USP cria nanotecnologia de RNA para tratar psoríase

Plataforma de nanomedicina desenvolvida pela USP utiliza partículas de cristais líquidos para silenciar genes que provocam lesões na pele

Crédito: imagem: NanoGeneSkin/divulgação

Uma plataforma biotecnológica inédita desenvolvida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) promete transformar o tratamento de doenças crônicas da pele, como psoríase, vitiligo e até o câncer de pele. O grupo de pesquisadores do laboratório NanoGeneSkin, em Ribeirão Preto, criou nanopartículas capazes de transportar moléculas de RNA terapêutico diretamente para as células cutâneas, atuando na raiz genética da inflamação.

Os avanços da pesquisa foram apresentados na capital britânica durante a FAPESP Week Londres, realizada no Museu de Ciências (Science Museum). O estudo ocorre sob o escopo do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanotecnologia Farmacêutica, com fomento da FAPESP e do CNPq.

Nanomedicina de Precisão contra a Psoríase

DNA - Ciência - Genética - Diagnóstico - Pesquisa. USP
(Imagem/Freepik)

A psoríase afeta cerca de 190 milhões de pessoas no mundo, sendo aproximadamente 5 milhões de pacientes no Brasil. Trata-se de uma patologia genética e imunomediada, na qual o corpo produz em excesso proteínas inflamatórias (citocinas), como o TNF-alfa, gerando lesões severas na pele.

A tecnologia da USP utiliza o chamado RNA de interferência (siRNA) para interceptar o problema. Em vez de remediar os sintomas com remédios de ação sistêmica, o RNA sintético atua como um “bloqueador”: ele degrada a ordem de fabricação da proteína nociva antes que ela seja gerada pela célula.

“É a nanomedicina de precisão”, define Maria Vitória Bentley, coordenadora do NanoGeneSkin. “Eu tenho um alvo específico e um RNA complementar para silenciar aquele gene que está superexpresso naquela doença.”

A Solução: Cristais Líquidos

O grande desafio da engenharia química e farmacêutica era fazer o RNA ultrapassar a barreira natural de proteção da pele sem ser destruído pelo organismo. Para superar esse obstáculo, os pesquisadores desenvolveram nanopartículas de cristais líquidos lipídicos (gorduras).

Essas estruturas combinam a rigidez e a organização dos cristais com a maleabilidade dos líquidos. O formato inovador protege o material genético e facilita a absorção profunda pela derme. A pesquisa provou que é possível associar, em uma única nanopartícula, múltiplos RNAs de interferência e fármacos tradicionais, potencializando o tratamento da complexa cascata inflamatória da psoríase.

Vacina contra o Câncer e Patentes

São Bernardo amplia, a partir deste sábado, vacinação contra a gripe. USP
Divulgação/PMSBC

A flexibilidade dessa plataforma científica permitiu ao grupo expandir os testes para outras frentes médicas de alta complexidade:

  • Vitiligo: Desenvolvimento de terapia gênica direcionada para conter o branqueamento da pele (tecnologia que já gerou uma patente ao grupo).
  • Vacina contra o Câncer: Criação de nanoestruturas de RNA mensageiro (mRNA) que ensinam o sistema imunológico a combater tumores. Em testes com animais, a formulação resultou na regressão ou interrupção do crescimento tumoral.
  • Cicatrização: Aplicação da técnica biológica em feridas crônicas de difícil regeneração.

Próximos Passos e Mercado

Com duas patentes depositadas e testes validados em modelos celulares e animais, o foco dos pesquisadores agora é o escalonamento industrial. O grupo utiliza a técnica de liofilização (desidratação a vácuo por congelamento) para prolongar a validade do produto e viabilizar o transporte logístico. O NanoGeneSkin já está em tratativas com indústrias farmacêuticas interessadas em licenciar a tecnologia para dar início aos ensaios de translação clínica em humanos.

  • Publicado: 06/06/2026 16:08
  • Alterado: 06/06/2026 16:08
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: Agência SP

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