Sob a Toga e o Martelo: o primeiro ato do julgamento de Bolsonaro

Alexandre de Moraes expõe trama golpista, desmonta defesas e coloca Bolsonaro no centro de um processo que marca a história do país

Crédito: Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Logo de início, o homem da capa preta e careca lustrosa chega com expressão fechada, olhar duro e voz precisa. Alexandre de Moraes está sério — quase solene. Não há espaço para distração: derruba, sem respirar, todas as preliminares levantadas pela defesa. Uma após a outra, os pedidos para anular delações, alegações de provas inválidas e tentativas de desacreditar depoimentos caem como peças de dominó mal encaixadas.

No meio da sessão, não perdeu a chance de dar uma espetada nos advogados que reclamaram de sua postura como relator:

“Juiz não é samambaia para ficar ali, só decorando o ambiente.”

A indireta, bem irrigada, foi para Matheus Milanez, que na semana anterior tentou rotulá-lo de “juiz inquisidor” só porque Moraes resolveu regar a audiência com perguntas demais. Quem espera silêncio de planta descobre que toga também faz barulho.

O peso do voto

Blindou também a delação de Mauro Cid, peça central da engrenagem. A defesa tentou emplacar a tese de “má-fé”, mas o cara da vez tratou de enterrar o argumento com uma frase que atravessou o plenário como um estalo seco:

“A materialidade dos delitos não se discute.”

E não parou aí. Moraes separou o que são atos preparatórios de atos executórios e fez questão de cravar: o que está em julgamento não são ideias ou bravatas, mas execuções concretas — uma tentativa real de ruptura institucional.

Bolsonaro no centro da trama

Na narrativa do relator, Jair Bolsonaro não é apenas mais um réu: é o chefe da organização criminosa. Moraes foi taxativo: o ex-presidente “liderou, incentivou e organizou” a trama para permanecer no poder a qualquer custo.

E não parou nas descrições formais: a cada página, o relator encaixa ironias afiadas como bisturi. Ao revisitar o já folclórico 7 de Setembro de 2021, lembra das ameaças de Bolsonaro a Luiz Fux: nada de bate-papo institucional — era o presidente jogando gasolina na fogueira contra o STF.

Ex-presidente Jair Bolsonaro
Antonio Augusto/STF

Sobre o “encontro diplomático” com embaixadores em julho de 2022, Moraes cravou que foi um dos grandes momentos de entreguismo nacional — só superado por vendas de bananeira. Para ele, a reunião parecia um esquenta para transformar o Brasil em colônia. Colônia, aliás, sem nem um pastel de nata para adoçar a humilhação.

O relator ainda provocou: perder eleição não é o forte do time bolsonarista. Sem maturidade democrática, quase conseguiram reeditar uma ditadura à brasileira. Alternância de poder? Para eles, é só mais uma teoria da conspiração.

E, ao falar do plano “Punhal Verde e Amarelo”, impresso por Mário Fernandes no Planalto, Moraes foi direto: não, a papelada não virou barquinho de papel no Alvorada. Achar isso seria subestimar a inteligência do Supremo — e criatividade, convenhamos, não faltou à trama.

O mosaico das provas

Moraes reforça que os oito depoimentos-chave não se contradizem: se cruzam, se confirmam, se reforçam. O relato de Mauro Cid se conecta aos de Freire Gomes, Braga Netto e outros, desenhando uma linha contínua.

Ele cita nomes e papéis: Braga Netto, operador militar; Anderson Torres, articulador logístico; Alexandre Ramagem, chefe da inteligência paralela; Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, pontes com os comandos; e Almir Garnier, comandante da Marinha, que sinalizou apoio parcial ao plano.

Cada peça se encaixa. O roteiro do golpe não era teoria conspiratória: era um projeto vivo, com papéis, cargos e datas.

Foi nesse ponto, quando o clima no plenário parecia prestes a ferver, que Moraes pediu uma pausa de dez minutos. O silêncio que se seguiu disse mais do que qualquer voto. Ministros respiraram fundo, advogados cochicharam, jornalistas correram aos celulares, e do lado de fora as hashtags continuaram em combustão. Não foi descanso. Foi suspense.

Ato encerrado

Primeiro ato fechado. O tom do relator não deixa espaço para ambiguidade: o Supremo não julga rumores, julga fatos. Houve trama, houve plano, houve tentativa. Agora, o tribunal decide quem assinou o roteiro.

Brasília continua em suspense. E o protagonista, de toga nos ombros, ainda tem muito mais cartas para jogar.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 10/09/2025
  • Fonte: Fever