Mungunzá aceita área da Prefeitura, mas Teatro de Contêiner segue ameaçado
Gestores afirmam não ter recursos para a transferência e denunciam impasses, recusas e insegurança na negociação com a Prefeitura de São Paulo
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 10/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
A disputa pelo futuro do Teatro de Contêiner Mungunzá, um dos equipamentos culturais mais inovadores do país, entrou em uma nova fase após a companhia responsável pelo espaço aceitar o terreno oferecido pela Prefeitura de São Paulo para sua transferência. A decisão, no entanto, não encerra o impasse que se arrasta há meses. Sem recursos para desmontar, transportar e remontar a estrutura, o grupo afirma estar diante de um cenário que combina insegurança, ausência de diálogo efetivo e risco real de desmonte definitivo de um dos polos mais reconhecidos da cultura contemporânea paulistana.
O Teatro de Contêiner ocupa, desde 2016, um terreno na Rua Helvétia, no centro da capital, onde a Cia. Mungunzá construiu um espaço sustentável e arquitetonicamente singular a partir de 16 contêineres marítimos reutilizados. Ali, o grupo realizou mais de quatro mil atividades artístico-sociais, consolidou vínculos com a população local e recebeu premiações nacionais e internacionais. Em maio de 2025, a Prefeitura determinou a retomada do terreno sob a justificativa de futura implantação de habitação de interesse social, decisão que desencadeou forte reação da sociedade civil. Uma liminar garantiu ao teatro permanência até 25 de dezembro de 2025.
Negociação aceita, impasse mantido
A Cia. Mungunzá afirma ter aceitado a área indicada pela Prefeitura para a transferência do equipamento cultural, mas destaca que, desde o início, deixou claro não ter condições financeiras para executar uma operação estimada em aproximadamente R$ 2 milhões. Mesmo após discutir o tema em diversas reuniões, o grupo afirma que a gestão municipal ofereceu apenas R$ 100 mil, cerca de 5% do valor estimado pela própria Prefeitura para toda a mudança.
“Desde o início das negociações, deixamos claro que não teríamos condições de arcar com essa operação e que os custos precisariam ser assumidos pela Gestão Municipal”, afirma Marcos Felipe, integrante da companhia. Segundo ele, a oferta foi insuficiente e evidencia a falta de compromisso prático da administração com a continuidade do equipamento cultural.
Além do aspecto financeiro, o grupo aponta entraves na condução política das reuniões. A maioria dos encontros ocorreu sem a presença do secretário municipal de Cultura, Totó Parente. Representantes municipais, segundo a Mungunzá, adotaram postura centrada no poder jurídico e administrativo, sem abertura para negociação efetiva. “O prefeito Ricardo Nunes nunca demonstrou sensibilidade diante do trabalho desenvolvido pelo Teatro de Contêiner nem de sua importância para a cidade”, diz Felipe.
Demandas recusadas e insegurança sobre o futuro
Durante o processo, a companhia apresentou pedidos considerados essenciais para a viabilidade do novo espaço. Entre eles, a ampliação do lote em 400 m² para incluir uma praça pública, a integração do novo equipamento aos programas municipais PIA e Vocacional, apoio institucional para a programação de reinauguração e auxílio para custear água e energia, despesas que historicamente pesam sobre grupos independentes que se apresentam no local. Todos os pedidos foram recusados.
A cessão do novo terreno tornou-se mais um ponto crítico. A Cia. solicitou autorização de uso por 30 anos, tempo necessário para reconstruir um projeto estável e sustentável. A Prefeitura, contudo, ofereceu uma cessão precária de dois anos, acompanhada apenas da promessa de enviar um projeto de lei à Câmara para ampliar esse prazo, sem garantia de aprovação. O grupo também pediu uso do galpão adjacente ao novo terreno para armazenamento de equipamentos durante a reconstrução do Teatro de Contêiner, solicitação igualmente negada.
Para Lucas Beda, gestor do Teatro de Contêiner, o processo de negociação foi marcado pela sensação de desamparo. “A sensação que temos é de que a Prefeitura não quer resolver o problema, mas nos expor publicamente. Os agentes públicos que conduziram as reuniões não demonstraram conhecimento sobre a área da Cultura, sobre o Teatro de Contêiner ou sua importância para a cidade. Fomos tratados, encontro após encontro, como infratores”, afirma.
A permanência garantida pela Justiça e o horizonte incerto
A liminar que garante a permanência no terreno atual até 25 de dezembro de 2025 adiou, mas não solucionou, o risco de despejo. Sem garantia de recursos, sem cessão estável e sem apoio técnico da administração municipal, o grupo admite não ter condições de cumprir as exigências para a mudança.
“Não temos recursos para a transferência. Se a Prefeitura não se sensibilizar minimamente, se não nos chamar para construir uma solução justa para essa mudança, só nos resta esperar a polícia e os tratores para nos destruírem de forma sumária, para dar lugar a mais um prédio na cidade de São Paulo”, diz Marcos Felipe.
Teatro de Contêiner: equipamento cultural que moldou o território

Desde sua criação, o Teatro de Contêiner transformou um terreno abandonado na Luz/Santa Ifigênia em um polo cultural de referência. A iniciativa da Cia. Mungunzá, surgida em meio a um dos territórios mais vulneráveis da capital, consolidou-se como um modelo de ocupação cultural inovador, sustentável e integrado à comunidade. Em quase uma década, tornou-se símbolo de resistência artística e política em uma região historicamente marcada por abandono e estigmatização.
Com a aproximação do prazo determinado pela Justiça, o futuro do Teatro de Contêiner permanece condicionado à decisão da Prefeitura sobre financiamento, prazo de cessão e condições estruturais para a transferência. O grupo afirma que seguirá buscando diálogo, mas admite que a continuidade do projeto depende de ações concretas que ainda não ocorreram.