Tuk Tuks no App: Uma nova rota para o transporte urbano

Triciclos elétricos podem ganhar espaço em São Paulo como alternativa segura e sustentável às motocicletas

Crédito: Divulgação/Freepik

São Paulo pode adotar triciclos elétricos em vez de mototáxis, diante do imbróglio sobre se as motocicletas podem ou não efetuar essa prestação de serviço. Em 2023, os triciclos foram suspensos de circular com passageiros, quando a empresa Grilo começou a operar. Atualmente, há entregas de mercadorias com esse modal na cidade.

Tradição asiática inspira mobilidade urbana no Brasil

Os triciclos são conhecidos como tuk tuks na Índia e amplamente utilizados em grande parte dos países asiáticos, como um dos principais meios de transporte urbano de curta distância. Seu nome imita o som característico do motor de combustão interna em funcionamento.

Tuk Tuk Grilo
Divulgação/Grilo Mobilidade

Para 2025, há uma recomendação do grupo de trabalho formado pela Prefeitura de São Paulo para que sejam elétricos e atuem como substitutos das motocicletas. E, claro, por serem elétricos, o ruído característico do motor dos tuk tuks ficará apenas no nome.

Esse modal pode ser complementar à motocicleta, mas não o vejo como substituto, pois há prós e contras em cada meio de locomoção, e quem de fato irá escolher é o passageiro. O primeiro fator de atratividade está no custo dos trajetos. O app Tuk Tuk terá valores semelhantes ao app de mototáxi? Se não, já começa defasado.

Conforto e praticidade podem atrair novos usuários

No quesito conforto, o tuk tuk sai na frente: é coberto e, em tese, os passageiros não precisam usar capacete, estando protegidos da chuva e do sol. Transporta até dois passageiros, o que permite dividir o valor do trajeto, ganhando atratividade frente às motocicletas.

Quanto ao tempo de trajeto, a tendência, em muitos casos, é que seja mais lento. Por mais estreito que seja, de 1,0 a 1,3 metro de largura e de 2,6 a 2,8 metros de comprimento, é difícil circular nos corredores utilizados por motocicletas. A faixa azul também se torna uma restrição.

Segurança e regulamentação são desafios prioritários

E a segurança? Será que são mais seguros que as motocicletas? Aparentemente, sim, e este é o ponto-chave quando foi proposta a recomendação de substituição do app de motos. A maioria dos tuk tuks não possui zonas de deformação programada, airbags, freios ABS ou carroceria com célula de sobrevivência. São enquadrados como triciclos, e essa categoria ainda não está padronizada nos protocolos da América Latina e do Caribe (Latin NCAP), entidade que avalia a segurança dos veículos comercializados.

Além disso, um estudo publicado no Indian Journal of Medical Research mostrou que passageiros de tuk tuks têm maior risco de traumatismo cranioencefálico em colisões laterais, comparados a passageiros de automóveis. Este é um ponto que deve ser considerado sempre que se busca uma substituição modal por demanda via aplicativo.

A parte dianteira dos tuk tuks é provida de um sofisticado guidão, semelhante ao das motocicletas mais requintadas, e o condutor, por estar aparentemente protegido, também não usa capacete. Já na traseira, há um compartimento coberto para passageiros, sendo fundamental a presença de cinto de segurança e orientações claras para seu uso, a fim de reduzir a gravidade de possíveis acidentes.

Uso urbano limitado exige planejamento e legislação clara

A velocidade desses veículos é outro ponto importante. Por se tratarem de triciclos, não são adequados para curvas em alta velocidade e, por isso, deveriam circular em ruas calmas, com limite de velocidade de 40 km/h. Esse fator, por si só, impede sua circulação em vias expressas e arteriais, o que demanda uma análise cuidadosa dos trajetos permitidos.

Tuk Tuks
Divulgação/Freepik

As versões elétricas dos tuk tuks já representam uma fatia relevante da frota em cidades indianas com políticas ambientais mais rígidas. Em Delhi, por exemplo, mais de 1 milhão deles circulam atualmente, segundo dados do Ministério dos Transportes da Índia de 2023, substituindo gradualmente os modelos tradicionais que, aqui no Brasil, ainda são raros.

Municípios que desejam utilizar tuk tuks como transporte público ou turístico, como em centros históricos ou zonas turísticas, podem estabelecer regras locais específicas por meio de decretos municipais. Essas regulamentações são fundamentais para a segurança do condutor, dos passageiros e para garantir fiscalização clara, algo que, inclusive, já poderia ter sido feito para as motocicletas.

Assim como as motocicletas, os tuk tuks fazem parte de uma categoria que não conta com crash tests oficiais padronizados pelo Latin NCAP, o que representa um vácuo regulatório relevante, especialmente considerando seu uso intensivo em áreas urbanas densas, como a cidade de São Paulo.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 22/05/2025
  • Fonte: Sorria!,