Quais os impactos do tarifaço de Trump na mobilidade urbana brasileira?
Decisões externas afetam diretamente o cotidiano nas cidades, elevando custos, atrasando inovações e pressionando o transporte público
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 17/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
Por mais que pareça distante do cotidiano de milhões de brasileiros, a decisão do presidente norte-americano Donald Trump de impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, a partir de agosto de 2025, traz reflexos concretos para a vida nas cidades, especialmente no que diz respeito à mobilidade urbana.
Ainda que o impacto direto recaia sobre exportadores e indústrias de base, os efeitos em cadeia devem atingir áreas sensíveis da infraestrutura urbana, entre elas o transporte público, a renovação da frota de veículos e os investimentos em soluções sustentáveis para os deslocamentos urbanos, como o Trem Intercidades e os Veículos Leves sobre Trilhos – VLTs.
Efeito dominó sobre veículos e autopeças

As tarifas podem afetar diretamente a importação de autopeças, componentes eletrônicos e tecnologias embarcadas, muitos deles provenientes de cadeias produtivas conectadas aos EUA ou dependentes de insumos dolarizados. Isso impacta o preço final de veículos fabricados no Brasil e, principalmente, encarece a manutenção de frotas públicas e privadas, mesmo com incentivos momentâneos de redução de IPI para “veículos verdes”, que passam a vigorar este mês.
Com veículos novos mais caros e custos de reposição elevados, é razoável prever um adiamento ainda maior na renovação da frota, tanto por indivíduos quanto por empresas e prefeituras. O efeito colateral pode ser o crescimento do uso de veículos mais velhinhos. Hoje a frota média brasileira já passa de 11 anos. Como consequência, mais poluentes e menos deslocamentos eficientes, além da intensificação do uso das motocicletas, que tendem a ser menos afetadas pelas tarifas, mas com impactos diretos na segurança viária e no aumento de sinistros de trânsito.
Ameaça ao transporte público de qualidade
O transporte coletivo, que já enfrenta dificuldades de financiamento e perda de demanda desde a pandemia, tende a sofrer uma pressão adicional. As empresas operadoras, sobretudo nos grandes centros urbanos, poderão ver seus custos operacionais aumentarem significativamente devido à alta do dólar e à dificuldade de importação de peças e sistemas, principalmente componentes eletrônicos, nos quais dependemos do mercado externo.
Com menos margem para investimento, o risco é a deterioração da qualidade do serviço, queda de confiabilidade e possível aumento das tarifas para o usuário final. Isso representa um obstáculo adicional à tão desejada migração do transporte individual para o coletivo, essencial para enfrentar os congestionamentos, os acidentes de trânsito e as ilhas de calor.
Redução da capacidade de investimento público
Outro ponto sensível diz respeito à arrecadação de estados e municípios. Com o desaquecimento das exportações e o impacto sobre a atividade econômica nacional, a tendência é a redução na receita de impostos, royalties e repasses federais. Isso compromete a capacidade de investimento em infraestrutura urbana, especialmente em projetos de mobilidade ativa, sistemas inteligentes de gestão de tráfego e expansão de redes de transporte de média e alta capacidade, como corredores BRTs, VLTs e Trens Intercidades.
Ciclovias, faixas exclusivas de ônibus, estações integradas e melhorias em acessibilidade urbana tendem a ser os primeiros alvos de cortes orçamentários quando o cenário fiscal se agrava.
Atraso na transição tecnológica

A mobilidade urbana do século XXI passa por soluções cada vez mais integradas e inteligentes. Sistemas de bilhetagem digital, veículos elétricos, sensores de tráfego, tecnologias para controle de emissões e plataformas multimodais exigem investimentos constantes e, muitas vezes, parcerias internacionais. O aumento das barreiras comerciais e a retração econômica nacional criam um ambiente hostil à inovação e à incorporação de novas tecnologias no transporte urbano.
Uma crise silenciosa, mas previsível
O tarifaço de Trump não representa apenas um conflito comercial, mas o prenúncio de um rearranjo geopolítico e econômico que, em última instância, afeta a vida das pessoas nas cidades. Os reflexos na mobilidade urbana não serão imediatos, mas serão profundos. Sem investimentos, sem renovação da frota, sem estímulos à tecnologia e com aumento da precarização dos deslocamentos, o caminho da mobilidade sustentável pode sofrer um sério revés.
Polarização, questões ideológicas, muitas reuniões paralelas e carta ao Governo Americano estão constantemente sendo noticiadas, mas sem um foco único em buscar alternativas reais para uma negociação. Tudo indica a se agravar com a chegada do mês de agosto, data limite para a busca de um meio termo. A negociação direta é para agora, não temos tempo de narrativas, a população carece de uma solução rápida e eficaz, antes que afete a vida cotidiana e a mobilidade das pessoas.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.