Vida digital dos filhos preocupa 60% dos pais no Brasil
Estudo revela abismo social e falta de conhecimento técnico na mediação do acesso à internet.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 01/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: PMSA
Acompanhar de perto a vida digital dos filhos tornou-se uma tarefa complexa para a maioria das famílias brasileiras. Segundo o relatório “Redes de Proteção: Desafios e práticas na mediação digital de crianças e adolescentes”, lançado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e pelo Redes Cordiais, 60% dos pais e responsáveis consideram difícil ou muito difícil monitorar as atividades online de crianças e adolescentes. O levantamento, que ouviu 327 pessoas e realizou grupos focais, expõe falhas estruturais de suporte e conhecimento técnico.
Desigualdade no acesso a ferramentas de controle
A pesquisa destaca que a gestão da vida digital dos filhos é profundamente afetada pela desigualdade social. Famílias com maior nível de escolaridade e renda tendem a utilizar recursos tecnológicos de controle parental, enquanto lares de baixa renda enfrentam barreiras práticas. Entre os responsáveis que ganham até um salário mínimo, apenas 7,7% utilizam aplicativos de monitoramento regularmente, e mais da metade nunca fez uso dessas tecnologias.
Mesmo com a disponibilidade de recursos nas plataformas, 43% dos pais nunca recorreram a ferramentas digitais para supervisionar a vida digital dos filhos. A preferência recai sobre métodos tradicionais e offline:
- 71% limitam o tempo de uso de celulares;
- 70% incentivam atividades fora das telas;
- 64% mantêm conversas sobre segurança online.
Riscos em jogos e redes sociais ocultas
Outro ponto crítico levantado pelo estudo é o desconhecimento sobre o funcionamento de plataformas populares. Muitos pais não percebem que ambientes como Roblox, Free Fire e Discord funcionam como redes sociais, permitindo interação constante com terceiros. Essa lacuna na compreensão da vida digital dos filhos eleva a exposição a perigos.
O cyberbullying é uma das maiores preocupações para 41% dos entrevistados. No entanto, o receio principal continua sendo o acesso a conteúdos impróprios: 86% citam violência e pornografia como maiores angústias, seguidos pela saúde mental (82%) e uso excessivo de telas (66%).
Desafios na guarda compartilhada e diálogo
A mediação da vida digital dos filhos torna-se ainda mais árdua em cenários de guarda compartilhada, onde a falta de alinhamento de regras entre os lares gera conflitos. A eficácia das restrições técnicas também é questionada: 60% dos pais afirmam que os filhos já burlaram senhas ou controles de tempo.
Para Clara Becker, diretora executiva das Redes Cordiais, a solução passa pela construção de vínculos. > “O desafio é construir um espaço de confiança e diálogo na família para um uso equilibrado e que não coloque crianças e adolescentes em risco. Os adultos precisam estar preparados para criar este ambiente saudável”, afirma.
Capacitação e responsabilidade coletiva
O relatório aponta uma demanda latente por educação: 59% dos responsáveis desejam acesso a tutoriais práticos sobre controle parental para gerir melhor a vida digital dos filhos.
Celina Bottino, diretora do ITS Rio, reforça que a proteção online exige um esforço conjunto. > “O Redes de Proteção combina ciência, tecnologia e impacto humano. Não basta falar sobre segurança online; é preciso entender as desigualdades que atravessam o acesso à informação e oferecer soluções viáveis, especialmente para famílias em situação de vulnerabilidade. Proteger crianças e adolescentes na internet é uma tarefa coletiva que envolve famílias, escolas, plataformas e o poder público”, destaca.
Realizado em julho de 2025, o estudo serve como um alerta para a necessidade de políticas públicas e iniciativas privadas que auxiliem as famílias a navegar, com segurança, pela complexa vida digital dos filhos.