Descubra os segredos da Ilha das Cobras: biodiversidade e lendas de tesouros perdidos
Além da jararaca-ilhoa, Queimada Grande abriga espécie endêmica de anfíbio; mar da região detém barreira de coral mais ao sul do Oceano Atlântico
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 18/07/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
A Ilha da Queimada Grande, popularmente conhecida como “Ilha das Cobras”, é muito mais do que um simples ponto geográfico no litoral paulista. Este local se destaca como um verdadeiro ícone da biodiversidade brasileira, com suas águas repletas de histórias intrigantes. Entre os elementos que cercam esta ilha, encontram-se fenômenos naturais, teorias evolutivas, espécies únicas, relatos de naufrágios e lendas de tesouros perdidos.
Neste artigo, serão explorados sete aspectos fascinantes sobre a Ilha da Queimada Grande, que é considerada uma das mais perigosas do mundo e abriga a famosa jararaca-ilhoa.
1. Uma Ilha com Dois Nomes

Embora oficialmente chamada de Queimada Grande, a ilha está situada entre as cidades de Peruíbe e Itanhaém, a cerca de 35 quilômetros da costa paulista. Classificada como Unidade de Conservação Federal sob a administração do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o acesso à ilha é restrito e autorizado apenas para pessoas devidamente credenciadas.
Popularmente referida como Ilha das Cobras, a Queimada Grande é notável por ser o segundo local no mundo com maior concentração de cobras por metro quadrado, além de ser o habitat exclusivo da Bothrops insularis, uma espécie endêmica que não se encontra em nenhuma outra parte do planeta. É importante destacar que o Rio de Janeiro também possui uma Ilha das Cobras na Baía da Guanabara, gerando confusões entre os visitantes.
2. O Passado Incendiário da Ilha
No início do século XX, era comum atear fogo na vegetação da Queimada Grande por parte dos moradores locais e pescadores, com a intenção de afastar as serpentes que ali habitavam. Esses incêndios eram frequentemente intensos e podiam ser vistos a grandes distâncias, originando o nome “Queimada Grande“.
3. A Evolução da Jararaca-Ilhoa

A jararaca-ilhoa é um fascinante exemplo da teoria da evolução proposta por Charles Darwin. Estudos sugerem que essa serpente compartilha um ancestral comum com a jararaca “normal” (Bothrops jararaca). Há cerca de 11 mil anos, mudanças climáticas provocaram o isolamento de uma população dessas serpentes em ilhas, resultando em adaptações distintas devido às diferentes condições ambientais encontradas na Queimada Grande.
Esse isolamento levou ao desenvolvimento de características como corpo mais esguio e cauda longa, favorecendo a movimentação nas copas das árvores e a captura de aves, que se tornaram sua principal fonte alimentar na ausência de roedores.
4. Diversidade Além das Jararacas

A biodiversidade da Queimada Grande vai além das jararacas. O ambiente isolado possibilitou o surgimento do Scinax peixotoi, um pequeno sapo endêmico encontrado em bromélias. Com um tamanho que varia entre 18 e 25 milímetros, essa espécie foi identificada recentemente por pesquisadores do Instituto Butantan e universidades paulistas.

Além disso, outros animais também habitam a ilha, como a dormideira (Dipsas albifrons), conhecida por sua discrição; a barata silvestre (Hormetica laevigata) e o atobá-pardo (Sula leucogaster), cujas impressionantes acrobacias aéreas atraem admiradores.

5. Recifes de Coral Inesperados
As águas claras que rodeiam a Queimada Grande são atraentes para mergulhadores, especialmente após a descoberta de uma barreira de coral com 75 mil metros quadrados situada a 12 metros de profundidade — considerada o recife mais ao sul do Oceano Atlântico. Essa formação rochosa surpreendeu pesquisadores, já que recifes desse tipo geralmente estão localizados em regiões mais próximas à Linha do Equador.
Notavelmente, este recife é composto exclusivamente pelo coral Madracis decactis, ao contrário da maioria dos recifes que incluem várias espécies.
6. Histórias de Naufrágios
A região em torno da Queimada Grande é marcada por naufrágios históricos, tornando-se um atrativo para mergulhadores. O vapor Rio Negro naufragou em 1893 devido à baixa visibilidade causada pela cerração intensa. Posteriormente, em 1993, o vapor Tocantins também encontrou seu fim nas águas próximas à ilha sob circunstâncias semelhantes.
Mais recentemente, em 2019, um barco com pescadores virou durante uma tempestade próxima à ilha; quatro deles conseguiram sobreviver após se abrigarem nas rochas por três dias antes do resgate.
7. Lendas de Tesouros Perdidos
Dentre as lendas que cercam a Queimada Grande está a história de um tesouro escondido há mais de 500 anos por um explorador europeu que saqueou ouro na América Latina. Segundo relatos documentais apresentados pelo Discovery Channel em 2015, os perigos representados pelas jararacas teriam sido uma estratégia para proteger esse tesouro valioso contra invasores.
No entanto, ironicamente, essa estratégia pode ter contribuído para a crítica ameaça à sobrevivência da jararaca-ilhoa nos dias atuais devido ao biopiratismo e à demanda por colecionadores interessados nesta espécie rara.