A solução ética para gatos comunitários
Pesquisa comprova que a metodologia Captura, Castração e Soltura (CCS) é crucial para o manejo ético e sustentável da população de gatos comunitários, garantindo segurança
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 24/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A superpopulação de felinos em áreas urbanas emergiu como um grave desafio sanitário e ambiental em todo o Brasil. As estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) pintam um quadro preocupante: entre 10 e 30 milhões de cães e gatos vivem hoje em situação de rua no país. Deste universo, calcula-se que 2 a 7 milhões sejam exclusivamente de felinos. O problema se acelera de forma contínua, impulsionado por dois fatores principais: o abandono e a reprodução sem qualquer tipo de controle. O potencial reprodutivo é impressionante, dado que uma única fêmea não castrada pode gerar até 5 mil descendentes em cinco anos.
No Distrito Federal (DF), esse cenário se manifesta de maneira intensa, especialmente em condomínios horizontais, onde há um convívio direto e um aumento constante de gatos ferais e comunitários circulando livremente. Foi a partir desta realidade que os estudantes de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Brasília (CEUB) – Maria Eduarda Boni, Eduarda Holanda, Flavia Baron, Michela Timo, David Gamarski e Julia de Medeiros – decidiram atuar. O grupo investigou a presença de felinos em condomínios do DF e analisou práticas que pudessem ser eficientes no manejo populacional.
Os autores alertam que o crescimento acelerado de gatos, sem qualquer controle ou planejamento, atinge um tripé de equilíbrio: não apenas os animais, mas também o equilíbrio ambiental e a convivência pacífica entre os moradores.
Saúde única: Manejo ético é questão de saúde pública

A professora Francislete Melo, que orientou o projeto, reforça o trabalho ao vincular o tema ao conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental. A especialista, que atua na interface entre bem-estar animal, saúde pública e participação comunitária, é categórica: “Não existe saúde plena se qualquer uma dessas dimensões está desequilibrada. O gato comunitário faz parte do ecossistema urbano e precisa ser manejado de forma ética e responsável”, afirma.
A pesquisa transformou condomínios de Brasília em laboratórios práticos. O grupo estabeleceu uma aproximação gradual com o Villages Alvorada e o Ouro Vermelho II. No Villages Alvorada, os moradores demonstraram prontidão em acolher o projeto, participando ativamente do processo e compartilhando informações cruciais.
Já no Ouro Vermelho II, a colaboração existiu, mas foi marcada por maior cautela na divulgação de imagens e dados. Este receio foi motivado por possíveis críticas externas ou pela interpretação equivocada das ações de manejo que já estavam em andamento no local. Para Francislete Melo, essa reação é frequente em estudos com animais comunitários e perfeitamente compreensível. “As pessoas se sentem mais seguras quando percebem transparência, seriedade e respeito com os animais e com quem cuida deles. Entender essas sensibilidades foi parte importante do amadurecimento da equipe”, explica a docente.
Resultados consistentes: O sucesso da captura, castração e soltura (CCS)

Em ambos os condomínios estudados, a aplicação da metodologia de Captura, Castração e Soltura (CCS) apresentou resultados consistentemente positivos. O retorno dos animais ao seu território após a cirurgia resultou em uma redução do estresse, estabilizou a população e diminuiu comportamentos agressivos entre os felinos.
“Com menos disputa por alimento e sem reprodução descontrolada, os gatos passaram a ter melhores condições de saúde”, relatam os estudantes.
Além dos benefícios diretos à saúde dos felinos, o manejo ético gerou melhorias significativas para a convivência humana. Os moradores relataram uma queda significativa em ruídos, brigas e marcação de território, o que favoreceu uma convivência mais tranquila e harmoniosa no ambiente condominial.
O engajamento comunitário se estabeleceu como o fator decisivo para a sustentabilidade do projeto. Inicialmente, as ações eram conduzidas e custeadas apenas por voluntários, que realizavam desde a captura até o pós-operatório. Com os primeiros resultados positivos, os próprios condomínios passaram a destinar recursos financeiros e a contratar equipes especializadas para ampliar o alcance e a segurança do manejo dos gatos comunitários. A postura mais reservada na divulgação, em um dos locais, permaneceu como estratégia de proteção do trabalho, evitando interpretações distorcidas e garantindo que a iniciativa fosse reconhecida como ética e ambientalmente responsável.
Responsabilidade compartilhada e o futuro dos gatos comunitários
Os pesquisadores são enfáticos ao destacar que o manejo de populações felinas exige uma combinação de sensibilidade, técnica e ampla participação social. Para a docente do CEUB, a continuidade e a eficácia dessas ações dependem da criação de políticas públicas permanentes de castração, de programas de educação ambiental consistentes e da promoção contínua da guarda responsável.
“Controlar populações de gatos comunitários é, ao mesmo tempo, proteger os animais, as pessoas e o ambiente”, conclui Francislete Melo. A experiência prática comprovada mostra que o manejo só se sustenta e alcança seu objetivo de forma duradoura quando o poder público, os profissionais de saúde e a comunidade atuam de forma totalmente integrada.