Projeto da ‘Times Square de SP’ tem custo de R$ 44 mi para região central
Governador e prefeito anunciam o projeto Boulevard São João para modernizar o Centro da capital com telões de LED e maior policiamento
- Publicado: 04/05/2026 14:12
- Alterado: 04/05/2026 14:13
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito Ricardo Nunes oficializaram o lançamento do Boulevard São João, iniciativa apelidada de Times Square de SP. O projeto prevê a instalação de grandes painéis de LED em fachadas de prédios históricos e a interdição do tráfego de veículos no cruzamento das avenidas São João e Ipiranga.
A participação do governo estadual, embora sem investimento financeiro direto na estrutura dos telões, terá foco no reforço da segurança pública. Tarcísio de Freitas confirmou o deslocamento de mais 300 novos agentes da Polícia Militar para monitorar a área. O objetivo é garantir que as famílias possam usufruir do espaço, que terá programação cultural e publicitária regulada pela Lei Cidade Limpa.
O uso de inteligência artificial e a vitrine política

O projeto ganhou engajamento após o governador publicar vídeos gerados por IA em suas redes sociais. As imagens mostram um excesso de luzes cobrindo prédios históricos, remetendo ao cenário de Nova York. “Tão deixando a gente sonhar“, afirmou o governador em uma publicação que alcançou quase 4 milhões de visualizações. No entanto, o projeto aprovado é mais contido do que as projeções virtuais.
A intervenção real da Times Square de SP consiste em quatro telões principais em edifícios selecionados, preservando a estrutura de imóveis tombados. O governo de SP utiliza o projeto como parte de um pacote maior de ações, que inclui a construção do novo centro administrativo e a desocupação da Favela do Moinho. Essa estratégia visa consolidar uma percepção de mudança estrutural no coração da metrópole antes do período eleitoral.
Estrutura técnica e custos do Boulevard São João

A viabilização do Boulevard São João ocorre por meio de uma exceção à Lei Cidade Limpa, onde a publicidade externa é permitida em troca de melhorias urbanas. O grupo Fábrica de Bares, proprietário do Bar Brahma, é o responsável pela execução. O investimento inicial ultrapassa os R$ 44 milhões, com foco na tecnologia de LED e na reforma de praças e monumentos locais.
| Item de Investimento | Custo – Ano 1 (R$) | Custo – Ano 2 (R$) | Custo – Ano 3 (R$) |
| Painéis, Estruturas, Periféricos e Fretes | 39.204.125,60 | 0,00 | 0,00 |
| Software, Internet e Licenças | 60.000,00 | 60.000,00 | 60.000,00 |
| Energia Elétrica | 522.000,00 | 522.000,00 | 522.000,00 |
| Aluguel dos Pontos | 2.160.000,00 | 2.160.000,00 | 2.160.000,00 |
| Subtotal Painéis Eletrônicos | 41.946.125,60 | 2.742.000,00 | 2.742.000,00 |
| Intervenção em Praças e Monumentos | 500.000,00 | 500.000,00 | 500.000,00 |
| Mobiliário Urbano, Iluminação e Fachadas | 750.000,00 | 750.000,00 | 750.000,00 |
| Manutenção Geral | 200.000,00 | 200.000,00 | 200.000,00 |
| Animação Cultural e Mercado Gastronômico | 550.000,00 | 550.000,00 | 550.000,00 |
| TOTAL DO PROJETO | 43.946.125,60 | 4.742.000,00 | 4.742.000,00 |
Os painéis serão instalados no Cine Paris República, Edifício Herculano de Almeida, Galeria Sampa e Edifício New York. O maior telão terá 1.000 metros quadrados. O Edifício Independência, onde está o Bar Brahma, receberá apenas projeções mapeadas por ser um patrimônio tombado. O horário de funcionamento será das 5h às 23h, com restrições rígidas de brilho para não interferir no trânsito.

Visão técnica: Urbanismo e identidade urbana
A implementação de uma Times Square de SP levanta debates sobre poluição visual e gentrificação. O engenheiro civil especializado em urbanismo, Marlon Ceni, analisa que o projeto atua como um organizador da paisagem. “A exceção, quando bem regulada, não aumenta a poluição visual; ela organiza a paisagem urbana para condizer com o projeto proposto”, explicou o especialista. Segundo ele, São Paulo historicamente combateu o caos de placas desordenadas, mas o novo modelo foca em painéis padronizados e pontos estratégicos.
Marlon Ceni defende que grandes centros globais utilizam a comunicação digital como elemento de identidade. A transformação de uma área degradada em um eixo iluminado atrai novos empreendedores e turistas. Sobre as contrapartidas, o engenheiro considera o investimento proporcional. “As lixeiras, bancos e paisagismo entregam infraestrutura para o movimento que esta ativação vai causar na avenida. O Centro de São Paulo merece isso por ser a maior cidade da América do Sul”, reforçou.
Questionado sobre os riscos de afastar a população atual, o urbanista pontua que a valorização imobiliária é um processo natural de qualquer revitalização. O projeto da Times Square de SP funciona como um gatilho de ativação urbana. A segurança aumenta com mais fluxo de pessoas e luz. O desafio está na condução de políticas complementares, como habitação acessível e incentivo ao comércio local, para evitar que a melhora do espaço resulte em exclusão social.
Inovação social e o papel do comércio local

A perspectiva social do projeto é defendida por Fábio Redondo, vice-presidente da Associação Pró-Centro. Ele vê a intervenção como uma requalificação da experiência humana no território. “A presença de painéis luminosos e marcas não deve ser vista apenas como publicidade, mas como uma camada adicional de comunicação e ativação do espaço público”, afirmou. Para ele, o espaço deixa de ser apenas um lugar de passagem e se torna um destino.
Para os pequenos comerciantes que temem ser engolidos pela nova dinâmica da Times Square de SP, Fábio Redondo sugere adaptação. O aumento do fluxo de pessoas gera demanda. Ajustes no horário de funcionamento e no cuidado de produtos podem ajudar esses negócios a capturar o novo perfil de público. O fortalecimento de associações e fóruns locais é essencial para que os moradores tenham protagonismo nas decisões que afetam o custo de vida na região.
A inovação social do Boulevard São João, segundo o representante do Pró-Centro, está na mudança de padrão: passar da lógica de “esvaziar para organizar” para a de “ativar para incluir”. A revitalização depende da convivência de diferentes realidades. “Um Centro forte é aquele que acolhe e cria pontes. Zeladoria contínua e requalificação estética são apenas o começo de um processo que deve integrar a população em situação de vulnerabilidade através de programas de empregabilidade”, destacou.
Regulação e compromisso público

O prefeito Ricardo Nunes enfatizou que todas as etapas seguiram audiências públicas e rigor técnico. A prefeitura manterá o poder de reduzir a luminosidade ou suspender exibições se as regras forem descumpridas. A publicidade poderá ocupar apenas 30% do tempo de exibição, enquanto os outros 70% serão dedicados a conteúdos culturais e de utilidade pública. Imagens de violência, mensagens políticas ou religiosas estão vetadas nos telões da Times Square de SP.
A integração entre as esferas municipal e estadual é vista pelo prefeito como o motor dessa transformação. Ricardo Nunes mencionou que o trabalho conjunto permitiu avanços em áreas sensíveis, como a Cracolândia, e que agora o foco é o turismo. O Boulevard São João deve entrar em operação plena em setembro, criando um novo marco visual na esquina das avenidas Ipiranga e São João.
Impacto econômico e futuro do Centro

A proposta privada desonera o caixa da prefeitura para a manutenção direta daquela área específica. Com a venda de cotas de patrocínio, a empresa gestora financia a zeladoria e a segurança privada complementar. Esse modelo de parceria público-privada focado em design urbano busca replicar o sucesso de praças internacionais, adaptando a escala para a realidade paulistana.
O projeto Times Square de SP representa um teste para a flexibilização da Lei Cidade Limpa em prol da tecnologia digital. Se os resultados de fluxo turístico e segurança forem positivos, o modelo poderá ser expandido para outros eixos da capital. A expectativa é que o novo ambiente luminoso altere a percepção noturna do Centro, incentivando a abertura de restaurantes e equipamentos culturais que hoje encerram as atividades cedo por falta de iluminação e segurança.
A consolidação da Times Square de SP como um ponto turístico depende da consistência das entregas urbanas. A reforma de monumentos e a instalação de novo mobiliário urbano são fundamentais para que o projeto não seja apenas uma intervenção visual, mas uma melhoria real na mobilidade e no conforto do pedestre. O monitoramento constante da CPPU garantirá que o equilíbrio entre o interesse comercial e o bem-estar dos cidadãos seja mantido nos próximos anos.