Tarifas dos EUA são ‘tiro no pé’, diz Haddad sobre crise
Fernando Haddad criticou tarifas dos EUA sobre commodities brasileiras, destacando oportunidades para reformas tributárias e combate à desigualdade.
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 23/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, expressou sua desaprovação em relação à decisão dos Estados Unidos de estabelecer sobretaxas sobre produtos brasileiros, particularmente commodities. Em sua análise, a medida representa um “tiro no pé“, já que, segundo ele, penaliza diretamente o consumidor norte-americano, aumentando os custos do dia a dia da população.
Durante uma entrevista ao canal ICL no YouTube, Haddad rotulou a ação americana como uma “ingerência indevida” e uma “intromissão descabida”. Ele argumentou que essa guerra comercial pode abrir oportunidades para o Brasil implementar mudanças estruturais significativas. “Estamos diante de um momento auspicioso para abordar questões que anteriormente não tivemos coragem de enfrentar”, declarou.
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Haddad destacou que a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi pega de surpresa pela queda nas exportações, mas reagiu prontamente. Um plano de contingência foi ativado através do BNDES apenas quinze dias após o anúncio das tarifas, visando apoiar empresas com condições especiais.
O ministro afirmou que mais da metade das commodities afetadas pelas sanções já foram redirecionadas para novos mercados e que cerca de dois terços das exportações brasileiras não sofreram impacto. Ele elogiou o esforço de Lula em realocar as exportações, garantindo que a qualidade dos produtos brasileiros facilitará a busca por novos compradores.
Haddad salientou que a questão das tarifas está sob análise da Justiça brasileira e não é uma responsabilidade do Executivo. Ele argumentou que a decisão dos Estados Unidos carece de fundamentos políticos e econômicos, sugerindo que se baseia em desinformação.
Reformas Estruturais e Combate à Desigualdade
O ministro também abordou como as crises podem ser vistas como oportunidades para reorganizar as estruturas sociais e econômicas. Ele informou que o Brasil está aproveitando este contexto para implementar uma reforma tributária significativa, com o objetivo de corrigir distorções que favorecem as classes mais altas por meio da litigância contra o Estado.
Entre as iniciativas citadas por Haddad estão a digitalização do sistema tributário e a simplificação das regras, ambas destinadas a reduzir desigualdades sociais. Ele mencionou que a reforma do Imposto de Renda é central na agenda econômica atual e expressou otimismo quanto à possibilidade de ampliação da faixa de isenção do imposto para aqueles que recebem até R$ 5.000 mensais, com expectativa de sanção pelo presidente Lula ainda em outubro. Com essa mudança, cerca de 20 milhões de brasileiros deixariam de pagar IR até o fim do mandato do atual governo.
A nova correção proposta também deverá beneficiar um adicional de 10 milhões de pessoas. “Este será o Ministério da Fazenda que mais concedeu isenções na história do país”, assegurou Haddad, prevendo impactos diretos no bolso da população.
Embora exista um forte apoio popular para a isenção fiscal, o ministro reconheceu os desafios na aprovação das compensações fiscais necessárias. O governo pretende financiar essa renúncia tributária por meio da taxação dos chamados “super-ricos”, estimando arrecadar cerca de R$ 30 bilhões com essas medidas.
Haddad ressaltou que essa é a primeira vez que o Estado brasileiro efetivamente busca combater a desigualdade através da tributação. Ele observou que a alíquota média dos rendimentos de capital é atualmente de 2%, enquanto a proposta visa elevá-la para 10%. Apesar disso, ele reconheceu que os níveis ainda estão distantes das taxas praticadas em outros países desenvolvidos, onde os ricos pagam em média 40%.
O ministro classificou essa iniciativa como uma verdadeira “revolução” no sistema tributário brasileiro, abrindo espaço para um debate mais amplo sobre justiça tributária. Ele reiterou que o Brasil figura entre os dez países com pior distribuição de renda globalmente e enfatizou que as alterações na tabela do Imposto de Renda fazem parte de um pacote abrangente destinado a mitigar distorções existentes no sistema tributário atual.
Por fim, Haddad apontou como uma falha crítica do sistema tributário cobrar impostos do consumo dos menos favorecidos enquanto isenta os mais ricos tanto no Imposto de Renda quanto em outras obrigações fiscais. Ele destacou que, nos últimos três anos, a renda dos trabalhadores cresceu 18% acima da inflação — o maior avanço desde o Plano Real — e citou a retomada de programas sociais essenciais como Farmácia Popular e Minha Casa Minha Vida.
“É impossível pensar em desenvolvimento em um cenário com tal nível de desigualdade“, concluiu.