Sindicalista aponta queda de 20% na produção de caminhões

Ainda que a Anfavea tenha apresentado números positivos e com crescimento na produção de veículos, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC aponta para retração no setor de pesados

Crédito: Celso Rodrigues/ABCdoABC

Responsável pelo transporte de 65% das cargas em todo território nacional, a utilização de caminhões no sistema rodoviário para esta finalidade é o de maior representatividade no país e, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) projeta crescimento na produção, em vendas internas e exportações de veículos, o que para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges Júnior, não representa a realidade do setor de pesados, que registrou queda de 20% na produção.

Moisés falou sobre a queda na produção de caminhões ao ABCdoABC – Foto: Celso Rodrigues/ABCdoABC

Assim, para 2025, a entidade prevê elevação de 7,8%, 6,3% e 7,4%, em produção, vendas internas e exportações, respectivamente.

Embora a entidade tenha apresentado números positivos, os dados são referentes à produção geral, que inclui veículos leves, no entanto, para o segmento de caminhões, Moisés aponta para um cenário de retração com números na produção de pesados em queda e já sinaliza conversa com o Planalto.

“Tem uma queda no mercado de 20%. É uma coisa que nós queremos discutir com o governo, porque essa queda acontece no momento que vai acontecer recorde da produção de grãos. E os principais compradores de caminhões são produtores de grãos, questão da mineração. Então, estamos fazendo os estudos, mas nós acreditamos que essa queda tem relação com a questão dos juros altos. E a ideia é buscar com o governo, junto ao MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – junto à Fazenda e junto ao BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – alguma alternativa para que a gente possa primeiro parar essa queda e retomar o mercado de caminhões, sendo que a safra vai bater recorde e para transportar precisa de caminhão”, relacionou ele, a projeção de recorde da safra com a venda de pesados.

Selerges disse que é preciso separar a produção de leves e pesados – Foto: Celso Rodrigues/ABCdoABC

Leves X Pesados

No ABC existem três grandes montadoras de caminhões, todas em São Bernardo do Campo: Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen Caminhões e Ônibus, tornando a região um polo industrial de produção de pesados com geração de empregos, renda e movimento na cadeia logística deste setor e do transporte de cargas.

“Uma coisa é o setor de caminhões, outra coisa é o setor de automóveis. O setor de automóveis está indo bem, com medidas inclusive que o governo anunciou recentemente aumentou a produção e a venda de veículos no último período. Então, a Anfavea representa todas as montadoras do país. Tem a questão então de carros, de veículos que estão bem, mas o setor de caminhões teve essa queda de 20%, avaliou Selerges.

Aliás, a previsão de crescimento de até 7,8% na produção em 2025, segundo a Anfavea, abre precedentes para o debate sobre a importância da indústria automotiva para a economia do ABC Paulista. 

De acordo com Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, os dados apresentam um cenário otimista, porém, houve queda quando a comparação é feita entre maio e junho de 2025 e no comparativo com 2024.

Assim, a produção de caminhões no País fechou o primeiro semestre de 2025 ainda em alta de 3,1% com 66.317 unidades montadas, frente às 64.319 registradas no mesmo intervalo de 2024.

Já em junho deste ano, no entanto, os 11.293 veículos do segmento mostraram quedas de 8,4% em relação a maio, quando foram montadas 12.327 unidades, e redução de 7,7% em relação a junho de 2024, que foram produzidas, à época, 12.236 unidades.

Invasão chinesa

O presidente afirmou que a sinalização de vendas de veículos não significa que foram produzidos em território nacional, já que os chineses têm se expandido no Brasil.

“Esperamos que produzam na Bahia, tem o anúncio da BYD, inclusive a inauguração deve acontecer na próxima quinta-feira. Tem a GWM, que já tem uma fábrica em Iracemápolis, em São Paulo, mas também o crescimento de vendas no último período foi muito por conta de carros que vieram prontos, importados da China. Então, se vierem prontos, não produzindo aqui não tem emprego, e é uma outra discussão que queremos fazer com o governo, já avisou Selerges outro aspecto a ser abordado com o Governo Federal.

Contudo, o sindicalista reiterou que não é contra nenhum tipo de investimento, mas que haja a preocupação em atração de novas empresas e que promova a geração de empregos.

“Não somos contra os investimentos, seja dos chineses, seja de quem for. A nossa reivindicação é que esses investimentos preveem que tem que montar uma cadeia produtiva aqui, tem que ser produzido aqui, e o setor de autopeças tem que estar inserido nisso para que a gente possa gerar emprego aqui. Porque, quando vem um carro pronto da China, não gera um emprego aqui”, reclama o presidente.

Um recente levantamento da Sondagem Industrial do Grande ABC, feito pela Strong Business School, Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação da Indústria do Estado de São Paulo (FIESP), aponta para momento de cautela no setor da indústria regional.

Isso porque a região é responsável por 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial paulista, e o ABC sentiu os impactos dos números, já que mesmo que a indústria tenha apresentado elevação de 1,7% até junho de 2025, esse desempenho é menor que os 3,5% do mesmo período em 2024 e, no Estado de São Paulo, a produção industrial encolheu 2,1%.

Selerges discorreu sobre a falsa percepção dos números, já que a Anfavea apresenta dados de forma geral, por isso, o sindicalista afirmou que é preciso separar os segmentos, e que o setor de automóveis leves segue em alta.

Falta de apoio do Estado

Com um olhar voltado para parcerias políticas, Moisés reiterou a importância do ABC como um polo para escoamento de produção e criticou a falta de apoio do Governo do Estado de São Paulo.

Moisés reclamou da falta de apoio do Estado de São Paulo – Foto: Celso Rodrigues/ABCdoABC

“A indústria como um todo, não só o setor automotivo, porque a região do ABC tem a questão da logística muito privilegiada, pelo fato de ter o porto aqui ao lado, ter o aeroporto de Guarulhos uma hora daqui, ter ferrovia, ter rodovias, enfim. Agora, o Governo do Estado de São Paulo tem que estar convencido disso e o que nos parece é que o Governo do Estado de São Paulo não se preocupa com a questão da indústria, seja aqui no ABC, seja em qualquer lugar aqui do estado de São Paulo”, disparou ele.

Que declarou que o ABC, Guarulhos e Osasco estão bem organizadas para receber investimentos, mas que falta vontade política do Governo do Estado de São Paulo para que haja diálogo e atração de novos investimentos.

O ABCdoABC foi recebido pelo presidente do Sindicato nesta segunda-feira (06) – Foto: Celso Rodrigues/ABCdoABC

Queda na produção acende sinal de alerta

Voltando aos números, Moisés disse que, a queda de 20% no setor de pesados, é um sinal de alerta.

“É um alerta, mas não para que haja PDV – Plano de Demissão Voluntária – ou demissões, ainda não é esse caminho, porque o sindicato e as empresas têm uma série de acordos que flexibilizam em momentos de queda e em momentos de crescimento também. Então, é um alerta que se acende, porque 20% é um número que nos preocupa. Agora, juntamente com as empresas, temos que tomar ações, conversar com o governo para que tome ações, para que, no primeiro momento, cesse essa queda e retome as vendas de caminhões e, por consequência, a produção, sugeriu Moisés. 

A Scania não retornou ao nosso contato – Foto: Reprodução Scania

Selerges finalizou a entrevista com o ABCdoABC informando que o diálogo é constante com as montadoras e que a preocupação inicial é não demitir.

“A gente conversa o tempo todo, não é só no momento de crise, com as montadoras. E o que nós queremos é que elas possam crescer a produção, possam vender mais, e para isso, temos que dialogar para buscar políticas que beneficiem e possam levar a isso. Por consequência, vai ter a questão dos empregos, porque no momento de crise, que nem essa queda no setor de caminhões, o mais importante no momento é a manutenção dos empregos.

Volkswagen Caminhões e Ônibus também foi procurada, mas não nos respondeu – Foto: Reprodução VW

Com um cenário favorável, o presidente até sinaliza que, com aumento da produção, é possível pensar em contratar novos trabalhadores e trabalhadoras. 

Relação Sindicato – Poder Público

Selerges concluiu ao falar sobre o relacionamento da entidade com o Poder Público do ABC.

“Estamos dialogando também com o Poder Público das sete cidades da região. E aquilo que cabe à prefeitura, seja de São Bernardo ou da região da ABC, todos têm se colocado à disposição para atrair novos investimentos, que para nós o mais importante também é atrair novos investimentos. Agora, para atrair novos investimentos, depende muito do Governo do Estado criar uma política de atração desses novos investimentos, porque São Paulo ficou muito atrás do restante do país em políticas para atrair novos investimentos, destacou o presidente.

Não se posicionaram

As montadoras instaladas em São Bernardo do Campo, Scania, Volkswagen Caminhões e Ônibus e a Mercedes-Benz foram procuradas pelo ABCdoABC para se posicionarem, mas até o fechamento desta reportagem não tinham respondido.

Mercedes-Benz de São Bernardo não retornou nosso contato – Foto: Reprodução Mercdes-Benz

Já a Anfavea sinalizou que não agenda livre do presidente da entidade para atender ao ABCdoABC.

O Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) também foi procurado, mas não retornou ao nosso contato.

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciências, Tecnologia, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo, Rafael Demarchi, também foi procurado e não retornou ao nosso contato.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 06/10/2025
  • Fonte: Sorria!,