Senatran suspende a continuidade de Faixa Azul nas cidades

Estudo revela riscos da Faixa Azul em cruzamentos; Senatran paralisa novas autorizações e alerta cidades

Crédito: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

Segundo a reportagem do Jornal O Globo, o governo federal paralisou as autorizações na implantação da Faixa Azul para novos municípios que se manifestarem o desejo. Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), as únicas cidades com portarias publicadas, que regulamentaram a implementação do projeto experimental, são: São Paulo, Salvador, São Bernardo do Campo e Santo André. As outras cidades, que não fazem parte desta singela lista, se estiverem com testes em andamento, estarão irregulares, segundo o Senatran.

Força-tarefa na pesquisa que analisou as vias de São Paulo, liderada pela USP

Por volta de 20 pesquisadores participaram do levantamento, que foi liderado pela USP. A força-tarefa analisou os dados de sinistros e entrevistaram entregadores por motocicleta. Também foram gravados 32 horas de filmagens por meio de drone, que alcançaram 362 quilômetros de avenidas, contando as que têm Faixa Azul e as que não contam com este corredor delineado no solo.

Motos - Motociclistas - Corredor de Motos - Faixa Azul
Rovena Rosa/Agência Brasil

Segundo a divulgação, esta análise teve a participação dos pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Ceará (UFC), Instituto Cordial e Vital Strategies. Houve análises com o auxílio de inteligência artificial e por meio de gravações, possibilitando coletar informações sobre o comportamento de 190.000 veículos.

Resultados preliminares alarmantes

A pesquisa traz um dado alarmante: apontaram um aumento de 33% nos sinistros de trânsito com motociclistas nos cruzamentos que tiveram implementadas a Faixa Azul, áreas que são conhecidas pela engenharia de tráfego como zonas de conflitos. Houve sim uma redução de 33%, mas esta queda ocorre entre os cruzamentos, de modo que os motoristas de automóveis, ao longo da via, acabam pensando duas vezes antes da mudança de faixa de rodagem e, nesta condição, a faixa é benéfica.

Nas vias protegidas pela Faixa Azul, 70% dos motociclistas ultrapassam os limites de velocidade, dado que, sem a faixa exclusiva, isso ocorre em 10% do público motociclista. Este dado mostra que há uma falsa segurança para aqueles que não cumprem os limites de velocidade, evidenciando que, mesmo com a redução de acidentes na cidade de São Paulo, a letalidade está mais alta aos motociclistas.

O que os dados preliminares mostram

A Faixa Azul tem tudo para dar certo, mas a engenharia de tráfego é composta por três pilares fundamentais: engenharia, que aqui se relaciona com a infraestrutura da Faixa Azul, educação e fiscalização. Estas duas últimas são essenciais para fechar o ciclo e impactar no comportamento dos motociclistas, principalmente em rodar dentro dos limites de velocidade. Quanto mais rápido se anda, menor o tempo e espaço de reação aos conflitos do trânsito — e as Leis da Física não perdoam.

Serenidade e seriedade na divulgação dos dados

Os pesquisadores não recomendam a expansão do modelo para o resto do país, como ocorre no Rio de Janeiro e em outras cidades. Mesmo sendo inconclusivo por meio desta divulgação preliminar, mostra que não é só de glórias que a Faixa Azul aparece nos dados. O comportamento humano continua sendo determinante para o sucesso de novas receitas pavimentadas nas zonas urbanas adensadas.

A Faixa Azul pode ser uma faixa de transição, não apenas para o fluxo de motocicletas, mas para a evolução da cultura viária brasileira, repleta de desigualdades sociais. Seu sucesso dependerá de menos tinta no asfalto e mais capacidade das cidades se integrarem aos dados, na empatia e na fiscalização com coerência.

A pergunta que fica é: estamos dispostos a encarar a educação no trânsito com o mesmo esforço com que pintamos o chão?

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 01/08/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping