Setor de gás natural no Brasil atrai investidores com previsão de R$ 140 bilhões

Empresas privadas disputam mercado antes dominado pela Petrobras e expandem infraestrutura para distribuição e exploração.

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A crescente competição no setor de gás natural brasileiro está chamando a atenção dos grandes investidores, que visam um mercado que exigirá, pelo menos, R$ 140 bilhões em investimentos na próxima década. Este montante refere-se aos custos relacionados à infraestrutura após a extração, excluindo os gastos com exploração e produção.

Atualmente, cinco grandes grupos empresariais estão se consolidando nesse cenário, atuando tanto nas operações comerciais quanto nas esferas políticas, dado que o setor envolve concessões públicas. Os principais players incluem a Eneva, que conta com o banco BTG como acionista majoritário, a Âmbar Energia — braço energético da J&F dos irmãos Batista, o grupo Cosan, através das subsidiárias Compass e Commit, a Energisa, da família Botelho, e a Termogás, de Carlos Suarez.

Nos últimos dez anos, essas companhias injetaram cerca de R$ 35 bilhões em busca de posicionamento estratégico no mercado de gás natural.

Apesar de ser um combustível fóssil, o gás natural é cada vez mais visto como uma alternativa viável a fontes de energia mais poluentes, como o diesel e o carvão. O gás natural não só desempenha um papel crucial na segurança energética do Brasil, especialmente com a crescente dependência de energias renováveis intermitentes, mas também é essencial para aumentar a produção nacional de fertilizantes e serve como substituto para botijões de gás e chuveiros elétricos.

A cadeia produtiva do gás natural é extensa e fragmentada. O processo começa com a exploração e extração do gás, seguido pelo processamento — que o torna adequado para venda — ou reagasificação quando transportado como Gás Natural Liquefeito (GNL). O transporte é realizado por gasodutos até chegar ao consumidor final, que pode incluir residências, empresas e usinas térmicas.

Além disso, há um crescente interesse em projetos relacionados ao biometano, uma alternativa química ao gás natural derivada de resíduos orgânicos.

Segundo Lino Cançado, CEO da Eneva, “o gás natural é reconhecido como um combustível de transição”. Ele enfatiza que a redução das emissões é uma necessidade global e que o uso do gás em substituição ao diesel pode resultar em uma diminuição significativa dessas emissões. A Eneva investiu R$ 14 bilhões nos últimos dez anos em exploração e geração térmica de energia.

Atualmente, a Eneva ocupa a quarta posição na produção de gás no Brasil, atrás apenas da Petrobras, Shell e Total. No segmento onshore (exploração em terra), ela detém 25% da produção nacional.

A companhia opera 11 usinas movidas a gás com uma capacidade total de 4.455 MW — aproximadamente 25% da capacidade térmica total do país — e tem planos para expandir suas operações, visando atender à demanda de frotas de caminhões e indústrias.

Em 2024, a Eneva passou a ser controlada pelo BTG após uma operação que envolveu a incorporação das usinas térmicas do banco. André Esteves considerou inicialmente desenvolver uma iniciativa própria no setor, mas decidiu apostar em uma empresa já estabelecida.

A J&F também busca expandir sua presença no setor. Desde sua entrada em 2015 com a aquisição da usina de Cuiabá e a criação da Âmbar Energia, o grupo acelerou suas aquisições. Hoje possui 16 usinas a gás com potência superior a 20% do total das térmicas operacionais. Nos últimos dez anos, investiu R$ 11 bilhões para aumentar sua capacidade de geração própria e R$ 8 bilhões especificamente em gás natural.

Recentemente, a Âmbar adquiriu uma pequena empresa voltada à prospecção de gás natural chamada Fluxus. Esta nova aquisição permite à empresa explorar campos produtores na Argentina e Bolívia enquanto busca oportunidades na Venezuela para garantir suprimentos para suas próprias térmicas.

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), ressalta que o movimento dos investidores privados demonstra um progresso no setor; no entanto, ele observa que ainda há uma longa jornada pela frente até que o monopólio da Petrobras no segmento seja efetivamente desmantelado — atualmente ela controla cerca de 80% da comercialização do gás no país.

No âmbito das distribuidoras de gás, a situação é distinta. Embora a Petrobras mantenha alguns contratos de fornecimento existentes, ela já se desfez de diversas participações acionárias nesse segmento competitivo.

No ano passado, a Energisa intensificou sua atuação no mercado ao adquirir a ES Gás. Em 2024, consolidou ainda mais sua presença comprando 51% da Norgás — holding com participação em distribuidoras nos estados do Nordeste.

A diretora-presidente da Energisa Gás, Debora Oliver, afirma: “Estamos adotando uma posição clara neste mercado promissor não apenas para o gás natural mas também para o biometano”. A estratégia envolve maximizar o uso do gás produzido localmente para atender polos industriais internos e substituir o diesel em rotas logísticas importantes.

Combinando aquisições e expansões nos últimos anos, o grupo já investiu R$ 2,4 bilhões no segmento do gás.

Por outro lado, Carlos Suarez fundou a Termogás em 1998 e é considerado um dos pioneiros entre os agentes privados deste mercado. Ele criticou abertamente a reinjeção excessiva de gás no pré-sal como desperdício e destacou as lacunas na infraestrutura necessária para transporte do insumo.

A rede brasileira de gasodutos é limitada comparada à argentina; ela representa apenas um terço dessa malha. A Termogás mantém parcerias com governos estaduais em oito distribuidoras espalhadas pelo Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil; no entanto, cinco delas ainda são consideradas pré-operacionais devido à falta garantida de acesso ao insumo.

Adicionalmente, está autorizada a construir 8.600 quilômetros adicionais de dutos.

O grupo Cosan entrou no mercado de gás natural em 2012 ao adquirir a concessão da Comgás na região metropolitana de São Paulo. Em 2020, consolidou suas operações através da Compass e agora expandiu ainda mais seus braços comerciais com novas iniciativas.

A Committ domina distribuição na região Sul e parte do Sudeste; enquanto isso, a Edge se concentra na comercialização de biometano e gás dentro do mercado livre através do terminal próprio instalado na Baixada Santista ou por meio do transporte rodoviário.

Desde 2020, a Cosan já investiu mais de R$ 10 bilhões no setor com o objetivo de criar um portfólio sólido de ativos e estabelecer-se como um case positivo na geração contínua de resultados financeiros.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 02/02/2025
  • Fonte: FERVER