Vacinas contra gripe e Covid-19 disponíveis no SUS reduzem risco de infarto e AVC
Imunizantes como os contra gripe, Covid-19 e pneumococo ajudam a prevenir eventos cardiovasculares graves, segundo estudo publicado no European Heart Journal.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 22/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro Sérgio Cardoso
Uma diretriz recente da Sociedade Europeia de Cardiologia reforça um ponto fundamental, mas ainda pouco discutido: vacinação pode prevenir doenças cardiovasculares graves, como infartos, AVCs e descompensações em quadros de insuficiência cardíaca. O documento, publicado em 30 de junho no European Heart Journal, apresenta uma revisão detalhada de estudos clínicos e observacionais que apontam os imunizantes como um novo pilar da prevenção cardíaca.
Vacinas vão além da proteção contra infecções
A revisão científica analisou vacinas amplamente disponíveis, como as contra gripe, Covid-19 e pneumococo, todas oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e também a vacina contra herpes zoster, atualmente em processo de incorporação ao sistema público. Os benefícios são especialmente relevantes para idosos e pacientes com doenças crônicas, públicos com maior vulnerabilidade a eventos cardiovasculares.
“As vacinas não previnem apenas doenças infecciosas. Hoje, elas são uma nova forma de prevenção cardiovascular”, explica a cardiologista Raphaela Garofo, especialista em cardiogeriatria e membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Segundo Garofo, infecções respiratórias como gripe ou pneumonia podem desencadear respostas inflamatórias sistêmicas, aumentando o risco de infarto, arritmias e agravamento de doenças pré-existentes. Em pessoas com aterosclerose, presença de placas de gordura nas artérias, a inflamação provocada por uma infecção pode levar à ruptura dessas placas e ao bloqueio do fluxo sanguíneo.
Gripe, Covid e outras vacinas têm efeito protetor no coração
A diretriz destaca que a vacinação contra a gripe pode reduzir em até 60% o risco de infecção e está associada a uma queda de até 30% em eventos cardiovasculares graves. Um dos estudos citados, o IAMI (Influenza Vaccination After Myocardial Infarction), revelou que pacientes que tomaram a vacina após um infarto tiveram redução de até 41% na mortalidade cardiovascular.

A vacina contra o pneumococo também apresentou impacto positivo, com diminuição de até 10% no risco cardiovascular, de acordo com os dados compilados.
Covid-19 e o risco cardiovascular
Estudos também associaram a infecção por Covid-19 ao aumento significativo de risco para infarto, insuficiência cardíaca, arritmias e mortalidade — especialmente durante os períodos iniciais da pandemia. Pacientes com histórico de doenças cardíacas têm cerca de 30% mais risco de desenvolver Covid longa, quadro que pode incluir sintomas como fadiga persistente, dispneia e dor no peito. A vacinação, segundo a diretriz, reduz esse risco em até 43%.
Vacinas contra herpes zoster, VSR e até HPV oferecem proteção cardíaca
A diretriz europeia chama atenção ainda para vacinas menos associadas ao tema cardiovascular, mas que mostraram efeitos surpreendentes:
- A vacina contra herpes zoster demonstrou mais de 90% de eficácia na prevenção da infecção e uma redução de mais de 50% nos eventos cardiovasculares;
- O imunizante contra o VSR (vírus sincicial respiratório), já indicado para idosos, teve 89% de eficácia na prevenção de infecções pulmonares;
- Já a vacina contra HPV, tradicionalmente voltada à prevenção de câncer de colo do útero, foi associada a menor risco de doenças cardiovasculares em mulheres imunizadas, especialmente devido à relação entre infecção por HPV e inflamação arterial.
“E agora, com essa diretriz europeia, a vacinação passa a ser reconhecida como o quarto pilar da prevenção cardiovascular, ao lado do controle da hipertensão, diabetes e colesterol”, afirma o cardiologista Fábio Argenta, diretor médico da Saúde Livre Vacinas.
Adesão à vacinação ainda é baixa no Brasil
Mesmo com os benefícios comprovados, a cobertura vacinal entre adultos e idosos segue abaixo do ideal no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde:
- A vacinação contra a gripe imunizou apenas 44,79% do público prioritário até 18 de junho. A meta é atingir 90%;
- A cobertura com duas doses da vacina contra Covid-19 chega a 86,78%, mas apenas 56,67% da população tomou a terceira dose, e só 19,83% recebeu a quarta dose.
“Após a pandemia, houve um declínio global nas taxas de vacinação. Doenças como sarampo e coqueluche voltaram a circular. Precisamos recuperar essa cultura vacinal, especialmente entre os grupos de risco”, alerta Argenta.
Garofo destaca a importância da atuação dos profissionais de saúde nesse processo: “Muitos pacientes não são informados sobre vacinas nas consultas. Isso precisa mudar.” Ela recomenda que pacientes com doenças crônicas, transplantados, gestantes e imunossuprimidos perguntem a seus médicos sobre imunização.
Vacinar é proteger o coração
A nova diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia representa um marco importante na forma como entendemos a prevenção cardiovascular. Com evidências clínicas sólidas, ela amplia o papel das vacinas, não apenas como barreira contra infecções, mas como ferramenta poderosa para reduzir hospitalizações, complicações cardíacas e até mortes.