Uso de IA na saúde cresce e desafia definição de critérios clínicos
Pesquisas mostram que pacientes já recorrem à tecnologia no dia a dia, enquanto especialistas cobram critérios clínicos claros para orientar o uso seguro das ferramentas.
- Publicado: 17/07/2026 16:44
- Alterado: 17/07/2026 16:44
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
A IA na saúde deixou de ser um conceito futurista para se tornar parte da rotina de pacientes e instituições brasileiras. Uma pesquisa da Conexa, healthtech de saúde física e mental, em parceria com a Afya, ecossistema de educação médica, mostra que 79% dos brasileiros já usam ferramentas de inteligência artificial para necessidades diversas do dia a dia, e que 49% já levaram esse hábito especificamente para o contexto da própria saúde.
Pacientes usam IA para tirar dúvidas, mas preferem médico humano

Segundo o levantamento, o uso da tecnologia é movido pela busca de autonomia e informação. Entre quem aplica IA na jornada de saúde, as atividades mais comuns são tirar dúvidas sobre sintomas, doenças ou diagnósticos (66%), interpretar ou explicar exames e laudos (55%) e buscar informações sobre medicamentos (49%).
Apesar da adoção ampla para consultas gerais, a pesquisa identifica o que chama de “funil de confiança“: o acesso à tecnologia é amplo, mas o engajamento clínico mais profundo ainda esbarra em resistências. Segundo o estudo, 67% dos pacientes preferem conversar diretamente com o médico em vez de confiar apenas na tecnologia, e 56% afirmam que não confiariam em uma consulta conduzida inteiramente por IA, sem qualquer mediação humana.
Para Eduardo Moura, médico e diretor do Research & Innovation Center da Afya, essa cautela reflete o papel complementar que a tecnologia deve assumir: “É sempre importante ressaltar que a IA não veio para substituir o médico, mas para potencializar sua capacidade analítica e até mesmo humanizar a relação com o paciente, já que a tecnologia pode disponibilizar mais tempo para o olho no olho, o contato pessoal“.
Perfis de pacientes mostram diferentes níveis de confiança na IA
A pesquisa também mapeou perfis de comportamento: cerca de 33% dos entrevistados se enquadram como “pioneiros digitais“, grupo que usa IA diariamente, compartilha dados com as ferramentas para obter respostas melhores e aposta na integração tecnológica acelerada. No outro extremo, grupos mais céticos exigem mais evidências e segurança de dados antes de avançar no uso.
Guilherme Weigert, CEO da Conexa, resume o desafio que fica para o setor: “Os dados mostram que a IA funciona hoje como uma ponte para o paciente entender melhor sua condição, mas não como um substituto do profissional. O desafio para o ecossistema de saúde é educar o paciente sobre quais ferramentas são seguras e como usar essa tecnologia de forma complementar ao diagnóstico médico“.
Regulação chega, mas critérios clínicos ainda estão em aberto

Enquanto o comportamento dos pacientes já mostra a tecnologia incorporada ao cotidiano, o desafio do lado institucional é ainda maior. A FDA já ultrapassou a marca de mil dispositivos médicos baseados em IA autorizados para uso na assistência à saúde, e a consultoria McKinsey projeta um potencial de até US$ 110 bilhões anuais em ganhos de produtividade para o setor global. Levantamento da Deloitte de 2025 mostra que mais de 70% das organizações de saúde já utilizam ou testam aplicações de IA em processos clínicos, operacionais ou administrativos.
Para o advogado Breno Garcia de Oliveira, especialista em Direito Tributário e Societário, esse avanço expõe uma lacuna pouco discutida: a definição de quem vai estabelecer os critérios clínicos capazes de separar aplicações seguras de soluções inadequadas. Em sua avaliação, a Resolução CFM nº 2.454/2026 acerta ao se concentrar em princípios como supervisão humana, responsabilidade profissional, governança e classificação de risco, mas deixa para as Sociedades Médicas de Especialidade a tarefa de transformar essas diretrizes gerais em parâmetros técnicos aplicáveis ao dia a dia da assistência.
Especialistas defendem critérios clínicos para uso seguro da IA
Segundo o advogado, dizer que o médico deve supervisionar uma ferramenta tecnológica é apenas o ponto de partida: o desafio real está em definir quais evidências mínimas exigir antes da adoção e quais métricas de desempenho observar. Ele lembra que estudos da Nature Medicine já mostram resultados de IA comparáveis ou superiores aos de especialistas em tarefas específicas, mas defende cautela: quanto maior a presença dessas ferramentas em etapas críticas da assistência, maior a necessidade de mecanismos que confirmem se os resultados de estudos controlados se mantêm nas condições reais dos sistemas de saúde.
Um dado da Organização Mundial da Saúde reforça que o desafio não é exclusivamente brasileiro: relatório de 2025 mostrou que menos da metade dos países avaliados possui estruturas regulatórias maduras para acompanhar essas tecnologias. O lançamento de uma cartilha da Associação Médica Brasileira para orientar a aplicação prática da resolução do CFM sinaliza que esse movimento de tradução técnica já começou, mas especialistas apontam que ele precisa avançar além de recomendações gerais para que a inovação amplie a qualidade da assistência, em vez de apenas acrescentar risco a um sistema de saúde já pressionado por desafios complexos.