Stephen King em marcha lenta, brutal e comovente
Adaptação de Stephen King com direção de Francis Lawrence já está em cartaz nos cinemas brasileiros, prometendo uma jornada brutal entre horror, amizade e resistência
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 22/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Stephen King nunca foi um autor econômico em metáforas sombrias. A Longa Marcha: Caminhe ou Morra — romance escrito ainda sob o pseudônimo Richard Bachman — a caminhada é literal, mas também um espelho da juventude empurrada para a exaustão em nome de uma promessa inalcançável.
Aqui o diretor Francis Lawrence, que já havia transformado Jogos Vorazes em fenômeno global, retorna ao terreno da distopia para filmar a história de cinquenta jovens obrigados a caminhar sem parar, sob a ameaça de execução sumária a cada passo em falso. A regra é simples: reduzir o ritmo abaixo de três milhas por hora significa morrer. O prêmio: riquezas e o direito a um desejo.
É um ritual pós-guerra, televisionado para galvanizar o patriotismo, mas também um reality show perverso. O país assiste fascinado enquanto jovens corpos são transformados em espetáculo de disciplina, violência e sacrifício.
Assim, os rapazes são identificados por números, mas o filme logo devolve humanidade a esses corpos em marcha. Raymond Garraty (Cooper Hoffman) é o protagonista de rosto exausto, mas é Peter McVries (David Jonsson, numa performance magnética) quem rouba a cena e estabelece a espinha dorsal emocional do longa. A relação entre os dois, fraterna e desesperada, ecoa Conta Comigo, sob uma sombra da morte.
Ao redor, orbitam personagens como Baker, Olson, Stebbins e o imprevisível Barkovitch (Charlie Plummer), um antagonista que transita entre repulsa e reflexão. E pairando sobre todos está o “The Major”, interpretado por Mark Hamill com uma sobriedade sinistra: óculos espelhados, gestos contidos, uma encarnação burocrática do poder que dita a vida e a morte como se fossem estatísticas de planilha.
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A metáfora da caminhada com brutalidade de coração
Se a premissa poderia resvalar na monotonia — jovens andando e morrendo um a um — Lawrence busca extrair camadas de humanidade do percurso. O roteiro de JT Mollner atualiza a prosa de King com escolhas ousadas: dá mais espaço aos vínculos entre personagens, recusa o maniqueísmo e não suaviza a brutalidade. O resultado é paradoxal: uma narrativa marcada pelo horror inevitável, mas também por lampejos de ternura e solidariedade.
Essa dualidade se reflete no tom do filme, descrito por alguns críticos como um “filme de amigos” disfarçado de “filme de guerra sem guerra”. Entre piadas nervosas e silêncios de arrepiar, emerge uma fraternidade que, em meio ao sadismo das regras, parece resistência.
Cada passo é mais do que movimento: é metáfora de classe, sobrevivência e poder. A longa marcha expõe como sociedades forçam jovens a disputar até o direito de existir, enquanto plateias anestesiadas assistem. A brutalidade estatal vira entretenimento, lembrando tanto O Senhor das Moscas quanto Jogos Vorazes, mas com a crueza de King.
É um drama metafórico sobre pessoas unidas pela coação, em que pequenos gestos de afeto têm tanto peso quanto as execuções em praça pública. O poder do filme está nessa contradição: ser ao mesmo tempo sombrio, implacável e inesperadamente comovente.
Direção entre ousadia e limites
Lawrence conhece como poucos o gênero da competição mortal. Aqui, aposta em enquadramentos secos, cenários desbotados e uma estética que transmite a sensação de “terra de lugar nenhum”. Imagens de vacas mortas ou cavalos ao longe reforçam um mundo devastado, sem horizonte. Há elegância no minimalismo: figurinos, maquiagem e até o cabelo dos personagens estão lá para reforçar o desgaste, não para distrair.
Mas o desafio é estrutural. A caminhada é, por natureza, repetitiva. Mesmo com diálogos intensos e atuações sólidas, o filme por vezes se rende à sensação de estagnação. Não é falta de talento do diretor, mas consequência de adaptar uma premissa anti-cinematográfica: transformar monotonia em espetáculo.
Mesmo assim, coube a trilha sonora um destaque especial, pontuando os passos dos rapazes a cada momento de tensão e revelando nuances emocionais que complementam o silêncio pesado da narrativa. As escolhas musicais optam com uma “luz baixa” e de tons sóbrios, mas. Mesmo assim não buscam aliviar o clima sombrio, e ainda intensificam a sensação de marcha incessante, tornando a experiência ainda mais imersiva ao espectador.
Outro elemento marcante é a fotografia, que utiliza luz natural e sombras profundas para criar uma atmosfera claustrofóbica, mesmo em cenários abertos. As paisagens desoladas funcionam como extensão do estado psicológico dos personagens, reforçando o sentimento de isolamento e vulnerabilidade que permeia toda a trama.
Entre o peso e a ternura é fiel, mas exaustivo
O elenco é o que dá fôlego à narrativa. Hoffman entrega um protagonista vulnerável, Jonsson carrega intensidade que humaniza, e até os secundários mais fugazes encontram espaço para transmitir calor ou desespero. É esse coração pulsante que sustenta o público quando a repetição ameaça esgotar a paciência.
A crítica especializada tem sido extremamente positiva com o longa ao destacar que são justamente seus pontos fortes que preponderam entregando emoção a cada pingo de sangue na tela, assim, mesmo não tendo sido carregado por um grande orçamento, ele se sai muitíssimo bem. Longa Marcha – Caminhe ou Morra, não escapa de suas limitações, mas oferece generosas doses de peito aberto e humanidade honesta: ingredientes que consagram as melhores adaptações de King.
No fim, Longa Marcha – Caminhe ou Morra é fiel ao espírito de King: uma fábula brutal sobre juventude, sacrifício e espetáculo da violência. É visceral, angustiante e, em seus melhores momentos, comovente. Mas também é exaustivo, como se exigisse do espectador a mesma resistência que cobra de seus personagens.
Não é um filme para os fracos de coração. É, talvez, uma das experiências cinematográficas mais desconfortáveis de 2025 — e, justamente por isso, uma das mais marcantes.
Por que ir ao cinema
O longa “Longa Marcha – Caminhe ou Morra, se impõe como uma experiência que pede para ser vivida no cinema, não apenas assistida em casa. A tela grande amplia o peso de cada passo, a exaustão dos corpos e o silêncio que corta mais do que qualquer tiro. É nesse espaço coletivo que a fábula distópica de Stephen King encontra ressonância: o público inteiro caminha junto, sentindo na pele a repetição, o cansaço e a inevitabilidade da morte que ronda cada personagem. Há algo de ritual nessa sessão, quase como se a plateia também se tornasse parte da longa marcha, resistindo até os créditos finais.
E digo isso não só como crítico, mas como fã declarado de Stephen King e de suas histórias. Cresci caminhando pelas páginas dele, e aqui me deliciei com a forma como o diretor Francis Lawrence conseguiu preservar a essência brutal do autor, sem apagar os lampejos vivos de humanidade. Agora, basta você escolher se encara a sala escura como parte dessa jornada – de pipoca em mãos, coração preparado e a consciência de que não há botão de pausa – ou se prefere ficar de fora dessa nova loucura para um público do gênero.
Por isso acredito que sim, você deve ir ao cinema, vale o ingresso o sentimento de a cada estalo da pipoca ecoando como tambor vira resistência e silêncio da plateia, e sobretudo cumplicidade. Cada passo dos personagens se transforma também nos seus. É pesado, é exaustivo, mas é também inesquecível. Longa Marcha – Caminhe ou Morra não oferece salvação, mas deixa uma cicatriz coletiva, daquelas que fazem o público sair da sala sabendo que viveu algo raro: um épico moderno sobre a juventude, o poder e a insistência em caminhar, mesmo quando o fim já está escrito.
Confira o trailer oficial de ‘A Longa Marcha: Caminhe ou Morra’:
SERVIÇO
Título: Longa Marcha – Caminhe ou Morra (2025)
Gênero: Distopia, Thriller, Drama
Diretor: Francis Lawrence
Roteirista: JT Mollner (baseado no romance de Stephen King)
Elenco: Cooper Hoffman, David Jonsson, Charlie Plummer, Mark Hamill
Distribuidor: Lionsgate
Duração: 110 min