Uma Casa de Boneca estreia no Sumaré com releitura feminista e antirracista

Idealizado por Livia Camargo e Paula Aviles, o espetáculo tem direção de Georgette Fadel e estreia em temporada gratuita na Casaurora.

Crédito: Laerte Késsimos

Uma Casa de Boneca, de Henrik Ibsen (1828-1906), ganha nova encenação em São Paulo com foco nas interseções entre gênero, raça e classe. A montagem imersiva estreia no dia 20 de junho, sexta-feira, às 20h, na Casaurora, espaço cultural independente localizado no bairro do Sumaré, em uma temporada gratuita, com ações formativas e bate-papos com o público. 

O espetáculo tem direção de Georgette Fadel (Cia. São Jorge de Variedades) e Livia Camargo, também responsável pela adaptação do texto original, e uma das idealizadoras do projeto ao lado de Paula Aviles. No elenco, estão Livia Camargo, Paula Aviles, Gustavo Vaz, Edson Duavy e Kleber di Lazzare.

Encenada em uma casa real, a peça convida o público a ocupar os cômodos, criando uma experiência intimista e provocadora. A proximidade entre espectadores e personagens torna a narrativa ainda mais impactante, especialmente em momentos de tensão, brigas ou silêncio.

“Encenar a peça dentro de uma casa real contribui para aprofundar a experiência do público. É como na vida: se você está posicionado de um jeito, entende uma coisa; de outro, entende diferente”, afirma a diretora, que destaca como a movimentação pelos cômodos, os ruídos reais da casa e a proximidade física com os atores criam uma tensão particular, transformando o espectador em quase um voyeur da intimidade daquela família.

A nova adaptação amplia a crítica original ao patriarcado do século XIX ao incorporar outras formas de opressão contemporâneas: o racismo estrutural, a invisibilização de corpos fora dos padrões normativos e os limites da liberdade feminina em diferentes contextos sociais. A leitura de Nora Helmer (Livia Camargo) é atravessada por sua condição de mulher branca em contraste com outros corpos em cena; Cristina (Paula Aviles), mulher racializada; Krogstad (Edinho Duavy), homem negro; e Torvald Helmer (Gustavo Vaz), que encarna não apenas o privilégio de gênero, mas também o racial.

Para Georgette Fadel, os temas incorporados pela nova adaptação já estavam latentes no próprio texto de Ibsen, que fala de estruturas que se protegem e se perpetuam. “Essa família que se autopreserva, esse homem que se blinda… o texto já pede essas incorporações”, comenta.

Já Livia Camargo destaca a importância de ter iniciado o processo pela dramaturgia, antes dos ensaios como atriz. “Foi fundamental começar por esse lugar. E dividir a direção com Georgette Fadel, uma artista gigante.” Para ela, o texto de Ibsen, escrito em 1879, ainda é incrivelmente atual. “Vemos mulheres vivendo relações abusivas por anos, saindo destruídas, sem autoestima.O gesto de Nora, ao bater a porta, ainda hoje nos inspira a romper e reconstruir.” Livia reforça que esse gesto precisa ser ampliado: “Ibsen escreveu sobre uma mulher burguesa, mas hoje ele precisa incluir a mulher periférica, racializada, com filhos. O ato de bater a porta é quando ela percebe que só ela pode mudar a própria vida. E essa consciência é revolucionária.”

Além das apresentações, o projeto oferece quatro ensaios abertos com bate-papo com elenco e direção, e quatro leituras públicas de textos clássicos, com a participação de convidados e rodas de conversa com o público. 

Sinopse
Tudo parece perfeito na casa dos Helmer. Com a recente promoção de Torvald à diretoria de um banco, a família ascende socialmente e vive a esperança de um futuro promissor. Nora Helmer, sua esposa, inicia alegremente os preparativos para a noite de Natal, mas por trás do sorriso amoroso, ela esconde um segredo: anos antes, para salvar a vida do marido, contraiu um empréstimo sem o seu consentimento — falsificando ainda a assinatura do próprio pai. 

O credor é Nills Krogstad, advogado de reputação questionável, que ameaça revelar tudo se Nora não ajudá-lo a manter seu cargo no banco em que agora Torvald é o diretor. Com a chegada de Cristina Linde, sua amiga de juventude, as certezas de Nora começam a ruir. Viúva, sem filhos e em busca de um novo sentido para a vida, Cristina logo percebe a prisão invisível por trás da fachada harmoniosa da casa dos Helmer. Ao redor da trama, orbita ainda uma figura igualmente complexa: Dr Hank, fiel amigo da família, gravemente doente e secretamente apaixonado por Nora, trazendo à tona as tensões entre afeto, convenção, culpa e desejo. Uma Casa de Boneca é um mergulho nas armadilhas de uma sociedade patriarcal — com e na coragem de mulheres que começam, enfim, a escutar a própria voz.

Serviço:

Uma Casa de Boneca

Estreia dia 20 de junho, quinta, às 20h, na Casaurora.

Temporada: De 20 de junho a 27 de julho de 2025.

Sextas e sábados, às 20h. Domingos às 19h.
Sessões vespertinas: Dias 19 e 26 de julho, sábados, às 17h30.
Capacidade: 60 lugares. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 16 anos.
Ingresso: Gratuito. 

Casaurora

Rua Plínio de Morais, 401, Sumaré, São Paulo – SP.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 06/06/2025
  • Fonte: FERVER