Veículos pesados expõem gargalos e riscos no transporte brasileiro
Dependência do transporte rodoviário e envelhecimento dos motoristas ampliam riscos logísticos, econômicos e de segurança viária
- Publicado: 20/03/2026 15:21
- Alterado: 20/03/2026 15:22
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
- Fonte: ABCdoABC
O Brasil, que predominantemente concentrou seus esforços e investimentos no transporte ferroviário no século retrasado, sofre na atualidade com a forte dependência do transporte rodoviário, que responde pela maior parte da movimentação de cargas — especialmente no escoamento de commodities, no abastecimento urbano e na distribuição de bens.
O meio rodoviário também desempenha papel central no transporte de passageiros, tanto em deslocamentos intermunicipais quanto urbanos, sobretudo em regiões com menor oferta de modos estruturados, como os sistemas ferroviário e metroviário.
Essa predominância decorre de décadas de investimentos concentrados na malha viária, em detrimento de alternativas mais equilibradas na matriz de transportes. Nesse contexto, qualquer instabilidade no setor, como uma possível paralisação de caminhoneiros motivada pelo aumento do preço do óleo diesel, tende a gerar efeitos sistêmicos imediatos, incluindo desabastecimento de produtos essenciais, elevação de preços, interrupções logísticas e impactos diretos na mobilidade da população.
Vulnerabilidade estrutural

A elevada sensibilidade da economia brasileira ao custo do diesel evidencia a vulnerabilidade estrutural de um modelo excessivamente rodoviarista, reforçando a necessidade de diversificação urgente e maior resiliência logística.
Essa vulnerabilidade não está relacionada apenas aos veículos, mas também a quem os opera no dia a dia. A análise do perfil dos motoristas profissionais no Brasil — em especial aqueles que atuam no transporte de cargas e de passageiros — revela aspectos estruturais relevantes não apenas para o mercado de trabalho, mas também para a segurança viária, a organização logística e a sustentabilidade dos sistemas de mobilidade.
De forma geral, tanto motoristas de caminhão quanto de ônibus apresentam características demográficas bastante semelhantes, com predominância de trabalhadores em faixas etárias mais elevadas.
Estudos do Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC), assim como da Confederação Nacional dos Transportes, apresentados em 2023 e 2024, já indicavam um aumento crescente da idade média, podendo atualmente superar os 50 anos. No transporte público, a idade média está um pouco abaixo, girando em torno de 47 anos, ambos com predominância do sexo masculino.
Essa proximidade etária evidencia que ambas as atividades são ocupações maduras, com baixa renovação geracional — um fator que já começa a preocupar o setor, especialmente diante da crescente demanda por transporte e da menor atratividade da profissão entre jovens.
Veículos são pesados, mas há diferença entre transportar passageiros e cargas

Apesar dessa semelhança demográfica entre os motoristas, há diferenças significativas na estrutura de trabalho entre os dois segmentos. O condutor de caminhão, sobretudo aquele que atua como autônomo, está inserido em um ambiente de elevada variabilidade operacional. Sua renda depende diretamente da dinâmica do mercado de fretes, do custo do combustível, da distância percorrida e da eficiência logística.
Trata-se de uma atividade marcada por jornadas extensas, muitas vezes irregulares, com longos períodos de condução em rodovias, o que implica maior exposição a riscos, como fadiga, monotonia operacional e acidentes de alta severidade. Em contrapartida, o potencial de remuneração pode ser superior, especialmente em períodos de alta demanda, o que torna a atividade economicamente atrativa para determinados perfis.
Já o motorista de ônibus, tanto no segmento urbano quanto no intermunicipal, opera predominantemente sob regime formal (CLT), com maior previsibilidade de jornada, salário e benefícios. No transporte municipal, a atividade é caracterizada por alta frequência de paradas, interação constante com passageiros e operação em ambientes urbanos congestionados, o que aumenta o estresse operacional e a carga cognitiva do condutor.
Embora a remuneração média nesse segmento tenda a ser mais baixa em comparação com outras categorias, há maior estabilidade e regularidade no emprego. Por outro lado, o motorista de ônibus rodoviário ou intermunicipal ocupa uma posição intermediária entre os dois extremos: mantém a formalidade do vínculo empregatício, mas atua em trajetos mais longos, com menor interferência do tráfego urbano e, em muitos casos, com remuneração superior à do transporte urbano.
Segurança viária aos veículos pesados

Do ponto de vista da segurança viária, esses elementos assumem papel central. A predominância de motoristas em faixas etárias mais elevadas pode estar associada, por um lado, à maior experiência e capacidade de tomada de decisão, mas, por outro, também pode refletir maior suscetibilidade à fadiga, redução de reflexos e presença de comorbidades.
No caso dos caminhoneiros, a combinação entre longas jornadas, pressão por prazos e monotonia das rodovias contribui para um ambiente propício a sinistros graves, frequentemente com altas taxas de letalidade.
Já no transporte coletivo urbano, embora a severidade dos acidentes seja, em geral, menor, a frequência de conflitos com pedestres, ciclistas e motociclistas é significativamente maior, especialmente em áreas densamente urbanizadas.
Outro ponto relevante diz respeito à exposição ao risco. Caminhoneiros estão majoritariamente expostos a rodovias, onde as velocidades são mais elevadas e os acidentes tendem a ser mais severos.
Motoristas de ônibus urbanos, por sua vez, operam em ambientes complexos, com múltiplos usuários e elevada interação, o que exige maior atenção contínua e aumenta o risco de incidentes de menor gravidade, porém mais frequentes. Já os motoristas de ônibus intermunicipais enfrentam um cenário híbrido, combinando trechos rodoviários com acessos urbanos, o que demanda versatilidade operacional.
Idade torna fator de risco e medidas emergenciais devem ser levadas em consideração
Diante desse panorama, fica evidente que a análise isolada de variáveis como idade ou remuneração não é suficiente para compreender a complexidade dessas profissões. É necessário considerar o conjunto de fatores que envolvem condições de trabalho, exposição ao risco, estrutura contratual e dinâmica operacional.
Além disso, a baixa renovação da força de trabalho sugere a necessidade de políticas públicas e estratégias setoriais voltadas à valorização da profissão, à melhoria das condições de trabalho e à incorporação de tecnologias que aumentem a segurança e a eficiência.
Em síntese, embora motoristas de caminhão e de ônibus compartilhem perfis etários semelhantes, suas realidades operacionais são substancialmente distintas. O transporte de cargas oferece maior potencial de remuneração, porém com maior instabilidade e risco, enquanto o transporte de passageiros proporciona maior estabilidade, ainda que, em muitos casos, com menor retorno financeiro.
Essa diferença estrutural tem implicações diretas não apenas no mercado de trabalho, mas também na segurança viária e na qualidade dos sistemas de transporte, sendo, portanto, um tema central para estudos e políticas no campo da engenharia de transportes.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.