Taxas de juros no Brasil disparam em março

Crédito rotativo chega a 445% ao ano, pressionando famílias e empresas

Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O cenário financeiro brasileiro apresentou um aumento significativo nas taxas médias de juros cobradas por instituições bancárias em março, afetando tanto famílias quanto empresas. No segmento de crédito livre, as operações destinadas a pessoas físicas destacaram-se pelo aumento de 2,5 pontos percentuais (pp) na taxa média do cartão de crédito rotativo, que atingiu alarmantes 445% ao ano.

Esta modalidade de crédito continua a ser uma das mais onerosas do mercado, mesmo com a implementação de uma limitação nos juros do rotativo desde janeiro do ano anterior. Apesar da medida ter como objetivo mitigar o endividamento dos consumidores, os índices de juros permanecem voláteis, sem apresentar uma redução significativa nos meses subsequentes.

É importante destacar que essa limitação se aplica apenas a novos financiamentos, não alterando a taxa previamente acordada durante a concessão do crédito. Nos últimos 12 meses até março, as taxas para famílias aumentaram 23,7 pp.

Os dados apresentados pelo Banco Central (BC) revelam que o crédito rotativo é utilizado quando o consumidor paga menos que o valor total da fatura do cartão. Após esse período de 30 dias, as instituições financeiras parcelam a dívida. Neste formato parcelado, os juros apresentaram um pequeno aumento de 0,1 pp em março, mas tiveram uma queda de 9,6 pp ao longo de um ano, fixando-se em 181,1% ao ano.

No contexto do crédito livre geral, observou-se um crescimento da taxa média de juros para famílias em 0,3 pp no mês, acumulando uma alta de 3 pp nos últimos 12 meses e alcançando 56,4% ao ano. Em contrapartida, os juros do cheque especial caíram em março (8 pp), embora ainda apresentem um incremento anual de 6,1%, chegando a 134,2% ao ano. Desde 2020, essa modalidade está limitada a 8% ao mês (151,82% ao ano).

Quanto às empresas, as novas contratações de crédito livre registraram um aumento médio de juros de 0,8 pp no último mês e 3,5 pp em comparação com o ano anterior, atingindo uma taxa de 24,6%. Um dado preocupante é o aumento expressivo de 9 pp na taxa média do cheque especial para empresas, que agora se encontra em 349,2% ao ano.

O Banco Central esclareceu que o efeito da alteração na composição dos saldos nas diversas modalidades de crédito foi determinante para o aumento das taxas médias no crédito livre. Isso foi parcialmente atenuado pela variação nas taxas (efeito taxa).

No segmento de crédito direcionado — regulamentado pelo governo — destinado principalmente à habitação, agricultura e microcrédito, as taxas para pessoas físicas subiram para 11,4% ao ano em março. Essa taxa teve um aumento de 0,9 pp em relação ao mês anterior e de 1,6 pp em um ano. Para as empresas nesse segmento, houve um crescimento mensal de 4,7 pp e anual de 4,9%, resultando em uma taxa de 18,4% ao ano.

Dessa forma, somando os créditos livres e direcionados tanto para famílias quanto para empresas, a taxa média geral das concessões subiu 0,9 pp no último mês e aumentou 3,1 pp em um ano, alcançando a marca de 31,3% ao ano.

A escalada das taxas bancárias coincide com um período onde a Selic — taxa básica da economia — está fixada em 14,25% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. A elevação da Selic tem como objetivo controlar a inflação através da contenção da demanda; com juros mais altos há um encarecimento do crédito que estimula a poupança e reduz o consumo.

Analistas preveem que até o final deste ano a Selic poderá alcançar os 15%. Além disso, as estatísticas indicam que a taxa média de captação pelos bancos também apresentou alta: aumentou em 0,8 pp no mês e em 3,1 pp anualmente, chegando a 11,9% em março.

O spread bancário — que representa a diferença entre as taxas médias cobradas nos empréstimos e os custos relacionados à captação — aumentou modestamente em 0,1 pp no mês e permaneceu estável quando comparado com março do ano passado (19,4 pp). Essa margem é crucial para cobrir despesas operacionais e riscos associados aos empréstimos.

No que diz respeito aos saldos das operações financeiras do Sistema Financeiro Nacional (SFN), houve uma elevação de 2,7% nas concessões totais de crédito em março. O total alcançou R$ 600 bilhões; enquanto as concessões para pessoas físicas caíram levemente (-0.1%), aquelas destinadas às empresas cresceram substancialmente (6.3%). Por outro lado, as concessões direcionadas diminuíram em 4.4%, enquanto as operações livres mostraram um crescimento considerável (3.5%).

O estoque total dos empréstimos concedidos pelos bancos alcançou R$ 6.483 trilhões neste mês; isso representa uma elevação de apenas 0.6% desde fevereiro e um crescimento anual notável de 9.9%. As operações com pessoas jurídicas registraram um incremento no saldo (R$ 2.455 trilhões), enquanto as pessoas físicas alcançaram R$ 4.028 trilhões.

O crédito ampliado disponível — incluindo recursos provenientes do setor bancário e outros mercados — chegou a R$ 18.782 trilhões com uma leve alta mensal (0.2%), impulsionado principalmente pelo crescimento dos títulos públicos e dívidas securitizadas.

No que tange à inadimplência entre consumidores e empresas — considerando atrasos superiores a noventa dias — se mantém estável com índice global registrado em março de 3.2%. Este valor se divide entre pessoas físicas (3.8%) e jurídicas (2.2%). O endividamento familiar também apresenta números significativos: ficou em torno de 48.2%, representando uma leve queda mensal mas um incremento anual considerável.

A análise desses dados reflete tendências preocupantes sobre o cenário econômico atual no Brasil e sugere uma necessidade urgente por políticas eficazes que abordem o crescimento contínuo das taxas bancárias e seu impacto direto sobre os consumidores.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 30/04/2025
  • Fonte: Fever