Tecnologias unificadas para a mobilidade sustentável
Modelos de Mobilidade como Serviço (MaaS) integram modais e tecnologia para tornar o transporte urbano mais eficiente e acessível
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 24/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Há dez anos, uma aliança para promover a mobilidade sustentável e a Mobilidade como um Serviço (em inglês Mobility as a Service – MaaS) foi formada durante o ITS World Congress, em Bordeaux, por cerca de 20 organizações interessadas em fomentar a adoção de soluções de mobilidade integrada na Europa.
Esse modelo busca integrar diversos modos de transporte — públicos e privados — em uma única plataforma digital, oferecendo ao usuário uma experiência de deslocamento contínua, personalizada e eficiente.
Em vez de depender de um único modo, como o carro próprio, o cidadão acessa, por meio de um aplicativo, todas as opções de transporte disponíveis: ônibus, metrô, bicicletas, patinetes, táxis, caronas, aplicativos sob demanda e até caminhadas guiadas.
O conceito foi operacionalizado na Finlândia com o aplicativo Whim, em atividade desde 2016, que unifica diferentes modais e permite planejar, reservar, pagar e monitorar uma viagem completa em uma única interface.
A experiência começou em Helsinque, capital do país, cidade que recentemente ficou 12 meses sem registrar qualquer acidente fatal no trânsito — um indicativo de que a integração entre tecnologia, planejamento urbano e segurança viária pode gerar resultados concretos.
Funcionamento do Sistema de Mobilidade Integrado
O sistema MaaS combina a infraestrutura física — composta por modais de transporte público, bicicletas e veículos compartilhados — com um sistema digital de gestão, que funciona como uma espécie de “plataforma uberizada” de mobilidade, ampliando as possibilidades de deslocamento dentro de um trajeto planejado.

No sistema digital, uma plataforma centraliza dados, tarifas, rotas e meios de pagamento. Entretanto, a integração plena entre modais, a interoperabilidade de bilhetes, os pagamentos unificados e o funcionamento em escala transnacional ainda enfrentam desafios técnicos, regulatórios e institucionais. Até o momento, não há uma implementação com um padrão único europeu.
Benefícios para as Cidades
Mesmo sem uma integração e padronização completas, os benefícios já são evidentes: redução da dependência do automóvel, incentivo ao uso de modos de transporte limpos e compartilhados e melhor aproveitamento da infraestrutura existente.
Com o mapeamento tecnológico dos modais disponíveis, é possível equilibrar a demanda entre o transporte público e os meios alternativos, diminuindo congestionamentos e otimizando rotas. O resultado é uma menor emissão de gases de efeito estufa, redução do ruído urbano e melhoria da qualidade do ar. Além disso, a operação de um sistema complexo como este permite a coleta e análise de dados em tempo real, fornecendo às prefeituras informações estratégicas para planejar linhas de ônibus, ciclovias e estações com base nos fluxos reais de deslocamento.
Outro impacto positivo está na inclusão social e acessibilidade, já que as tarifas integradas e planos personalizados tornam o transporte mais democrático e adaptado às necessidades de diferentes grupos sociais.
Oportunidades empreendedoras
No Brasil, onde há forte dependência do veículo individual motorizado, o sistema MaaS representa um vasto campo de oportunidades para startups, universidades e governos locais.
Essas oportunidades vão desde a integração tecnológica e o desenvolvimento de plataformas de dados até modelos de mobilidade sustentável baseados em créditos de carbono e incentivos tarifários para o uso de modais menos poluentes.
Essa lógica também estimula soluções voltadas à “última milha” — a etapa final do trajeto urbano —, ampliando o papel da micromobilidade na malha de transporte.

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Exemplo de Las Vegas
A integração entre a Uber e o transporte público na cidade de Las Vegas é um dos exemplos no continente americano da aplicação prática do conceito de Mobility as a Service nos Estados Unidos.
Desde janeiro de 2020, a plataforma passou a permitir que os passageiros planejem rotas e adquiram passagens do sistema público de transporte diretamente pelo aplicativo, unificando, em um mesmo ambiente digital, os serviços privados e públicos de mobilidade urbana.
Futuro da mobilidade urbana
A mobilidade como plataforma não é apenas uma inovação tecnológica: é um novo paradigma urbano que transforma o deslocamento em um serviço integrado, acessível e sustentável.
O futuro das cidades dependerá de como conseguiremos conectar eficiência, sustentabilidade e experiência do usuário. O empreendedorismo nesse campo exige enxergar o transporte como um ecossistema interligado e compartilhado, no qual cada trajeto gera dados, negócios e valor ambiental.
Quem compreender essa lógica — e souber transformá-la em soluções concretas — será protagonista na construção das cidades inteligentes, inclusivas e neutras em carbono do futuro.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.