Semáforos apagados expõem prejuízos e fragilidade urbana

Apagões após ventanias revelam como falhas em energia elétrica e semáforos ampliam congestionamentos, riscos viários e prejuízos urbanos

Crédito: (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Na última semana, a Região Metropolitana de São Paulo enfrentou ventanias intensas que provocaram não apenas a queda de árvores, mas também a interrupção do fornecimento de energia elétrica, situação que, em algumas áreas, ainda não foi plenamente normalizada. Rajadas de vento que chegaram a 96 km/h expuseram, mais uma vez, a fragilidade da infraestrutura urbana diante de eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes.

Os impactos vão além do desconforto doméstico ou das perdas comerciais. A falta de energia comprometeu o abastecimento de água, afetou residências e estabelecimentos e, de forma particularmente sensível, paralisou o funcionamento dos semáforos.

Sem energia, cruzamentos passam a operar de maneira improvisada, elevando drasticamente os congestionamentos e expondo motoristas, ciclistas e pedestres a riscos maiores de colisões. Nessas condições, os cruzamentos passam a funcionar como all-way stop, ou “quatro vias paradas”, em que todos desaceleram, freiam e disputam a prioridade de passagem — um cenário pouco eficiente e potencialmente perigoso em áreas de tráfego intenso.

Sem semáforo, sem gestão do tráfego

Semáforos Apagados - Trânsito em SO - CET
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Os semáforos são peças-chave da gestão do tráfego nos grandes centros urbanos. Quando está em operação, garante maior capacidade viária, controle de prioridades e coordenação entre fluxos. Quando os semáforos deixam de funcionar, o cruzamento deixa de ser sinalizado e passa a operar como interseção não controlada, o que eleva o tempo perdido por veículo, aumenta o risco de bloqueio do cruzamento, gera sobredemanda e propaga filas por toda a malha viária, sobretudo em áreas com alta densidade de interseções.

Estudos técnicos indicam que, nessas condições, o tempo de atraso pode mais do que dobrar, com aumentos típicos entre 100% e 300% em corredores movimentados. Em situações ainda mais críticas, como regiões centrais com vários semáforos fora de operação simultaneamente, o atraso total da rede pode ser até quatro vezes maior do que em condições normais.

O resultado é um verdadeiro efeito dominó: filas bloqueiam quadras inteiras, comprometem o transporte público, atrasam serviços essenciais e paralisam a circulação urbana.

Resiliência das cidades

Cidades resilientes são aquelas capazes de absorver choques, manter funções essenciais e se recuperar rapidamente diante de eventos adversos, como tempestades, ventanias e apagões elétricos. No campo da mobilidade urbana, isso significa garantir que a interrupção do fornecimento de energia elétrica não leve automaticamente ao colapso do tráfego, ao aumento abrupto dos congestionamentos e à elevação do risco de acidentes.

A operação contínua dos semáforos, mesmo em situações de emergência, deve ser tratada como parte da infraestrutura crítica da cidade, pois sua falha afeta diretamente a segurança viária, a eficiência do sistema de transportes e o funcionamento da economia urbana.

Planejamento para as mudanças climáticas

Evitar o colapso do abastecimento de energia e manter os semáforos em operação exige uma abordagem integrada entre infraestrutura elétrica, mobilidade urbana, gestão de riscos climáticos e governança institucional.

Trata-se menos de uma ação pontual e mais da construção de um verdadeiro sistema de resiliência urbana, capaz de antecipar falhas, absorver impactos e assegurar a continuidade das funções essenciais da cidade.

Do ponto de vista estratégico, o primeiro passo é reconhecer formalmente que a sinalização semafórica é infraestrutura urbana essencial, comparável a hospitais, estações de bombeamento e centros de telecomunicações. Isso implica incorporá-la aos planos diretores, planos de mobilidade urbana e planos municipais de adaptação climática, com a hierarquização clara de interseções críticas, corredores estruturais, rotas de transporte público, acessos a serviços de emergência e áreas de alta densidade viária.

Como evitar uma crise que já é rotineira

Semáforos Apagados - Trânsito em SP
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

No campo da infraestrutura elétrica, o planejamento urbano resiliente passa pela redundância e descentralização do suprimento de energia elétrica. Isso inclui a instalação sistemática de fontes de backup, como baterias, nobreaks e geradores, nos controladores semafóricos estratégicos, além da modernização dos equipamentos para operar com menor consumo energético e maior autonomia.

Em áreas mais sensíveis, o enterramento seletivo das redes elétricas também se mostra fundamental para reduzir a vulnerabilidade a ventos fortes, quedas de árvores e colisões com postes, causas recorrentes de apagões urbanos.

Outro pilar essencial é a integração entre energia, trânsito e tecnologia. Centros de Controle de Tráfego modernos devem operar de forma articulada com as concessionárias de energia, permitindo identificar em tempo real quais semáforos estão inoperantes, estimar o tempo de recomposição e acionar automaticamente planos de contingência.

Essa integração possibilita ajustes dinâmicos nos planos semafóricos vizinhos, redistribuição de fluxos e atuação rápida em campo, evitando que uma falha localizada se transforme em um colapso generalizado.

Há luz no fim do túnel — mas o momento de agir é agora

Os episódios recentes deixam claro que a falta de energia elétrica e os semáforos apagados não são exceções, mas sintomas de um modelo urbano ainda pouco preparado para eventos climáticos extremos.

A boa notícia é que há soluções técnicas consolidadas, experiências bem-sucedidas em outras cidades e instrumentos de planejamento capazes de mitigar esses impactos. Há, sim, luz no fim do túnel.

No entanto, essa luz só se tornará realidade se as decisões forem tomadas agora. Postergar investimentos em resiliência urbana e gestão do tráfego significa aceitar que cada nova tempestade trará congestionamentos, riscos e prejuízos cada vez maiores.

Transformar o aprendizado desses episódios em ação concreta é o passo necessário para que São Paulo e região deixem de reagir às crises e passem, de fato, a se preparar para elas.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
(Divulgação/ABCdoABC)

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 19/12/2025
  • Fonte: Fever