USP tem 1ª mulher titular em Medicina Preventiva

Marcia Couto é a primeira professora titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, marco histórico após quase seis décadas de fundação

USP tem 1ª mulher titular em Medicina Preventiva

Crédito: Divulgação

A USP deu um passo inédito na sua trajetória acadêmica ao empossar, em novembro de 2025, a primeira mulher como professora titular do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo. A nomeação de Marcia Thereza Cavalcanti Couto, 55 anos, representa um marco para o departamento fundado em 1967.

Professora com formação em ciências sociais, Couto alcançou o topo da carreira docente na USP — cargo que corresponde ao nível mais alto da progressão acadêmica. Ao comentar a conquista, afirmou: “Eu tenho um senso de alegria enorme e também de responsabilidade por isso, mas acho que demorou”.

Atualmente, a Faculdade de Medicina da USP conta com 68 professores titulares, dos quais apenas 15 são mulheres, evidenciando a desigualdade de gênero ainda presente nos cargos mais elevados da instituição.

Da sociologia à medicina preventiva

Natural de Pernambuco, Marcia Couto mudou-se para São Paulo em 1998, quando cursava doutorado em sociologia na Universidade Federal de Pernambuco. À época, a capital paulista lhe parecia “impessoal, diversa, caótica”. Décadas depois, consolidou-se como referência na interface entre ciências sociais e saúde pública.

A trajetória na área médica começou a se desenhar ainda no doutorado, quando passou a investigar comportamentos reprodutivos em populações de baixa renda. Segundo ela, foi nesse momento que percebeu a possibilidade de contribuir com a compreensão sociocultural dos processos de saúde e adoecimento.

Em 2002, realizou pós-doutorado na própria USP. Posteriormente, foi professora da Universidade Federal de São Paulo entre 2005 e 2010. No mesmo ano, ingressou como professora doutora no Departamento de Medicina Preventiva da USP e, em 2016, tornou-se professora associada.

Sua nomeação como titular também marcou outro feito: ela foi a primeira docente com formação nas humanidades a alcançar esse posto na Faculdade de Medicina da universidade.

Saúde como fenômeno social

A presença de uma cientista social em um departamento tradicionalmente biomédico ainda é considerada exceção no meio acadêmico. “A saúde não é um tema clássico nas ciências sociais”, afirma Couto. Apesar disso, sua produção acadêmica demonstra como fatores culturais, políticos e econômicos influenciam diretamente indicadores de saúde.

Entre suas principais linhas de pesquisa está o estudo sobre HIV e estratégias de prevenção, com foco na adesão à PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), especialmente em populações vulneráveis. A pesquisadora analisa como aspectos sociais impactam o acesso e a continuidade do tratamento preventivo.

Outro eixo de investigação envolve gênero e masculinidades. Couto busca compreender por que homens — grupo que apresenta, em média, piores indicadores de saúde e menor procura por atendimento médico — tendem a se perceber como mais saudáveis que as mulheres. Para ela, trata-se de um “paradoxo” que exige uma abordagem interdisciplinar.

Hesitação vacinal e desafios contemporâneos

A terceira linha de pesquisa desenvolvida por Marcia Couto aborda a hesitação vacinal — tema que ganhou maior visibilidade durante a pandemia de Covid-19. A pesquisadora já estudava o fenômeno antes da crise sanitária, analisando as razões que levam parte da população a resistir à imunização.

“O tema da hesitação vacinal é quase uma síntese da possibilidade das ciências sociais para a medicina”, explica. Segundo ela, a recusa à vacinação envolve dimensões que ultrapassam o campo biomédico, como desconfiança institucional, ideologias e fatores culturais.

Para a docente, compreender essas variáveis é fundamental para fortalecer políticas públicas e estabelecer relações de confiança entre ciência e sociedade. “Precisamos estabelecer relações de confiança com a sociedade para que as pessoas reconheçam a vacina como um bem comum”, afirma.

Interdisciplinaridade como diferencial

A escolha de Couto para o cargo de professora titular na USP ocorreu após concurso disputado com outras duas docentes da área da saúde. O diferencial de sua formação em humanidades foi considerado relevante na avaliação.

Ela destaca que, ao participar de comissões de pós-graduação e ensino, busca inserir discussões das ciências sociais no ambiente médico. “Eu demonstro para aquelas pessoas que tiveram uma formação quase que exclusiva em aspectos técnicos e biomédicos de que a medicina só se faz em relação às pessoas e à sociedade como um todo”, diz.

A nomeação simboliza não apenas um avanço na representatividade feminina na USP, mas também o fortalecimento da interdisciplinaridade na formação médica. Em um cenário de desafios sanitários complexos, a integração entre diferentes áreas do conhecimento se consolida como estratégia essencial para compreender e enfrentar problemas de saúde pública.

  • Publicado: 08/03/2026 09:34
  • Alterado: 08/03/2026 09:34
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: FolhaPress