas” da época dos acampamentos de onde surgiam “rezadores de pneus”, ou como o maluco que se agarrou no capô de um caminhão. Mas bastou a possibilidade real de prisão do “mito”, para revelar a verdadeira face: assim, o pretenso “pupilo” do bolsonarismo, aliado ao Centrão, acabou se tornando um xodó para o futuro do conservadorismo, e a peça-chave no tabuleiro da articulação da direita institucional.

E então, como em todo bom roteiro político, volta e meia entra a cena paralela internacional um novo delírio do Orange Trump. Desta vez, em meio ao resultado do julgamento, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, publicou que a decisão, se tratava de uma “caça às bruxas” — e, acusou Alexandre de Moraes de ser um “violador de direitos humanos”. Já o Laranjão, antes de embarcar para um jogo de beisebol, disse que considera Bolsonaro uma pessoa “correta e notável”, e comparou o julgamento brasileiro às investigações que ele próprio enfrenta nos EUA.

Rubio não viu o PowerPoint, não leu as atas, não assistiu à sessão — mas já tinha opinião formada. Como todo personagem secundário que quer virar protagonista, entrou no roteiro sem convite e tentou mudar o final.

Trump fez o que sempre faz: transformou o Brasil em espelho de si mesmo. E como todo vilão narcisista, tentou roubar a cena com uma fala genérica e um elogio que mais pareceu autodefesa. Apesar das críticas, nenhuma sanção foi anunciada. E no Brasil, a resposta veio com firmeza: a democracia não se curva a ameaças externas, muito menos a tweets mal redigidos.

“O STF não precisa de aprovação internacional — precisa de provas. E essas, como mostrou o julgamento, estavam todas ali. O resto é espuma diplomática.”

A diplomacia virou palco secundário, mas não menos simbólico. A reação americana mostrou que o julgamento brasileiro não era apenas um evento jurídico — era um marco geopolítico. E como todo bom marco, revelou quem ainda tenta proteger o autoritarismo, mesmo à distância.

Ato V – O Voto de Cármen Lúcia: A Tempestade do Plenário

No roteiro do julgamento mais longo do ano, havia expectativa para todos os votos. O de Alexandre de Moraes, como relator, era inevitável: firme, recheado de citações jurídicas, como quem recita manual de batalha. O de Zanin, por sua vez, prometia ser importante: técnico, preciso, sem firulas, entregou o que se esperava — a letra fria da lei. Mas nenhum deles carregava a aura de antecipação que cercava o voto de Cármen Lúcia. Desde cedo, sabia-se: quando ela falasse, não seria um texto burocrático. Seria a cena épica.

E a esperança não era de um voto chato. Depois de horas de plenário, com direito ao monólogo errante de Luiz Fux — que mais parecia advogado de vilões em tribunal de segunda, soltando frases que se empilhavam sem lógica, como alguém que se perdeu no próprio labirinto de palavras — o público ansiava por ordem no caos. Fux foi o “advogado dos vilões” improvisado, e deixou no ar o desconforto de que o Supremo podia perder o fio narrativo. Era preciso alguém que recolocasse o processo nos trilhos.

Foi nesse clima que entrou em cena a ministra de cabelos brancos faiscando sob a luz artificial. Cármen Lúcia, a Tempestade do STF. Não pediu licença: tomou o espaço. Cada olhar, cada pausa, cada palavra já era carregada de eletricidade. O plenário se calou. O público que acompanhava pela TV Justiça endireitou-se na cadeira. A tempestade estava prestes a cair.

O primeiro raio foi devastador:

“Malfeito para o bem, continua sendo mal”.

Simples, direto, impossível de rebater. A frase cortou o ar como relâmpago em noite abafada. Ali, sepultava-se de vez a lógica torta do “rouba, mas faz”, a mesma desculpa reciclada de décadas de política. Não havia mais espaço para relativizar crime sob a capa de “intenção”. A frase virou estandarte instantâneo: os jornais a repetiram em manchete, os memes a espalharam em figurinhas, e a oposição silenciou por alguns segundos.

Mas ela não parou. O trovão seguinte veio ainda mais alto:

“Democracia não é aplicativo com botão de desfazer”.

Com isso, desmontava o discurso de que o 8 de janeiro teria sido apenas um “ato preparatório”, uma espécie de ensaio malfeito. Não, deixou claro a ministra: tentativa de golpe não é bug de sistema, não se reseta com Ctrl+Z. Foi conspiração com roteiro, logística e financiamento. E como se falasse diretamente aos “patriotas” que filmaram a própria desgraça, veio outro raio, carregado de sarcasmo:

“Tem gente que registra até golpe para postar no feed.”

O plenário reagiu com sorrisos contidos. Lá fora, a frase virou viral imediato. O país da selfie, onde até prato de comida vai parar no Instagram, agora tinha adicionado à lista de absurdos o “golpe postado em tempo real”. No feed, o autoritarismo encontrou palco — mas na Suprema Corte, virou prova.

A Tempestade avançava. A cada frase, mais nuvens escuras se formavam sobre as defesas frágeis que ainda insistiam em narrar o 8 de janeiro como “ato simbólico”. Não havia espaço para símbolos, apenas para responsabilidades. Quando Flávio Dino tentou apartar, como costuma fazer para colorir o debate com humor ácido, veio o furacão:

“Dois mil anos caladas, agora queremos o direito de falar!”

O auditório caiu na gargalhada. O comentário virou meme em segundos. Mas por trás da piada, havia a força histórica: mulheres não seriam mais figurantes em histórias contadas por homens. Cármen Lúcia transformou a intervenção em recado para o país: representatividade feminina não é concessão, é conquista. E então veio o clímax, o momento que entrou para o cânone das falas históricas do Supremo. A frase que ecoou como trovão sobre a República:

“Não existe vacina definitiva contra o vírus do autoritarismo — nem no SUS, nem na rede privada.”

Na era pós-pandemia, o paralelo foi instantâneo. Se a democracia fosse corpo humano, estaria sempre sob risco de reinfecção. Não há imunidade permanente. O antídoto é apenas a vigilância constante. O STF, por incrível que pareça, não é farmácia de plantão para ressaca golpista.

Esse foi o golpe final contra o Sexteto Sinistro da política: o Rei do Crime das articulações de bastidor, o Duende Verde das fake news, o Escorpião da anistia travestida de “pacificação”. Todos encolheram diante da heroína de toga que usou ironia como espada e Constituição como escudo.

Enquanto o voto de Zanin, importante em sua precisão técnica, reforçou os fundamentos jurídicos da condenação, o de Cármen Lúcia foi além: deu forma simbólica, deu narrativa, deu memória. Transformou processo em história, sentença em catarse. O que Zanin fez com artigos, ela fez com palavras que grudam na pele do país. O dele foi voto de jurista. O dela, voto de época.

O Brasil assistia não apenas a uma condenação, mas a uma aula de resistência. A ministra mostrou que até o humor pode ser arma política quando usado para expor o ridículo do autoritarismo. Que ironia pode ser mais cortante do que qualquer tecnicismo. Que cabelo branco não é fragilidade, é raio acumulado.

No final, o tribunal não era mais tribunal: era HQ política em tempo real. A Tempestade do STF enfrentava sozinha o caos autoritário, e cada frase dela era página virada em uma edição especial. O público sabia: aquele voto seria lembrado. Não como burocracia, mas como símbolo.

E se ainda houvesse dúvida de que fantasmas como o da anistia rondam os corredores, Cármen Lúcia tratou de exorcizá-los — não prometendo vitória definitiva, mas deixando claro que enquanto houver memória e Constituição, sempre haverá raio pronto para cair sobre a escuridão.

Naquela tarde, o Supremo deixou de ser apenas tribunal. Tornou-se palco da resistência, e sua heroína de cabelos brancos provou que até no Brasil, onde golpes insistem em voltar como sequelas mal curadas, a democracia ainda pode encontrar defensores que sabem transformar toga em tempestade.

Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Créditos Finais

“Vingadores: A República Contra-ataca” não é só um título — é a síntese da semana em que o Brasil escalou seus heróis togados para enfrentar o maior vilão da democracia recente. E, no fim, como lembrou a ministra, ela permaneceu de pé. Entre delações que soaram como cliffhangers, votos que se tornaram falas de roteiro, memes que incendiaram a plateia e fogos de artifício improvisados, o julgamento virou assembleia, o tribunal virou palco e o país, por alguns instantes, conseguiu respirar.

Mas o final não é um ponto, é uma vírgula. Porque o fantasma da anistia ronda os corredores de Brasília como figurante insistente, sempre pronto a pedir papel de protagonista na temporada seguinte. Vendida como “pacificação nacional”, embalada como conciliação, mas entregue como esquecimento conveniente, a anistia tenta ressurgir como se fosse heroína redentora — quando, na verdade, é o truque barato de quem não aceita perder.

Se voltar, que encontre um país menos ingênuo, de olhos abertos, memória viva e democracia armada — não com balas, mas com Constituição, ironia e resistência cívica. Porque a luta não é só contra o vilão de toga preta ou a sombra de farda verde-oliva, mas também contra uma nova ameaça a caminho: essa personagem sorrateira, com capa brilhante e discurso doce, cujo superpoder é apagar o passado e reescrever a história.

E assim, ao apagar das luzes, o Brasil entende: o julgamento foi apenas o episódio especial de uma série que nunca sai do ar. A temporada seguinte já está anunciada, e nós, plateia, seguimos convocados a assistir — entre gargalhadas, sarcasmo e a teimosa esperança de que, mesmo mancando, a democracia ainda sabe dançar.

Cena Pós-Créditos

As luzes já tinham se apagado, mas ninguém saiu da sala. O público sabia: em Brasília, o filme nunca acaba nos créditos. E, como num truque velho de Hollywood, o silêncio foi interrompido por mais uma cena.

Bolsonaro aparece sentado diante de um espelho embaçado, ajeitando a gravata como ator que perdeu o papel principal, mas ainda acredita que pode voltar na sequência. Ensaiando falas que misturam arrependimento ensaiado com delírio de inocência, ele murmura: “foi só um mal-entendido constitucional”. O reflexo, porém, não mente — mostra um personagem derrotado, mas não eliminado.

Enquanto isso, o Centrão aparece em plano fechado: deputados e senadores rindo no fundo de um restaurante em Brasília, brindando com chope quente e já discutindo a próxima jogada. O tema é único: anistia. O monstro clássico do repertório político brasileiro, que sempre volta com maquiagem nova. Nos bastidores, soa como vilão prestes a ganhar derivado do próprio: o “Projeto de Lei do Esquecimento”.

Carluxo, numa live com eco e luz de abajur, promete que o pai será “perdoado pela vontade do povo”. Flávio digita freneticamente planilhas com aliados e possíveis votos, como se fosse o contador de supervilões. Michelle, em silêncio calculado, veste figurinos de protagonista (talvez uma identidade secreta), será — assim, presa em um ensaio de quem já entendeu que o roteiro pode precisar de uma heroína messiânica para a próxima temporada.

E então, o take final: a democracia. Cambaleante, com toga puída, descendo as escadarias do Supremo. Exausta, mas ainda respirando. Carrega nos ombros as marcas de quem apanhou a sessão inteira, mas levanta o punho, feito boxeador sangrando que insiste em mostrar que está de pé. Uma respiração funda, um olhar para cima — e o aviso na tela:

Em breve nos melhores momentos da política cinematográfica do Brasil, chega mais um novo filme de vilão a vista: “A República – O Retorno dos Indultos”, nesse desafio, os heróis deverão entrar em confronto com uma das mais temidas e será anunciado no tempo pertinente.

Como por aqui, até a liberdade de bandido ganha papel de mocinho que insiste em renascer dos escombros, sempre vendida como “pacificação”, mas entregue como esquecimento. Ela volta sempre com uniforme novo, cruz no peito, capa reluzente e discurso pronto: “é hora de virar a página”. Nos bastidores, é tratada como “alternativa”, mas a plateia já sabe — essa pretensa “heroína”, é aquela personagem dúbia, que sorri em close-up enquanto esconde a faca atrás da capa.

Batizada pelos roteiristas do Centrão, essa figura arquétipa surge como a salvadora de última hora, prometendo unir o país com abraços de papel timbrado. Só que, na prática, é a típica heroína de plástico: não enfrenta vilões, apenas os absolve; não combate o crime, apenas o varre para debaixo do tapete institucional. Seu superpoder é apagar a memória coletiva com a borracha do esquecimento — e ainda convencer parte da plateia de que está fazendo isso “pelo bem da democracia”.

Enquanto isso, o cenário segue o mesmo: tribunais exaustos, políticos aliviados e vilões reciclados prontos para mais uma temporada. A cada retorno dela, a democracia leva mais um golpe na costela, mas continua em pé, como boxeador sem técnico, e mesmo assim, não deixa a toalha cair.

E lá vamos nós outra vez, plateia cativa dessa tragicomédia infinita — pagando ingresso caro para assistir sempre ao mesmo espetáculo, e agora se avizinha com um spin-off somente dela: a Capitã Anistia.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 20/09/2025
  • Fonte: Sorria!,