TDAH exige compreensão científica e apoio além do diagnóstico

Transtorno afeta funções executivas e ainda é cercado por estigmas que dificultam inclusão no trabalho e na escola

Crédito: (Arte/Agência Brasil)

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), está ganhando cada vez mais visibilidade no debate público, impulsionado por avanços científicos e pela ampliação do diagnóstico. Ainda assim, a desinformação segue alimentando estigmas que impactam diretamente a vida de crianças, adolescentes e adultos, especialmente nos ambientes escolar e profissional. Para especialistas, compreender o TDAH como uma condição do neurodesenvolvimento, e não como falha de caráter ou falta de esforço, é um passo central para a inclusão.

Essa leitura é defendida por Russell A. Barkley, uma das maiores referências mundiais no tema. Segundo ele, o transtorno está relacionado a diferenças no desenvolvimento do autocontrole e da autorregulação, afetando a capacidade de planejar, organizar ações e gerenciar emoções ao longo do tempo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o TDAH compromete funções executivas essenciais, como manutenção da atenção, controle de impulsos e regulação emocional. Essas habilidades são determinantes para o desempenho acadêmico, profissional e social, o que explica o impacto prolongado do transtorno quando não há suporte adequado.

Diagnóstico ainda enfrenta barreiras estruturais

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Apesar dos avanços no conhecimento científico, o diagnóstico correto do TDAH ainda encontra obstáculos no sistema de saúde e no contexto educacional. Para Guilherme Polanczyk, professor da Universidade de São Paulo, o transtorno atinge cerca de 5% das crianças em idade escolar e deve ser tratado como uma questão de saúde pública.

Segundo o especialista, a ausência de diagnóstico e acompanhamento pode gerar consequências que se estendem por toda a vida, incluindo evasão escolar, dificuldades profissionais e maior vulnerabilidade emocional. O atraso na identificação também contribui para interpretações equivocadas de comportamento, muitas vezes associadas a indisciplina ou desinteresse.

Tratamento personalizado envolve família e escola

O modelo contemporâneo de tratamento do TDAH é entendido como multidimensional e individualizado. Ele pode envolver acompanhamento clínico, com uso de medicamentos quando indicado, associado à psicoterapia. No entanto, especialistas ressaltam que o cuidado não se limita ao consultório.

O núcleo familiar tem papel central nesse processo, ao oferecer suporte sem subestimar as capacidades do indivíduo nem superprotegê-lo dos desafios necessários ao desenvolvimento. Já o ambiente escolar precisa ser visto como parte ativa da estratégia terapêutica, com adaptações pedagógicas baseadas em evidências científicas e foco na autonomia do estudante.

Escola pode ser espaço de exclusão ou transformação

Escola Fundação Itaú
(Divulgação)

A inclusão efetiva de alunos com TDAH exige mais do que discursos institucionais. Para Jéssica Harume Dias Muto, incluir é garantir que o estudante seja desafiado com qualidade, respeitando suas necessidades sem reduzir expectativas.

Entre as estratégias pedagógicas mais eficazes estão a divisão de tarefas longas em etapas menores, o uso de instruções claras e objetivas, a oferta de pausas estratégicas para reorganização da atenção e a flexibilização de prazos e avaliações quando necessário. Essas práticas não beneficiam apenas alunos com TDAH, mas contribuem para um ambiente escolar mais saudável e organizado.

A capacitação de professores é apontada como fator decisivo. Quando educadores conseguem diferenciar características do transtorno de comportamentos influenciados pelo ambiente, o risco de rotulação diminui. Como resume Polanczyk, a escola pode ser tanto um gatilho de exclusão quanto um espaço de transformação, dependendo da forma como enxerga o estudante para além do diagnóstico.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 24/12/2025
  • Fonte: Sorria!,