Burnout: quando o trabalho compromete seu bem-estar

Dados recentes mostram aumento de casos, afastamentos do trabalho e números crescentes de processos trabalhistas envolvendo a Síndrome de Burnout

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“Não posso sair por algumas horas do meu trabalho para ir ao médico porque tenho medo de ser demitido”, “Não vou poder jantar com a minha família porque preciso trabalhar até mais tarde”, “Estou com dor, mas preciso trabalhar”, “Não estou conseguindo produzir como antes no serviço, estou exausto. A culpa deve ser minha por não conseguir dar conta de tudo”, “De tanto ser forte, eu adoeci”. Essas frases revelam uma realidade preocupante, marcada por sintomas claros de burnout, em que muitas pessoas sentem que precisam sacrificar a própria saúde em nome do emprego. E não é normal adoecer por causa do trabalho.

O trabalho, embora essencial para nossa sobrevivência e desenvolvimento, não deve ser um fator que comprometa seu bem-estar físico e mental. Dormir mal, comer apressadamente ou ter pouco ou nenhum tempo para a família são sinais claros de que algo está desequilibrado.

Burnout
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De acordo com dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), no Brasil, cerca de 30% das pessoas ocupadas sofrem com a síndrome de burnout, colocando o país na segunda posição mundial em casos. Essa realidade se reflete nos números do INSS, que em 2023 registrou 421 mil afastamentos do trabalho por diagnóstico de burnout, o maior número da última década.

A luta contra o Burnout: Uma história de superação e reflexão

Hellen Martins, de 28 anos, moradora de Mauá, compartilha os desafios enfrentados por quem é diagnosticado com síndrome de burnout e ansiedade no ambiente de trabalho. Os sintomas de Hellen começaram a se manifestar em julho de 2023, com tonturas intensas e uma crescente dificuldade de foco e desempenho nas atividades diárias.

“Comecei a sentir fortes tonturas enquanto caminhava pela rua em direção ao trabalho, além de notar uma dificuldade cada vez maior em manter o foco. A princípio, imaginei que pudesse ser algo físico e, por isso, realizei diversos exames médicos. Somente após a exclusão de causas clínicas é que ficou claro se tratar de uma questão de origem psicológica”, revelou Hellen.

Mesmo após o diagnóstico, Hellen continuou sua rotina exaustiva como assistente administrativa. Sua função exigia que ela abrisse a loja, gerenciasse sozinha uma equipe, atendesse clientes e realizasse tarefas administrativas. “Dificilmente conseguia encerrar o expediente no meu horário. De forma recorrente, fazia ao menos duas horas extras por dia para conseguir dar conta de todas as demandas. Muitas vezes, mesmo com o excesso de carga, havia uma cobrança intensa”, explica.

Ela permaneceu trabalhando por mais quatro meses. Nesse período, os sintomas se agravaram significativamente. Ela passou a ter dificuldades para usar o transporte público, dependendo diariamente de aplicativos, e no trabalho, se isolava na sala.

Burnout - Jornada 6X1 - escala 6X1
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Diante do agravamento dos sintomas, Hellen precisou se afastar. “Precisei me afastar pelo INSS, permanecendo em licença por quatro meses. Após o término do afastamento, retornei ao trabalho e, a partir daí, segui na empresa por mais um ano até o momento do meu desligamento”.

Após o retorno, ela conseguiu retomar suas atividades e manteve um bom desempenho por um ano. No entanto, nos dois últimos meses de vínculo com a empresa — totalizando cinco anos e cinco meses de dedicação —, os sintomas voltaram com força. “Após o meu retorno, tive um bom desempenho, com alguns períodos mais desafiadores, mas de modo geral consegui retomar minhas atividades. No entanto, nos dois últimos meses antes de ser desligada, comecei a apresentar uma piora significativa. Sentia que tudo o que havia vivido anteriormente estava voltando à tona, principalmente a sensação de não pertencimento e o sofrimento emocional que vinha com isso. Ao final desse processo, cheguei ao entendimento de que o desligamento era a melhor decisão”, desabafa.

Ao ser questionada sobre a postura da empresa, Hellen revelou uma grande distância entre os valores divulgados e a realidade. A empresa possuía um programa de telemedicina para atendimento psicológico, mas a trabalhadora nunca teve acesso a ele. “A empresa possuía um programa que oferecia atendimento psicológico por meio da telemedicina. No entanto, nunca tive acesso a esse serviço. Apesar de saber da existência do programa, ele era pouco divulgado e nunca houve uma comunicação clara sobre como os colaboradores poderiam utilizá-lo. Infelizmente, percebi uma grande distância entre os valores que a empresa divulgava – com frases de efeito que transmitiam cuidado e acolhimento – e a realidade vivida no dia a dia. Na prática, a experiência foi bastante diferente. Durante o período em que enfrentei a ansiedade, senti que fui discriminada por conta da minha condição. Além disso, em alguns momentos, tive minha capacidade profissional questionada, o que tornou o processo ainda mais difícil”.

Sintomas do Burnout

Os sintomas que Hellen experimentou são clássicos do burnout, que podem se manifestar como:

  • Cansaço extremo e persistente
  • Dificuldade de concentração
  • Irritabilidade e ansiedade
  • Alterações no sono (insônia ou sonolência excessiva)
  • Dores de cabeça frequentes
  • Tensão muscular e problemas gastrointestinais
  • Desinteresse pelo trabalho e perda de motivação

Hoje, a rotina de Hellen é totalmente diferente. A doença afetou sua qualidade de vida, levando-a a evitar situações sociais e locais públicos desacompanhada, algo que contrasta com sua personalidade anterior. Ela reconhece que a recuperação é um processo lento e desafiador, mas está ativamente investindo em seu bem-estar.

Hellen tem se dedicado à terapia, sessões de acupuntura, alimentação saudável e busca viver momentos de qualidade ao lado das pessoas que ama. Essas mudanças, segundo ela, são fundamentais para sua recuperação e para a construção de uma rotina mais saudável e equilibrada.

“Nenhum CNPJ, vale uma doença. Ao longo desse processo, aprendi a não mais suportar aquilo que me faz mal. Hoje, consigo reconhecer melhor os meus limites e entender que, por mais difícil que seja, tudo passa”.

Sua história é um lembrete da importância de priorizar a saúde mental no ambiente de trabalho e da necessidade de um suporte genuíno por parte das empresas.

Ações trabalhistas por burnout

A Justiça do Trabalho registrou um salto de 14,5% no número de processos envolvendo a Síndrome de Burnout nos primeiros quatro meses de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Para o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira, da consultoria Relações Simplificadas, esse crescimento nas queixas jurídicas evidencia que muitas empresas ainda não conseguiram se adaptar à nova realidade, onde a saúde mental deve ser uma prioridade estratégica. Nogueira destaca a alarmante posição do Brasil, que, como mencionado anteriormente, figura atrás apenas da Índia em número de casos de burnout. Ele enfatiza que, nos últimos dez anos, houve um aumento de 1.000% nos afastamentos do trabalho pelo INSS devido à síndrome, um avanço que compromete tanto a saúde do trabalhador quanto os resultados das empresas.

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Diante desse cenário, Francisco Nogueira ressalta a importância de políticas públicas e leis que regulamentem a forma de lidar com o burnout. “Temos o entendimento internacional de que a burnout é uma doença do trabalho e, portanto, a necessidade de adequação de lideranças do mundo corporativo a esse novo quadro”, complementa Nogueira.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a Síndrome de Burnout como uma condição de esgotamento psicológico relacionada exclusivamente ao trabalho, conferindo-lhe um novo status na Classificação Internacional de Doenças (CID) desde 2022. Essa mudança é crucial. Agora, não é mais possível atribuir os sintomas de burnout apenas ao estresse da vida pessoal dos colaboradores.

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Liderança tóxica

Uma recente pesquisa conduzida pela Talenses Group, intitulada “Lideranças Tóxicas e os impactos na Cultura Organizacional, Clima e Carreira Profissional”, trouxe questões alarmantes sobre o impacto negativo de lideranças inadequadas no ambiente de trabalho. O estudo, realizado em maio, entrevistou 590 profissionais de diversos níveis hierárquicos e identificou características marcantes que definem uma liderança tóxica.

Os resultados mostraram que a liderança tóxica é caracterizada por abuso de poder, manipulação emocional e comunicação agressiva. Além disso, comportamentos como excesso de controle, falta de reconhecimento, ausência de feedback construtivo e abordagens autoritárias foram igualmente destacados. O levantamento revelou que 87% dos participantes relataram já ter experimentado uma liderança tóxica durante suas carreiras, e alarmantes 62% admitiram ter pedido demissão devido a chefias abusivas.

Os efeitos dessa forma de liderança se manifestam principalmente na saúde mental dos colaboradores, contribuindo para uma queda na autoestima e confiança no ambiente de trabalho. Os profissionais também relataram desmotivação e desengajamento como consequências diretas desse tipo de gestão.

A liderança tóxica gera um clima de medo que compromete a colaboração entre os membros da equipe. Essa “violência silenciosa” pode estabelecer a ideia de que comportamentos abusivos são aceitáveis, fazendo parte da cultura organizacional. Embora a busca por resultados seja legítima, isso não deve justificar o uso do poder para intimidar ou assediar outros colaboradores. Segundo a psicóloga organizacional Patrícia Ansarah, CEO do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP), líderes devem ser vistos como parte da solução e não do problema.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 17/06/2025
  • Fonte: Sorria!,