Vacina contra a dengue; Saiba como foi a jornada dos cientistas de SP
Conheça os bastidores, os desafios e a emoção da equipe que criou o imunizante inédito no Brasil
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 08/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Amor, persistência, orgulho, vitória e gratidão. Essas palavras resumem a trajetória de cinco profissionais do Instituto Butantan que protagonizaram o desenvolvimento da vacina contra a dengue. A criação do imunizante Butantan-DV percorreu um caminho semelhante à “Jornada do Herói”, conceito do mitólogo Joseph Campbell, onde desafios imensos são superados para entregar um bem maior à sociedade.
Neuza, Vanessa, Claudia, Patrícia e Flávio representam a “família dengue”, um grupo de mais de 50 colaboradores brasileiros. Eles foram fundamentais na criação do imunizante tetravalente recentemente aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que será disponibilizado em dose única para a população.
Segundo Neuza Gallina Frazatti, gerente do Laboratório Piloto de Vacinas Virais (LVV), o trabalho foi coletivo e intenso.
“Somos uma pequena amostra de um time em que todos eram muito importantes. Também gostaria de destacar nominalmente o empenho dos coordenadores Gustavo Gonçalves Perrotti, Everton Magno De Sousa, Vivian Massayo Kazyama e Alyne Vieira Barros, que não participaram desse encontro, mas foram essenciais para o desenvolvimento do Insumo Farmacêutico Ativo da vacina contra a dengue”, destaca a pesquisadora.
O início da jornada e a mentoria visionária
O Brasil enfrenta epidemias de dengue documentadas desde a década de 1980. Contudo, em 2010, o país rompeu a barreira de 1 milhão de casos prováveis, evidenciando a urgência de uma solução profilática. Foi nesse contexto que Neuza, já experiente no desenvolvimento de vacinas contra raiva e rotavírus, recebeu a missão de liderar o projeto da vacina contra a dengue.
O pedido veio de Isaías Raw (1927-2022), então diretor da Fundação Butantan, que atuou como o grande mentor da iniciativa.
“O professor Isaías disse que tinha certeza de que eu iria conseguir, e eu também não tive dúvidas. Eu e ele interagimos profissionalmente durante muitos anos e até hoje o tenho como um mestre, uma inspiração. Foi o Isaías quem me mostrou que com paciência e competência podemos tudo”, recorda Neuza.
Desafios técnicos na formulação do imunizante
A complexidade técnica foi o primeiro grande obstáculo. Para combinar eficientemente os quatro sorotipos do vírus, a equipe realizou mais de 50 experimentos e testou 17 receitas de formulação diferentes. Claudia Regina Menezes Botelho, coordenadora de Desenvolvimento de Processos, lembra da intensidade desse período.
“Houve um período muito intenso, em que precisávamos chegar no laboratório às 5h da manhã para começar a formulação. Meus amigos brincavam que eu levantava mais cedo que o padeiro! De fato, era puxado, já chegava me sentindo cansada, mas todos os envolvidos sabiam que o esforço era por um bem maior”, relata Claudia.
Outros especialistas, como Vanessa Harumi Takinami (Biobanco) e Flávio Mannaro Medeiros, também foram vitais. Vanessa focou na manutenção de células Vero para amplificar as cepas, enquanto Flávio se especializou na liofilização, processo que transforma a vacina líquida em pó, essencial para a estabilidade do produto final.
Sacrifícios pessoais e união da equipe
O desenvolvimento da vacina contra a dengue exigiu que a vida pessoal dos cientistas ficasse, muitas vezes, em segundo plano. Patrícia Mourão Fuches, farmacêutica que entrou no projeto em 2009, dividiu a atenção entre o laboratório e o crescimento de seu filho. O apoio familiar foi crucial para o sucesso da empreitada.
“A verdade é que os parentes nos conhecem e sabem o quanto aquilo era importante. Por outro lado, havia uma colaboração da equipe. Sempre que foi preciso, tivemos apoio para nos dedicar totalmente às nossas famílias”, afirma Patrícia.
Mesmo sob pressão, o ambiente mantinha a leveza necessária. Um episódio marcante ocorreu numa véspera de Natal, quando Flávio e Claudia acidentalmente derrubaram um garrafão de solução de limpeza, alagando o laboratório minutos antes da saída. A solidariedade prevaleceu, e ambos limparam tudo juntos, transformando o “perrengue” em uma memória divertida de união.
A solução da liofilização e a aprovação
A instabilidade das cepas virais foi um dos maiores entraves técnicos. A potência do vírus caía após poucas horas de refrigeração. A solução definitiva para viabilizar a vacina contra a dengue foi a liofilização.
“Foram inúmeras formulações, configuração e testes. Ao término de cada tentativa, todo o time retornava para a bancada para analisar o resultado final. Era bem decepcionante quando a gente olhava e via que a pastilha liofilizada não estava legal. Até que teve um momento que foi!”, celebra Flávio.
A confirmação da eficácia veio com um estudo clínico envolvendo quase 17 mil voluntários. A imagem do primeiro voluntário vacinado adorna o laboratório como um troféu de persistência. Para a equipe, a vacina contra a dengue simboliza a capacidade da ciência nacional.
“É um orgulho imenso para nós e para toda a sociedade. Mostramos que temos muita capacidade e que a ciência produzida aqui no Brasil é tão boa quanto o que vem de fora. Ninguém no mundo tem a criatividade que nós temos”, finaliza Neuza, já pronta para a próxima missão científica.