Venezuela: o dia seguinte é mais perigoso que o ataque

Eduardo Galvão é professor de Políticas Públicas no Ibmec, diretor da consultoria global Burson e autor do livro Riscos Políticos na América Latina, a ser publicado pela editora Diálogos

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Os ataques dos Estados Unidos à Venezuela e a alegada captura de Nicolás Maduro produziram um choque imediato. Explosões, declarações duras, reações internacionais. Tudo isso cria a sensação de clímax, como se o ponto decisivo tivesse sido alcançado. Mas a análise de risco político aponta justamente para o contrário. O momento mais perigoso raramente é o do ataque. É o dia seguinte.

Em intervenções externas e quedas abruptas de liderança, há um erro recorrente: confundir a remoção do topo com a resolução do problema. Regimes autoritários não são pessoas, são sistemas. Eles sobrevivem, muitas vezes, porque distribuem poder, recursos e coerção em múltiplas camadas. Quando o líder cai, o sistema não desaparece automaticamente. Ele entra em estado de reorganização, e é nesse intervalo que o risco se multiplica.

Vácuo de poder e instabilidade difusa

O maior perigo do pós-ataque não é a resistência explícita, mas o vácuo de poder. Quando a autoridade central se fragiliza ou desaparece, abre-se espaço para disputas silenciosas por comando, controle territorial e acesso a recursos estratégicos. Cadeias de comando se fragmentam, unidades passam a operar com maior autonomia e estruturas formais passam a conviver com arranjos improvisados. O resultado não é necessariamente caos imediato, mas uma instabilidade difusa, marcada pela sobreposição de autoridades e pela perda de coordenação estatal, difícil de conter e ainda mais difícil de reverter.

Nesse contexto, as Forças Armadas tornam-se o verdadeiro eixo da equação. Mais do que fiadoras ideológicas de um regime, elas funcionam como árbitras do poder real. A decisão que se impõe não é moral, é estratégica. Sustentar uma ordem emergencial ou negociar uma transição. Resistir ou pactuar. Essa escolha costuma ser guiada por cálculos de custo, preservação institucional e garantias futuras, não por discursos públicos ou alinhamentos retóricos.

Impactos na Venezuela e o verdadeiro teste do poder

O dia seguinte, porém, não se resolve apenas no plano doméstico. Ele também se desenrola em um tabuleiro maior. Crises dessa natureza não são lidas apenas localmente, mas como sinais em uma disputa mais ampla por esferas de influência. A Venezuela deixa de ser apenas um problema interno e passa a funcionar como mensagem para aliados, adversários e regimes sob estresse em outras regiões.

Em um ambiente internacional já marcado por competição estratégica, cada intervenção reabre debates sobre limites, precedentes e disposição de poder. Do outro lado, a oposição enfrenta um desafio igualmente complexo. Legitimidade política não é sinônimo de capacidade institucional. Liderar uma transição exige coordenação, aparato administrativo, controle mínimo do território e capacidade de transformar expectativa social em governabilidade. Quando isso não existe, o risco não é apenas de frustração popular, mas de uma transição sem piloto, em que ninguém consegue conduzir o processo e todos disputam espaço ao mesmo tempo.

É nesse ponto que a crise deixa de ser estritamente venezuelana. O dia seguinte transborda fronteiras e setores. Fluxos migratórios aumentam, fronteiras se tensionam e, sobretudo, cadeias econômico-estratégicas entram em estado de alerta. Energia, logística, transporte, seguros e suprimentos sensíveis passam a operar sob maior incerteza. Mesmo sem uma guerra prolongada, o custo regional se impõe de forma silenciosa e persistente, afetando decisões de investimento, contratos e continuidade operacional. O risco político deixa de ser abstrato e passa a circular pela economia real.

Por isso, mais importante do que acompanhar os discursos é observar os sinais. Quem controla a cadeia de comando? Quem domina os canais de comunicação? Há coordenação mínima entre forças internas? As fronteiras permanecem operacionais? O Estado segue funcionando no cotidiano? É nesses detalhes operacionais que o risco real se revela, não nas declarações oficiais.

O erro mais comum, nesses momentos, é tratar o ataque como ponto final. Em geopolítica e em gestão de risco, ele costuma ser apenas o ponto de transição. O dia seguinte concentra incerteza, disputa e fragilidade. E é justamente ali que se define se uma crise caminha para alguma forma de reorganização ou para um ciclo prolongado de instabilidade.

O verdadeiro teste não está no ataque em si, mas na capacidade de governar o vazio que ele produz. Entender o dia seguinte é compreender como poder, recursos e influência passam a ser disputados em um terreno muito mais instável do que o que existia antes do ataque.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 04/01/2026
  • Fonte: FERVER