Sempre foi sobre Bolsonaro
Decisão de Luiz Fux provoca reação política e jurídica, reacende debate sobre soberania e fortalece a narrativa em torno de Bolsonaro
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 10/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Sempre foi sobre Bolsonaro. O resto — o latim, as preliminares, as notas de rodapé — só serve de trilha sonora. Bastou um post para o roteiro ganhar claridade de meio-dia: “In Fux We Trust”. A senha foi digitada, a catraca girou, a base entrou em romaria digital. Não houve surpresa; houve confirmação. O voto de Fux não inventou o incêndio — só riscou o fósforo na sala com carpete grosso.
Do lado de fora do STF, a euforia veio em escalas: recortes do voto editados como trailers, legendas indignadas com música épica, versículos distribuídos como certificado de pureza doutrinária. O bordão reaproveitado da Lava Jato virou estandarte: o que ontem servia para exaltar “mãos limpas” hoje é verniz para blindar o capitão. O multiverso tem senso de humor — às vezes cruel. O influenciador (e neto de golpista seguindo os mesmos passos), Paulo Figueiredo cravou a síntese que correu de grupo em grupo: “Fux não será punido pela performance — no Brasil, até delírio tem foro privilegiado.” O dia coube inteiro nessa frase: voto como espetáculo, plenário como palco, política como streaming.
Camada internacional no enredo
A camada internacional entrou em cena como granizo fora de época. Sopro de sanções, recados velados, a velha coreografia de “liberdades fundamentais” acionada ao sabor da conveniência. No eco desse repertório, multiplicou-se a leitura de que a defesa de Bolsonaro poderia internacionalizar o contencioso em chave de direitos humanos: o “cerceamento de defesa” citado por Fux seria o passaporte. Não é necessidade jurídica; é munição retórica. A hipocrisia, que antes vinha disfarçada, perdeu pudor: os mesmos que queriam “economia acima de tudo” na pandemia agora flertam com sacrificar a própria economia em nome da liberdade de um homem só — desde que ele se chame Jair Bolsonaro.
Por aqui, a palavra soberania voltou à boca do palco. Falar em sanções personalizadas, com respingos em famílias de ministros, não é só desaforo diplomático: é solavanco institucional. Mistura-se moralismo de rede com política externa improvisada e se chama isso de princípio — quando o princípio, mesmo, é outro: salvar Bolsonaro. A essa altura, ninguém mais finge que não entendeu o enredo.
No miolo jurídico, o voto de Fux abriu um corredor lateral. Ao insistir que não houve arma de fogo, ele tenta rebaixar a moldura penal para, em cascata, esvaziar a lógica de organização criminosa. No papel, parece tecnicismo; na prática, opera como atalho narrativo: se não há engrenagem, então foi desordem, confusão, exagero — e não um projeto. O problema é que as imagens do dia 8 continuam em 4K: estouros, invasões, depredação, a anatomia de um roteiro que não nasceu no improviso. Há uma aposta aí: se o público aceitar o gênero “comédia de erros”, o tribunal perde o contrato de “thriller político”.

A contradição acumulada pelo caminho não é detalhe: Fux sustentou, em mais de 1,6 mil casos do 8 de janeiro, a competência do STF. Agora, sob holofotes mais altos, defende o oposto e acena para nulidade. Não há pecado em mudar de ideia; há custo em mudar o país junto. E, para arrematar, a frase calibrada com verniz de concórdia — “prefiro não citar meus colegas para não criar clima desagradável ao expor elementos por eles sustentados” — foi dita com a delicadeza de quem desparafusa com marreta. O silêncio no plenário engrossou. Olhos erguidos. Fux e Moraes se encarando por um segundo alongado. Aquelas trocas mudas que pesam mais do que qualquer voto lido.
Enquanto isso, os números duros tentam entrar na conversa: dos mais de 1.400 detidos pelo 8 de janeiro, apenas 10% seguem presos. Do ponto de vista factual, a tal “caça política” não encontra lastro estatístico. Mas estatística não emociona. O que emociona é a montagem: “perseguição”, “censura”, “tribunal de exceção”. Em tempos de corte rápida, 30 segundos de vídeo valem mais que 300 páginas de prova. O algoritmo não julga — distribui.
Há ainda a camada simbólica que o dia carregou nas costas: pela primeira vez, elites militares são julgadas em foro civil. Isso reconfigura fronteiras institucionais, atualiza traumas históricos, redesenha a pedagogia democrática. E, justamente quando o país mira esse ponto de maturidade, o palco se enche de fumaça: hashtags substituem peças, slogans abafam fatos, e o “debate sobre garantias” vira cavalo de Tróia para impunidade com assinatura premium.
A fala sobre “cerceamento de defesa” funciona como molde para recursos futuros, sim — mas, sobretudo, como script para o telejornal paralelo chapa branca, azul e vermelho. Não se trata só de ganhar amanhã no tribunal — trata-se de ganhar hoje nos trending topics e, com isso, condicionar o “amanhã”. A internacionalização vem como extensão lógica: se a plateia externa comprar a versão de “abusos”, abre-se o flanco para litigâncias fora do país — um novo campo de disputa em cortes internacionais. É a política externa da pós-verdade: gritar alto, exportar o grito, reimportar o eco como prova.
Nada disso desloca o essencial: sempre foi sobre Bolsonaro. A votação, os apartes, a pausa para o almoço disputada como gol de mão — tudo orbita o mesmo corpo. Até as ironias do destino cooperam: Fux, indicado por Dilma, hoje vira altar da corrente que sonha apagar o que os autos acenderam. No asfalto, a procissão avança com faixas e filtros; nos gabinetes, anistia volta a circular em sussurros que já não são tão sussurrados. “Humanitária”, “pontual”, “para os pequenos” — o vocabulário vem com laços de fita. O sentido, não: guardar os grandes.
Esse é o ponto onde a política encontra a dramaturgia. De um lado, ministros que tentam escrever o veredito com tinta densa, linha por linha. Do outro, operadores do caos que editam a história como vídeos curtos: uma piscada aqui, um recorte ali, pronto — nasceu a “prova” da perseguição. No meio, o Congresso fareja vento: bastidores se agitam, líderes inventariam votos, telefonemas cruzam a madrugada. A pauta da anistia só precisa de um pretexto — e Fux entregou uma tese com verniz. Não é a assinatura final; é o ensaio geral.

O saldo do dia não cabe no placar. Formalmente, pouca coisa mudou. Politicamente, muita coisa se mexeu. O voto de Fux virou carro alegórico:
“Ninguém pode ser punido pela cogitação”, delira Fux ao mesmo tempo em que se junta à (pretensa) torcida verde-amarela, que USA bandeira estrangeira nas costas, mas não se percebe ‘ironia de ventríloquo’ pra fugir do alvo.
Assim segue iluminado, barulhento, coreografado para levar a escola ao título. Para parte da plateia, funcionou. Para o colegiado, deixou arranhões, talvez hematomas. Para a democracia, acendeu o alerta vermelho que não desliga quando acaba a sessão.
E o fio da meada já aponta para onde costuma apontar: corredores aquecidos, gabinetes lotados, contabilidade de apoios, ensaio de “anistia cirúrgica” travestida de conciliação. O tribunal seguirá nos autos; a política, como sempre, correrá por fora tentando reescrever o final.
Fantasma da anistia retorna
Porque, no fim — e no começo também — sempre foi sobre Bolsonaro. Ele não estava no julgamento, mas foi a ausência mais presente: em cada voto, cada citação e cada hashtag orbitou o seu nome. Enquanto os ministros falaram em princípios, o país inteiro escutou o subtexto. No teatro do Supremo, Bolsonaro nem entra em cena, mas é quem escreve o roteiro.
O julgamento continua, mas o jogo já mudou de tabuleiro. O Supremo escreve com tinta, a política tenta editar com corretivo. Em breve, caberá a Cármen Lúcia decidir se o enredo volta para a realidade — ou se o tribunal mergulha de vez num roteiro de delírios, transformando o julgamento numa sessão extra, onde as fantasias pessoais e os sonhos molhados do bolsonarismo encontram abrigo no mundo paralelo que Fux projetou na própria cabeça, junto a planos de uma realidade que só existem lá dentro.
Enquanto isso, nos corredores, o silêncio é só fachada: os bastidores fervem. Assim, ele está de volta: o fantasma da anistia, antes sussurro, agora ecoa como ameaça — e promete ser o próximo ato desse roteiro de drama, loucura e terror.