Suplementação sem critério vira risco à saúde

Letícia Almeida, da Octalab, fala ao ABC Cast Conexões sobre inovação farmacêutica, prevenção e cuidados necessários antes de aderir a novos tratamentos

Suplementação sem critério vira risco à saúde

Crédito: Letícia Almeida Rocha Subi, coordenadora de P&D Jr. na Octalab (Divulgação)

Cansaço, sono ruim, queda de energia, baixa imunidade, ansiedade, envelhecimento, estética e disposição. Em poucos minutos nas redes sociais, todos esses temas podem aparecer acompanhados de uma promessa simples demais para problemas complexos. Uma vitamina vira tendência, um mineral ganha fama, um suplemento passa a ser tratado como resposta quase universal. O risco começa justamente quando a busca por saúde deixa de partir do corpo de cada pessoa e passa a seguir a lógica da moda.

É nesse ponto que a farmacêutica Letícia Almeida Rocha Subi, coordenadora de P&D Jr. na Octalab e especialista em Medicina Ortomolecular, entra no debate. Formada pela Faculdade de Medicina do ABC, ela atua em uma área que exige leitura técnica, atenção regulatória, pesquisa de ativos, análise de viabilidade e cuidado com aquilo que chega ao paciente. Sua presença no ABC Cast Conexões ajuda a organizar uma discussão que costuma circular de forma confusa entre saúde preventiva, suplementação, medicina integrativa e promessas rápidas de bem-estar.

A primeira distinção feita por Letícia é decisiva. Medicina ortomolecular, medicina integrativa e suplementação não são nomes diferentes para a mesma coisa. Elas podem se relacionar, mas cumprem funções distintas. “Quando falamos de terapia ortomolecular ou abordagem ortomolecular, estamos falando de uma proposta que vem para identificar possíveis erros que estão acontecendo no organismo e corrigir deficiências nutricionais, minerais e outros pontos que envolvem o funcionamento do corpo. A medicina integrativa avalia o paciente de forma geral, olhando as medicações que ele toma, a qualidade do sono, a atividade física, a alimentação e a saúde como um todo. Já a suplementação é uma ferramenta, um coadjuvante, que pode auxiliar quando existem essas deficiências. A abordagem ortomolecular identifica o que a pessoa está precisando, a suplementação entra como suporte e a medicina integrativa avalia o estado geral desse paciente”, explica.

Essa diferença impede que a suplementação seja tratada como solução isolada. Antes da cápsula, da ampola ou da fórmula, há perguntas que precisam ser feitas. O que falta no organismo daquela pessoa? Quais sintomas ela apresenta? Que medicamentos utiliza? Como dorme? Como se alimenta? Qual é sua rotina? Que exames sustentam a decisão? Sem essa leitura, o suplemento deixa de ser cuidado e pode se transformar em consumo sem direção.

Letícia também chama atenção para a relação entre corpo e saúde mental. Ao comentar a influência do sono e da melatonina na rotina, ela reforça que os sistemas do organismo não funcionam de forma separada. Alterações no sono, por exemplo, podem repercutir no estresse, na ansiedade, no cansaço e na percepção geral de qualidade de vida. “Se você não tem uma qualidade de sono boa, pode ter uma baixa de melatonina, que é um hormônio natural produzido pelo nosso corpo para que o sono seja recuperador. Se isso está afetado, a pessoa pode ter insônia e não dormir bem. Se ela não dorme bem, a qualidade de vida durante o dia vai ser outra. A pessoa fica mais estressada, pode ficar com o cortisol elevado, o corpo fica inflamado, ela fica sem paciência e mais ansiosa. Então, tem a ver totalmente com a saúde mental e com a forma como o organismo está”, afirma.

O alerta está justamente nessa fronteira. Suplementação pode ser uma ferramenta importante, mas perde sentido quando vira resposta automática para cansaço, sono ruim, baixa imunidade, ansiedade ou envelhecimento. No trabalho de Letícia, prevenção exige avaliação individual, leitura do organismo e responsabilidade técnica, especialmente num ambiente em que conteúdos rápidos transformam produtos de saúde em tendência antes mesmo de explicar seus riscos.

Antes da fórmula, vem o laboratório

Open Box da Ciência que destaca o trabalho de 250 pesquisadoras protagonistas em suas áreas
(Imagem/Depositphotos)

Nos bastidores da farmácia magistral, a personalização de um tratamento começa muito antes da cápsula, da ampola ou da escolha de um ativo específico. Existe um caminho técnico que passa por demanda, pesquisa, viabilidade, concentração, forma de aplicação, controle de qualidade e responsabilidade regulatória. Para quem está do lado de fora, o produto pode parecer apenas uma resposta rápida a uma necessidade de saúde. Dentro do laboratório, porém, cada etapa precisa sustentar a segurança daquilo que chegará ao paciente.

Na Octalab, esse percurso atravessa diretamente o trabalho de Letícia Almeida como coordenadora de P&D Jr.. Quando uma nova demanda surge, a equipe precisa entender se ela vem do mercado, dos profissionais da saúde ou de necessidades percebidas na prática clínica. Médicos, farmacêuticos, biomédicos e outros profissionais chegam com solicitações que precisam ser analisadas antes de qualquer desenvolvimento. “Pesquisa e desenvolvimento dentro de uma empresa avalia a demanda do mercado e a demanda dos profissionais da saúde, porque, como farmácia de manipulação, trabalhamos diretamente com médicos, farmacêuticos, biomédicos e outros profissionais da área. Depois dessa demanda, o setor vai avaliar os ativos, onde eles estão no mercado, qual a concentração necessária para determinado tipo de deficiência, quais são os estudos relacionados, o que esse ativo vai fazer no organismo, se ele é viável ou não e quais vias de aplicação podem ser usadas. São muitos estudos nessa primeira etapa da pesquisa e desenvolvimento”, explica.

Esse processo diferencia inovação farmacêutica de simples resposta comercial. Uma tendência pode gerar interesse, mas interesse não basta para colocar um produto em circulação. Antes disso, entram critérios de estudo, segurança, aplicação e qualidade. Letícia explica que a Octalab trabalha tanto com injetáveis quanto com suplementação oral, duas frentes que exigem lógicas diferentes. Os injetáveis estão ligados à farmácia magistral e dependem de prescrição profissional. A suplementação oral, por sua vez, pode seguir fórmulas padronizadas, com disponibilidade mais ampla.

Mesmo quando há personalização, o processo não se confunde com improviso. O profissional de saúde pode combinar vitaminas, minerais, aminoácidos e outros ativos conforme a necessidade de cada paciente, mas esse trabalho parte de um portfólio previamente estruturado. A individualização, nesse caso, nasce do encontro entre prescrição, avaliação clínica e recursos farmacêuticos já analisados pela equipe técnica.  “Temos tanto a parte injetável quanto a parte de suplementação oral. O injetável é mais personalizado, mediante prescrição médica, e a suplementação oral já tem fórmulas padronizadas, aquelas disponíveis no mercado com maior facilidade. Quando pensamos em vitamina D, vitamina B12, vitamina C e outros produtos, é possível padronizar uma dosagem segura. Dentro da Octalab, temos um portfólio extenso, com vitaminas, minerais e aminoácidos. O profissional pode pedir combinações diferentes para um único paciente e acaba fazendo essa personalização a partir do que está disponível para ele”, afirma.

Depois da pesquisa e da viabilidade, a garantia da qualidade ocupa uma etapa decisiva. O produto precisa ser testado, avaliado e considerado apto antes de seguir para uso. Letícia destaca que pesquisa e desenvolvimento podem envolver anos de estudo, especialmente quando a proposta exige segurança, estabilidade e responsabilidade antes do lançamento. “Depois desse processo, vem a parte da garantia da qualidade. O produto está qualificado? O produto está pronto para ir para o mercado? Existem diversos testes que precisamos fazer para ver se ele está apto a seguir para o consumidor utilizar. Pesquisa e desenvolvimento vão muito além de captar uma demanda do mercado e lançar o produto. Tem todo um processo dentro dessas etapas para que a gente possa lançar. Às vezes, estamos falando de anos, e não de meses de pesquisa”, diz.

A engenharia por trás de uma fórmula também reposiciona o papel do farmacêutico. A atuação não se resume à manipulação ou à entrega de um produto pronto. Envolve leitura científica, diálogo com prescritores, avaliação de ativos, compreensão de normas, acompanhamento de qualidade e visão sobre as necessidades reais do paciente, reforçando a máxima de que inovação só faz sentido quando consegue caminhar junto com segurança.

Viver mais não basta para envelhecer bem

Idosos
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O envelhecimento da população transformou a longevidade em uma das grandes conversas sobre saúde, mas viver por mais tempo não garante, por si só, autonomia, disposição ou qualidade de vida. Para Letícia Almeida, esse é um cuidado essencial na forma como o tema deve ser tratado. O avanço da idade traz mudanças metabólicas, altera a absorção de nutrientes e pode aumentar a vulnerabilidade a perdas físicas importantes. A suplementação entra nesse debate como ferramenta possível, nunca como resposta automática.

A preocupação é especialmente importante para a população 60+, faixa etária em que começam a aparecer com mais frequência questões como perda de massa muscular, fraqueza, alterações na saúde óssea e redução da autonomia. A abordagem ortomolecular, segundo Letícia, pode ajudar a identificar deficiências específicas e orientar estratégias de correção, desde que o processo seja conduzido com exames, avaliação profissional e leitura individual do paciente. “Viver mais não significa que você vai viver bem. Conforme a gente envelhece, muita coisa muda no organismo. O metabolismo é diferente, a absorção dos nutrientes vai se perdendo e a pessoa pode perder autonomia, ficando mais dependente dos outros. A suplementação pode ajudar, pode ser coadjuvante, mas continua sendo uma ferramenta. A medicina ortomolecular entra para ajudar a ver quais são as principais deficiências daquele paciente e, a partir disso, corrigir o que for necessário”, explica.

A diferença entre cuidado e consumo por impulso aparece justamente nesse ponto. Um paciente idoso pode precisar de reposição de vitamina D, vitamina B12, ferro, aminoácidos ou outros nutrientes, mas a indicação não deve nascer da idade isoladamente. A decisão depende do que os exames mostram, dos sintomas apresentados, dos medicamentos em uso, da alimentação, da rotina e das necessidades reais daquele organismo. Sem essa etapa, a tentativa de prevenir perdas pode se transformar em excesso ou em uso sem benefício claro.

A especialista reforça que nenhum recurso deve ser tratado como fórmula universal para envelhecer melhor. “Uma coisa que acontece muito nos pacientes 60+ é a perda de massa muscular, mais fraqueza e uma saúde óssea debilitada. A medicina ortomolecular pode ajudar a identificar e corrigir essas deficiências. Podemos pensar em vitaminas necessárias para esse tipo de quadro, como a vitamina D, que ajuda na saúde óssea e na função muscular, e em aminoácidos como o BCAA, que podem suplementar no aumento de massa muscular e dar mais força e resistência. Mas entra naquele primeiro assunto. É muito individualizado, vai de paciente para paciente. De nada adianta querer tomar de tudo sem saber qual é o seu principal problema”, afirma.

Esse raciocínio também ajuda a deslocar a conversa sobre envelhecimento saudável para fora das promessas fáceis. Longevidade não depende de uma cápsula isolada, nem de uma sequência de produtos tomados sem critério. A suplementação pode fazer parte de uma estratégia maior quando existe deficiência, necessidade clínica ou objetivo terapêutico definido por profissionais habilitados. Alimentação, sono, atividade física, acompanhamento médico e rotina também entram nessa equação.

No caso do Grande ABC, a discussão se torna ainda mais próxima. A região já tem cerca de um idoso a cada seis moradores, dado que amplia a urgência de pensar políticas, serviços e hábitos voltados à autonomia da população mais velha. Letícia trata esse envelhecimento sem alarmismo, mas com uma advertência clara. O objetivo não deve ser apenas viver mais anos, e sim atravessar essa etapa com funcionalidade, independência e escolhas baseadas em informação segura.

Nesse sentido, a função da abordagem ortomolecular está em identificar desequilíbrios, orientar correções e apoiar o paciente dentro de uma estratégia individualizada. Para a população 60+, esse cuidado pode ajudar a preservar força, energia e qualidade de vida, mas só produz sentido quando começa pela avaliação do corpo real, não pela promessa de uma solução pronta.

Vitaminas da moda também oferecem riscos

Vitaminas - Suplementação
(Imagem/Magnific)

A facilidade de acesso aos suplementos criou uma relação perigosa entre informação rápida e consumo de saúde. Um vídeo curto nas redes sociais pode transformar uma vitamina em tendência, estimular compras por impulso e convencer pessoas sem acompanhamento profissional de que determinado produto serve para cansaço, imunidade, sono, pele, cabelo, disposição ou envelhecimento. O problema não está no interesse por prevenção, mas na velocidade com que uma recomendação genérica passa a ser tratada como necessidade individual.

Letícia Almeida reconhece que esse é um dos pontos mais sensíveis do debate atual. A internet ampliou o acesso a informações sobre saúde, mas também tornou mais difícil separar orientação responsável de promessa simplificada. No caso da suplementação, o risco aumenta porque muitos produtos são vistos como inofensivos. Vitaminas, minerais e aminoácidos costumam ser associados a cuidado, nutrição e bem-estar, o que reduz a percepção de perigo quando o consumo ocorre sem avaliação. “Hoje a internet e o TikTok têm vitamina para tudo quanto é tipo, com fácil acesso às pessoas. Um dos mitos importantes é achar que, se é vitamina, não faz mal. Isso é um mito. Eu estava conversando com amigas sobre exames periódicos e uma delas estava com a vitamina B12 elevada. Ela toma muitas medicações e muitas vitaminas. A pergunta que fiz foi se ela tinha visto se a vitamina B12 estava baixa antes de tomar. Possivelmente, dentro de alguma suplementação, ela tomou vitamina B12 mesmo já tendo um nível bom. Vitamina em excesso também pode fazer mal. É a famosa hipervitaminose”, alerta.

O fato de uma substância ser necessária ao organismo não significa que seu consumo extra seja sempre benéfico. A mesma vitamina que pode corrigir uma deficiência também pode gerar excesso quando usada sem necessidade. A diferença está na avaliação. Sem exames, histórico clínico e orientação profissional, a pessoa pode tomar algo que não precisa, repetir nutrientes presentes em diferentes produtos ou somar suplementos a medicamentos de uso contínuo sem perceber possíveis efeitos indesejados.

Outro mito apontado por Letícia é a crença de que “quanto mais, melhor”. Essa lógica transforma prevenção em acúmulo e leva muitas pessoas a consumir vários produtos ao mesmo tempo, como se a soma de cápsulas, gotas ou fórmulas ampliasse automaticamente a proteção do corpo. “Não é porque você está tomando mais vitamina que isso é melhor para a sua saúde. A pergunta precisa ser se você realmente precisa daquela vitamina. Muitas pessoas têm deficiência de vitamina D, por exemplo, mas isso não autoriza transformar qualquer suplementação em regra para todo mundo. É preciso entender o que está acontecendo naquele organismo”, afirma.

A preocupação se torna ainda maior entre idosos e pessoas que fazem uso contínuo de medicamentos. Mesmo itens aparentemente simples, incluindo alimentos e compostos naturais, podem interferir em tratamentos quando consumidos em excesso ou sem acompanhamento. “Diversas substâncias têm interação medicamentosa, principalmente nas pessoas 60+. Vou dar um exemplo até de alimentação. Verduras mais pigmentadas podem ter interação com medicamentos que essa população toma. Se a pessoa come em excesso, isso pode interferir no tratamento que ela faz. Estou dando um exemplo simples para entender que, por mais inofensiva que aquela substância pareça, ela pode interferir numa medicação. São diversas interações que podem existir, por isso é importante sempre o acompanhamento profissional”, explica.

Esse alerta reposiciona o debate sobre suplementação, afinal, o risco não está apenas em produtos clandestinos, promessas milagrosas ou fórmulas sem procedência. Ele também aparece no uso cotidiano de substâncias vistas como comuns, acessíveis e seguras. Quando a decisão nasce de um vídeo, de uma indicação informal ou de uma percepção vaga de cansaço, a pessoa pode ignorar fatores decisivos, como exames, doenças pré-existentes, medicamentos em uso, alimentação e dosagem adequada.

A orientação profissional não é burocracia, mas parte do cuidado. Médico, nutricionista e farmacêutico têm papéis complementares na definição de uma estratégia segura, especialmente quando o objetivo envolve reposição de nutrientes, envelhecimento saudável ou uso associado a tratamentos já em andamento. Em vez de seguir a vitamina da moda, o caminho responsável é compreender o próprio organismo antes de transformar uma tendência em rotina.

Pressão estética também chega ao laboratório

Pressão estética - Remédios - Suplementação
(Imagem/Magnific)

A discussão sobre suplementação encontra outro ponto sensível quando saúde e estética passam a ocupar o mesmo espaço. A busca por disposição, emagrecimento, pele melhor, cabelo mais forte ou envelhecimento com aparência preservada pode começar como cuidado legítimo, mas também pode ser atravessada por comparações, tendências e promessas de transformação rápida. Nas redes sociais, o corpo desejado muitas vezes aparece antes do processo, dos riscos e da pergunta mais importante. Aquele recurso faz sentido para aquela pessoa.

Para Letícia Almeida, a pressão estética influencia diretamente a forma como parte da população procura produtos, tratamentos e estratégias de saúde. “Hoje a estética está muito em alta, então todo mundo tenta achar o padrão perfeito. A pessoa olha e pensa que quer aquele corpo, aquele rosto, quer chegar naquilo. Entra justamente no que estávamos conversando. Se alguém está tomando alguma coisa, aquilo está fazendo bem para essa pessoa e está transformando essa pessoa, outra também quer tomar porque deseja chegar naquele padrão de beleza. Como a internet tem falado muito sobre padrão estético, isso acaba afetando a população, mas as pessoas também estão querendo se conscientizar melhor para não acabar se prejudicando”, afirma.

O exemplo das canetas emagrecedoras entrou na conversa como retrato desse fenômeno. Letícia reconhece que o tema já está no radar do setor farmacêutico justamente porque o uso recorrente começa a revelar efeitos que exigem resposta técnica. O problema aparece quando o objetivo estético passa por cima da avaliação individual. O corpo pode perder peso, mas também pode perder nutrientes, massa magra, força, cabelo, energia e equilíbrio metabólico. O resultado visível, quando isolado do acompanhamento, pode esconder uma conta biológica que aparece depois. “Isso já entrou no nosso radar, porque, conforme o uso é recorrente, vamos vendo os malefícios que aquilo vai causando. Foi por conta disso que trouxemos a terapia ortomolecular. Com a recorrência dos casos de uso das canetas emagrecedoras, o que aconteceu com a população. Foi gerando muita queda capilar, muita flacidez, muita perda de massa magra, que é a sarcopenia. Antes, era uma doença mais associada aos idosos. Agora aparece em jovens que estão usando esses medicamentos porque estão perdendo massa magra”, explica.

A resposta do laboratório não é reforçar a promessa estética, e sim tentar compreender o que precisa ser corrigido depois de um processo de perda de peso que comprometeu outras funções do organismo. Letícia cita casos de pessoas que buscaram determinado padrão e depois precisaram lidar com anemia, dificuldade de absorção de nutrientes e alimentação inadequada. A terapia ortomolecular aparece como uma possibilidade de identificar deficiências nutricionais e orientar correções dentro de um acompanhamento adequado. “Há muitos casos de pessoas que ficaram com anemia, porque não estavam absorvendo os nutrientes necessários, não estavam se alimentando direito e precisaram suplementar de alguma forma. Ficamos preocupados e trouxemos a terapia ortomolecular justamente para corrigir essas deficiências nutricionais”, diz.

Esse debate mostra como a inovação farmacêutica também precisa responder aos efeitos culturais que chegam ao corpo. A demanda por beleza, juventude, emagrecimento e performance não nasce somente no consultório. Quando essas referências deslocam tratamentos para usos sem orientação adequada, o laboratório passa a lidar com consequências que misturam mercado, comportamento e saúde pública.

A atuação responsável exige separar desejo estético de necessidade clínica. Um tratamento pode ter indicação legítima, uma suplementação pode ser necessária e uma estratégia ortomolecular pode auxiliar na correção de deficiências, desde que o ponto de partida seja o paciente real. Quando o padrão de beleza define a escolha antes da avaliação profissional, a saúde vira tentativa de imitação. Para Letícia, o cuidado começa justamente quando a pessoa deixa de perseguir a fórmula que funcionou para outro corpo e passa a investigar o que o próprio organismo precisa.

Ciência também precisa entender mercado

Ciência - Laboratório- Exames
(Imagem/Magnific)

A trajetória de Letícia Almeida ajuda a aproximar duas dimensões que muitas vezes aparecem separadas no imaginário do público. De um lado, a bancada técnica, os ativos, os estudos, a viabilidade, a qualidade e a segurança. Do outro, o mercado, a demanda, o paciente, a comunicação e a capacidade de fazer uma solução chegar a quem realmente precisa dela. Na rotina de P&D, essa divisão não se sustenta por muito tempo, porque um produto pode ser tecnicamente bem desenvolvido e ainda assim falhar se não responder a uma necessidade concreta.

Foi essa percepção que levou Letícia a ampliar sua formação para o Marketing Farmacêutico. Depois de anos trabalhando com pesquisa e desenvolvimento, ela passou a enxergar que a excelência técnica não encerrava o processo. “Estou nesse mundo de pesquisa e desenvolvimento já faz 10 anos. Quando você está desenvolvendo produtos, percebe o quanto um produto pode ter excelência, mas ainda assim faltar alguma coisa. O que faltava era entender para quem aquele produto vai ser eficiente, para quem ele vai ter funcionalidade e cumprir o papel dele. É aí que entra a questão da demanda. Quem está demandando esse produto. Qual é o público que preciso trabalhar. Além de entender o produto, que é a parte técnica e científica, você precisa entender a necessidade do mercado para trazer excelência e estratégia para aquele paciente que vai consumir”, explica.

Essa visão amplia o papel do farmacêutico dentro da indústria e das farmácias magistrais. O profissional não atua apenas no desenvolvimento de fórmulas ou no domínio de substâncias. Também precisa compreender comportamento, acesso, comunicação, posicionamento e responsabilidade na entrega. Em um setor atravessado por promessas fáceis, pressão estética e circulação acelerada de informações, saber falar com o público passa a ser parte do cuidado.

Para Letícia, a estratégia não significa transformar saúde em propaganda. Significa evitar que bons produtos fiquem invisíveis, que soluções sejam mal direcionadas ou que o consumidor procure caminhos sem orientação. “Você pode ter o melhor produto. Pode ter um produto que custa 5 mil reais, mas ele vai ser bom para você. O que eu queria entender era a estratégia do mercado, qual público preciso atingir com um produto que eu for desenvolver e quais são as melhores formas de divulgação. Eu posso ter um produto bom dentro de casa que não é visualizado lá fora. Foi pensando nessa questão estratégica que decidi ampliar meu conhecimento além do produto, também para o mercado”, afirma.

A Octalab, onde Letícia atua, integra esse processo a partir de uma atuação responsável, com validação e cumprimento das etapas necessárias para que formulações e produtos cheguem ao mercado dentro dos critérios técnicos e de segurança exigidos. O percurso de Letícia reúne pesquisa, laboratório, mercado e prevenção em uma mesma responsabilidade. A personalização de tratamentos não pode ser confundida com consumo por impulso, nem a inovação farmacêutica pode ser reduzida a uma promessa de resultado rápido. Entre a demanda que chega ao P&D e o produto que chega ao paciente, há escolhas técnicas, éticas e comerciais que precisam caminhar juntas.

E o alerta que atravessa a conversa talvez seja também o mais importante para encerrá-la. A suplementação não deve começar pela prateleira, pela tendência do momento ou pela indicação que circula nas redes sociais. Vitaminas, creatina e outros recursos podem ter espaço no cuidado com a saúde, mas a necessidade varia de pessoa para pessoa e deve ser avaliada com orientação profissional. A inovação só cumpre seu papel quando vem acompanhada de critério, segurança e responsabilidade.

Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

Letícia Almeida Rocha Subi - Octalab - ABC Cast Conexões - Suplementação - Thiago Quirino - Daniela Penatti
Letícia Almeida, Thiago Quirino e Daniela Penatti (Reprodução/ABCdoABC)

A entrevista com Letícia Almeida coordenadora de P&D Jr. na Octalab, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação da jornalista, fotógrafa e editora do ABCdoABC, Daniela Penatti.. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do ABCdoABC, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Confira a entrevista completa com Letícia Almeida:

O episódio com Letícia Almeida pode ser acessado pelo Amazon MusicSpotify e Apple Podcasts.
Em breve disponível na Deezer e YouTube.

  • Publicado: 22/08/2026 09:10
  • Alterado: 22/08/2026 09:10
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC