Seminário na USP debate avanço do crime em mercados legais
Avanço de facções em setores de combustíveis e cigarros preocupa especialistas reunidos em seminário da Universidade de São Paulo.
- Publicado: 10/06/2026 07:57
- Alterado: 10/06/2026 07:57
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: USP
O crime organizado deixou de operar exclusivamente na marginalidade e passou a dominar espaços estratégicos da economia formal brasileira. Especialistas debateram essa infiltração nesta terça-feira (9), durante um seminário internacional promovido pela Universidade de São Paulo (USP). As organizações criminosas exploram brechas regulatórias e o sistema financeiro para lavar recursos e expandir seus negócios de maneira estruturada.
“O crime organizado transnacional opera hoje por meio de redes profundamente interligadas”, explicou o coordenador da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM-USP), Leandro Piquet. O professor destacou que os próprios regimes de proibição servem como motor para uma arquitetura financeira complexa que une os capitais lícito e ilícito em diferentes esferas da sociedade.
Impacto do crime organizado na economia formal
A expansão das facções depende de uma ampla rede de apoio formada por profissionais liberais, empresas de fachada e arranjos jurídicos sofisticados. O professor Michael Miklaucic, da University of Chicago, mapeou essa evolução na abertura do evento. “O crime organizado transnacional já não se esconde no chamado submundo. Está intimamente entrelaçado com as economias convencionais, o direito, a política e a tecnologia”, afirmou o pesquisador.
Um dos setores mais afetados é o comércio clandestino de cigarros e dispositivos eletrônicos. O mercado ilegal de produtos de nicotina movimenta R$ 9 bilhões anualmente no Brasil. Esse montante representa um terço do consumo nacional e equivale a dois terços do faturamento do crime organizado com a venda de cocaína, consolidando a prática como uma das principais fontes de financiamento das quadrilhas.
“O cigarro ilegal não é desvio marginal, ele é uma engrenagem financeira do crime organizado“, alertou o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), Renan Pieri. A alta tributação incentiva a migração de consumidores para produtos clandestinos, alimentando diretamente as contas das facções e prejudicando o varejo formal.
Combustíveis entram na mira das facções
A infiltração criminosa alcança toda a cadeia produtiva dos combustíveis, desde a produção até a distribuição nos postos. Representantes do Ministério Público do Estado de São Paulo (GAECO-SP), da Procuradoria do Estado e da Receita Federal expuseram os desafios de enfrentar essas fraudes durante a apresentação dos resultados da Operação Carbono Oculto.
Quem sonega impostos ganha uma vantagem competitiva injusta no setor, distorcendo os preços nas bombas. “Isso permite que esses agentes irregulares cresçam no mercado, prejudicando e sufocando as empresas que operam de forma legal“, observou a superintendente da Receita Federal, Marcia Meng.
A dimensão sistêmica do problema ficou evidente nos dados apresentados por Atanas Rusev, diretor do Center for the Study of Democracy. O especialista revelou que 86% das redes criminosas mais perigosas da Europa utilizam entidades jurídicas formalmente constituídas para mascarar a origem de seus lucros.
A programação do evento acadêmico continua nesta quarta-feira (10) com debates sobre governança criminal, proteção de portos e a convergência com o terrorismo. A integração de dados de inteligência e a cooperação público-privada despontam como as principais estratégias para frear o avanço do crime organizado sobre os mercados lícitos nas Américas.