Síndrome de Estocolmo: condição faz vítimas sentirem empatia por seus agressores
Morte de Clark Olofsson reacende o debate sobre a síndrome de Estocolmo, que ainda não é classificada como transtorno mental, mas afeta milhares de pessoas em contextos de abuso e aprisionamento emocional
- Publicado: 19/01/2026
- Alterado: 26/06/2025
- Autor: Redação
- Fonte: TUCA
A Síndrome de Estocolmo é uma resposta emocional complexa que pode surgir quando a vítima de abuso, sequestro ou aprisionamento começa a demonstrar empatia, lealdade ou até mesmo afeto por seu agressor. Esse comportamento confunde familiares, autoridades e até os próprios profissionais da saúde mental, mas está diretamente ligado ao trauma psicológico.
Segundo a psicóloga Dra. Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, Doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela USP, o vínculo entre vítima e agressor surge como um mecanismo inconsciente de autoproteção. “É uma tentativa inconsciente da mente de buscar segurança onde há ameaça, um mecanismo de sobrevivência frente ao trauma”, explica.
A vítima, imersa em uma situação de estresse constante, acaba interpretando pequenos gestos do agressor como formas de cuidado. Com o tempo, esse comportamento distorcido pode ser confundido com amor, proteção ou parceria, o que culmina no que conhecemos como Síndrome de Estocolmo.
Sintomas e onde a síndrome de Estocolmo pode aparecer
Embora muitas vezes associada a sequestros, a Síndrome de Estocolmo também ocorre em relacionamentos abusivos, no ambiente doméstico, familiar ou até profissional. A repetição de episódios de violência emocional e manipulação pode levar a vítima a criar um vínculo de dependência e submissão.
“Relatórios de vítimas que justificam os atos do agressor, assumem a culpa pelo ocorrido e até demonstram gratidão por ‘não ter sido pior’ são comuns nesses casos. […] Muitas vezes, ela defende o agressor mesmo diante de terceiros, apresenta medo de deixá-lo e pode até sentir que ele é a única pessoa que realmente a entende”, afirma Dra. Cristiane.
Essa distorção da realidade emocional exige atenção e tratamento especializado. Uma das abordagens recomendadas é a terapia EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), método que ajuda a reorganizar memórias traumáticas e restaurar o senso de autonomia e identidade emocional.
A origem do termo ‘Síndrome de Estocolmo’ e o caso que chocou o mundo
O termo Síndrome de Estocolmo surgiu após um assalto a banco ocorrido em 1973, na capital da Suécia. Durante o sequestro de quatro reféns, as vítimas surpreenderam a polícia ao demonstrarem empatia e defesa dos criminosos. Um dos envolvidos no crime era Clark Olofsson, que morreu recentemente, aos 77 anos.
De acordo com a especialista, esse caso teve papel crucial para o entendimento do fenômeno. “O caso foi um marco para que o mundo começasse a discutir os efeitos do trauma prolongado nas relações humanas. A reação das vítimas, que demonstraram empatia e até lealdade ao agressor, trouxe à tona um fenômeno psicológico até então pouco compreendido”, destaca a psicóloga.
Clark Olofsson e o perfil manipulador dos agressores
Clark Olofsson não foi apenas um criminoso comum: sua personalidade carismática, sedutora e manipuladora teve influência direta sobre as vítimas. Para a psicóloga, esse tipo de perfil é comum entre agressores que desencadeiam esse tipo de vínculo emocional.

“Sim, esse perfil é bastante comum. Muitos agressores têm um traço sedutor, carismático, que oscila entre violência e ‘cuidado’. Essa ambivalência confunde a mente da vítima, que passa a enxergar no agressor não só o perigo, mas também um ‘protetor’ ou alguém por quem vale a pena lutar”, explica Dra. Cristiane.
O comportamento alternado entre ameaça e afeto gera na vítima uma dependência emocional. A manipulação constante causa distorções na percepção da realidade e dificulta a decisão de rompimento com o agressor.
Desafios no tratamento e reconstrução da identidade da vítima
No ambiente terapêutico, o principal desafio da Síndrome de Estocolmo é ajudar a vítima a reconhecer o abuso e desfazer a idealização do agressor. Em muitos casos, a pessoa sequer percebe que está presa em um ciclo de violência emocional.
“O maior desafio é quebrar a idealização do agressor e restaurar o senso de identidade da vítima. […] A terapia ajuda a pessoa a perceber que o que ela chama de amor, muitas vezes, foi um mecanismo de sobrevivência frente ao medo”, explica a psicóloga.
O uso do EMDR pode ser decisivo nesse processo, acessando as memórias dolorosas, ressignificando traumas e devolvendo à vítima a capacidade de compreender o que viveu com mais clareza e compaixão.
Quando o amor vira prisão: reflexões para a sociedade

A morte de Clark Olofsson reacende a discussão sobre as novas formas de abuso e aprisionamento psicológico nos dias atuais. Embora o caso original envolvesse um sequestro explícito, hoje muitos tipos de abuso emocional são silenciosos e socialmente normalizados.
“A violência hoje nem sempre se apresenta com armas ou ameaças explícitas, muitas vezes ela é emocional, sutil, silenciosa. Relacionamentos tóxicos, abusos emocionais e gaslighting são formas modernas de aprisionamento psicológico. Retomar esse debate é essencial para que as vítimas reconheçam o que vivem, busquem ajuda e saibam que há tratamento possível.”
Para além da clínica, a desinformação reforçada pela mídia e pelo cinema também contribui para a perpetuação da síndrome de Estocolmo. Relações abusivas são frequentemente romantizadas em narrativas de entretenimento, dificultando ainda mais o reconhecimento dos sinais.
“Infelizmente, muitas narrativas midiáticas romantizam esse tipo de vínculo, retratando o agressor como ‘salvador’ ou ‘amaldiçoado pelo amor’. […] Essa romantização banaliza o sofrimento de vítimas reais e dificulta o reconhecimento dos sinais de abuso.”
Entender a síndrome de Estocolmo é salvar vidas
A Síndrome de Estocolmo é um alerta para os perigos dos vínculos baseados em medo, manipulação e controle. A sociedade precisa ampliar o debate, desconstruir mitos e fortalecer a rede de apoio às vítimas.
Para a Dra. Cristiane, o papel da informação é libertador: “Precisamos falar sobre isso com responsabilidade, usando a informação como ferramenta de libertação. E, no consultório, reconstruir com cuidado as referências de afeto saudável, com base em segurança, respeito e presença emocional.”