Ladeira abaixo, teleférico acima

Prefeitura de São Paulo estuda a possibilidade de construir um teleférico na Brasilândia

Crédito: Divulgação/Freepik

A construção de um teleférico não foge muito das variáveis de uma obra de metrô. Leva-se em conta as características geológicas, a densidade urbana, possíveis desapropriações, tecnologia utilizada na construção e número de estações por trecho. Muda a modalidade de deslocamento, o formato pendurado domina todo o trajeto, salvo as estações.

O nome Brasilândia surgiu como uma tentativa de valorização do loteamento, com a ideia de um “Brasil novo”, moderno e promissor, uma espécie de “terra da brasilidade”. A ocupação aconteceu em áreas de morro e encostas, sem planejamento urbano, com ruas estreitas e sinuosas, o que gerou muitos desafios de mobilidade e urbanização.

Cresceu desordenadamente com forte presença da autoconstrução, isto é, os moradores construindo as próprias casas. Ao longo das décadas, foram implementados serviços básicos, mas o bairro enfrenta problemas críticos como deficiências no transporte público, enchentes, saneamento e segurança. Sofre com a falta de verde, que causa temperaturas médias elevadas ao longo do dia, com a caminhabilidade deficitária devido à concepção das construções e impermeabilização, quase que integral, do solo.

A Brasilândia abriga comunidades como Vila Brasilândia, Jardim Vista Alegre e Jardim Damasceno, entre outras, sendo um território rico em cultura periférica, com a presença de hip hop, samba, grafite, coletivos culturais e religiosos. Grande parte se desloca diariamente em regiões com a empregabilidade em alta, sendo rotina o deslocamento pendular, vai e volta.

Versatilidade no Transporte Público

E por que não possibilitar algo diferente para uma comunidade tão carente de serviços públicos? Na zona sul tivemos o transporte hidroviário, na zona norte, quem sabe o aéreo? Não há nada de inovador, a América Latina está recheada com esta modalidade de transporte público, que começou em Medellín, Colômbia, sendo o último construído na cidade de La Paz, Bolívia. Também tivemos uma experiência no Rio de Janeiro, no morro do Alemão, que não teve sucesso e funciona parcialmente.

Os valores de investimentos são altos, estima-se que 200 milhões de reais para cada quilômetro de extensão. A capacidade de transporte bem inferior ao metrô, se tomarmos como referência o teleférico de La Paz, são 200 mil pessoas utilizando diariamente, que equivale a 3 horas de metrô em um único sentido em horário de pico. Por outro lado, em uma análise pontual, tudo indica que escoa as pessoas para um dia de trabalho e escola com mais conforto e curtição da vista aérea. Outro entrave está na gestão do teleférico, o ideal é que desde o início do projeto tenha uma parceria público privada, pois há uma série de responsabilidades em deslocar pessoas penduradas por cabos de aço.

Imagem ilustrativa de uma estação de teleférico na avenida Cantídio Sampaio
Imagem ilustrativa de uma estação de teleférico na avenida Cantídio Sampaio
(Reprodução/SP Urbanismo)

Mas há um ponto que extrapola a questão do transporte, cito a dignidade das pessoas que residem lá, que tem seu estilo de vida, da cultura periférica e que futuramente pode fazer parte de um centro turístico na cidade, levando mais pessoas, mais segurança pública, mais cobrança no saneamento básico, mais status à comunidade, mais arte urbana, fazendo jus ao propósito do nome que deu origem a Brasilândia.

Independentemente de qual será o futuro do transporte na Brasilândia, há pontos que não devem ser negligenciados e podem ser utilizado para qualquer local de estudo na mobilidade urbana: consulta pública das pessoas que de fato moram lá e integração, inclusive no valor da passagem, com outras modalidades de transporte, seja nos terminais existentes e a existir, seja no destino fim do teleférico, até o domicílio de cada um.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 03/04/2025
  • Fonte: Sorria!,