Sem autorização dos pais, alunos perdem acesso a óculos gratuitos

Projeto “Ouvir, Ler e Aprender” leva exames oftalmológicos e auditivos para escolas municipais, mas ausência de consentimento atrasa atendimentos gratuitos

Crédito: Suzana Rezende / ABCdoABC

A Prefeitura de São Bernardo lançou nesta quinta-feira (28) o projeto “Ouvir, Ler e Aprender”, que leva exames oftalmológicos e auditivos às escolas municipais. A ação prevê consultas, triagens e, quando necessário, a entrega de óculos e aparelhos auditivos de forma 100% gratuita.

O programa, apresentado na EMEB Regina Rocco Casa II, vai atender toda a rede municipal, alcançando cerca de 50 mil estudantes entre 6 e 11 anos. Além da avaliação de visão e audição, o projeto também inclui acompanhamento nutricional, atualização de carteirinhas de vacinação e atividades voltadas para saúde bucal.

O secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn, explicou que a carreta do projeto percorrerá as escolas municipais, ficando em cada unidade por dois dias. “A expectativa é atender toda a rede municipal, todas as escolas. São mais de 50 escolas que serão avaliadas. Todas as nossas escolas municipais terão essa avaliação. São cerca de 50 mil crianças que terão essa oportunidade de terem uma avaliação”.

Dificuldade está na autorização dos pais

Apesar da abrangência, a execução do projeto enfrenta obstáculos devido à falta de autorização de pais e responsáveis. Sem o consentimento, as crianças não podem passar pelas consultas e, consequentemente, não recebem óculos ou aparelhos auditivos, mesmo quando apresentam necessidade.

O coordenador da iniciativa, Rodrigo Fontes, destacou o problema: “Sem autorização não dá para fazer o óculos. Eu não consigo fazer nem a consulta, nem o óculos, e aí ele fica parado na triagem. Então, se vocês puderem colaborar e assinar as autorizações lá para a gente conseguir cuidar dos filhos de vocês, a gente fica muito grato”.

Fontes explicou que a principal resistência se dá no momento da dilatação ocular, exigida para exames mais detalhados. “A dilatação nada mais é que duas gotinhas de colírio que a gente pinga, uma em cada olho, para a gente conseguir olhar melhor dentro do olho e descobrir alguma possível patologia. A diferença é que vai ficar embaçado por duas, três horas a vista dessa criança, mas não é nada, não tem contra-indicação, então podem ficar tranquilos e autorizem os filhos a participar desse projeto”.

Como funcionam os exames nas escolas

Segundo Fontes, o processo começa com a triagem oftalmológica feita em todos os alunos. É aplicado o teste de Snellen, que identifica dificuldades visuais. Caso seja constatada alteração, a criança passa por autorrefração e, posteriormente, por avaliação com oftalmopediatra. “E aí é feito o mapeamento de retina, a fibroscopia, e aí consegue prescrever o óculos ou dar o encaminhamento, caso seja necessário”.

No caso da audição, os responsáveis pela criança respondem a um questionário com 15 perguntas. “Três respostas ‘sim’ ou mais, capacita ela pra uma consulta com a fonoaudióloga, onde faz a audiometria e vê se tem alguma dificuldade ali na audição. E aí, se tiver necessidade de tratamento, a gente encaminha ou pro otorrino ou pra dar sequência com a fono do município”.

Para as crianças que necessitam de óculos, o processo também é realizado no local. “A criança que usou do óculos, ela vem, ela já escolhe na hora o óculos. Esse óculos, hoje, ele já bate lá no lugar que vai ser feito. Todos os óculos da região, quando estiverem prontos, faz um evento e entrega”.

Impacto no aprendizado

Durante a coletiva de imprensa, o secretário de Saúde de São Bernardo ressaltou o impacto que dificuldades de visão e audição têm no rendimento escolar. “Vocês entendem que o processo de audição, de visão, é fundamental para uma criança conseguir desenvolver na escola da melhor maneira possível. Então isso é de fundamental importância para nós”.

Ao ser questionado sobre como essa ação iria impactar o município em números, o secretário disse que é preciso esperar para fazer um comparativo. “

Nós vamos cruzar exatamente esses dados que estão sendo relatados aqui com os dados das aprendizagens das nossas crianças para a gente perceber o quanto elas evoluíram quando elas tiveram essa condição de terem óculos e também ouvirem da maneira mais adequada”.

Ele também destacou a importância para os professores, que muitas vezes não conseguem identificar os problemas de saúde que comprometem o aprendizado. “Isso é de fundamental importância. E tem um impacto ainda principal, que é para o professor. Isso também é valorização do professor. Porque o professor, quando ele não consegue identificar o que está acontecendo, ele pode tirar outras relações de responsabilidade sobre isso. Então é uma ação fundamental”.

Acompanhamento anual garantido

As crianças diagnosticadas com necessidade de lentes ou aparelhos auditivos também terão acompanhamento contínuo. “Sem dúvida alguma, anualmente nós teremos uma reavaliação. Essas crianças recebem uma carteirinha como essa, do nosso projeto Ouvir, Ler e Aprender, em que vão ser definidos quais são as alterações refrativas que essas crianças têm e reavaliadas anualmente. E a troca também vai ser feita pela Prefeitura, de forma absolutamente gratuita”.

O secretário reforçou que o município tem a obrigação de oferecer esse cuidado:

“Isso é uma obrigação do município acolher o seu cidadão e, principalmente, o nosso futuro. O nosso futuro vai depender exatamente de ouvir bem, ler bem e aprender bem”.

Desafios e continuidade

Apesar de ser uma ação ampla, a efetividade depende da adesão das famílias. Segundo Fontes, mesmo quando a criança não participa no primeiro momento, há possibilidade de encaixe posterior. “A gente encaixa, não tem problema, a gente dá um jeito, não vamos deixar nenhuma criança desassistida”.

O programa deve seguir de forma gradual pelas regiões da cidade. Cada etapa contempla escolas de uma área específica, com triagem, exames e entrega de óculos em eventos organizados. No caso dos aparelhos auditivos, os encaminhamentos são realizados pela Secretaria de Saúde.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 28/08/2025
  • Fonte: FERVER