Saúde mental: Chão de fábrica estressa menos que escritório

Pesquisa com 245 empresas revela que a trabalhadores da indústria tem melhor saúde mental do que no comércio e serviços

Crédito: Divulgação/Freepik

O senso comum diz que o ambiente de fábrica é o mais desgastante para o trabalhador e exige mais de sua saúde mental. No entanto, um levantamento inédito realizado pela Aventus Saúde Ocupacional com 245 empresas da Região Metropolitana de Campinas (RMC) acaba de inverter essa lógica. O estudo revela que a Indústria apresenta melhores índices de saúde mental em todos os indicadores analisados, superando escritórios, hospitais e o comércio.

A descoberta ajuda a explicar o cenário crítico do país: entre os meses de janeiro e setembro de 2025, foram registrados 403 mil casos de afastamentos pelo INSS por transtornos mentais. Esse número reforça uma sequência alarmente, já que em 2024, o Brasil bateu o recorde de 472.328 afastamentos, um salto de 67% comparado a 2023.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o impacto financeiro dessa crise de bem-estar ultrapassa os R$ 400 bilhões por ano, reforçando que o cuidado com o colaborador é também uma questão de viabilidade econômica.

No entanto, o estudo revela que o problema não reside apenas na carga de trabalho, mas na forma como ele é organizado e gerido. Como destaca o Dr. Marco Aurélio Bussacarini, fundador da Aventus e um dos responsáveis do estudo: “Os fatores psicossociais do trabalho são os perigos decorrentes de falhas na concepção, organização e gestão do trabalho e afetam diretamente a saúde psicológica, física e social do trabalhador”.

A ciência por trás do bem-estar

Para chegar a esses resultados, a pesquisa utilizou o método britânico HSE-IT (Health and Safety Executive Indicator Tool), validado no Brasil pelo Prof. Dr. Sérgio Roberto de Lucca, da Unicamp. A metodologia não mede apenas o sentimento do colaborador, mas sim a qualidade da gestão através de 7 domínios:

  1. Demanda: carga de trabalho, prazos e ritmo.
  2. Controle: o quanto o trabalhador decide sobre como fazer sua tarefa.
  3. Apoio da chefia: suporte e incentivo vindos dos gestores.
  4. Apoio dos colegas: colaboração e ambiente de equipe.
  5. Relacionamentos: ausência de conflitos e comportamentos inaceitáveis.
  6. Cargo: clareza de funções e falta de conflito de papéis.
  7. Comunicação e mudanças: como as alterações na empresa são geridas e informadas.

O estudo identificou que o domínio “Cargo” é o ponto mais crítico para a saúde mental. Conforme explica o Dr. Bussacarini, “um cargo confuso, mal estruturado ou distorcido é um fator de risco psicossocial direto pois impacta na motivação, no senso de propósito e na estabilidade emocional do trabalhador”. Ou seja, funções claras favorecem a saúde mental.

Por que a fábrica vence o escritório na saúde mental?

No chão de fábrica as tarefas são mais organizadas

A grande surpresa do relatório foi o desempenho da Indústria. Segundo o texto do estudo: “A indústria surpreendeu positivamente: em todos os domínios, o setor teve resultados melhores que a média geral, sugerindo melhor estrutura organizacional”.

Especialistas explicam que a clareza de processos da indústria atua como um escudo para a saúde mental. Enquanto no setor de Serviços e no Comércio impera a ambiguidade — o famoso “fazer de tudo um pouco“, na indústria cada colaborador sabe exatamente o que se espera dele. A previsibilidade do chão de fábrica, onde as tarefas são sequenciais e o início e fim da produção são bem definidos, reduz drasticamente a carga mental de tomada de decisão, algo que consome silenciosamente os trabalhadores de escritório.

Radiografia dos Setores

O levantamento detalha como o estresse se distribui de forma desigual, apontando causas específicas para o desgaste em outros setores:

Transportes, que correspondem a 17% das empresas pesquisadas, são o  campeão do estresse com impacto na saúde mental, com riscos graves em 5 dos 7 domínios, devido ao isolamento e à alta pressão de tempo. Comércio (19% das empresas) apresentou o segundo pior desempenho psicossocial, cujo vilão é a escala 6×1, que limita o tempo de recuperação biológica e o convívio social, somada à pressão constante pelo atendimento ao público e metas agressivas, mantendo o sistema nervoso do trabalhador em alerta ininterrupto.

No setor de Serviços, correspondendo a 50% das empresas pesquisadas, entre escritórios e áreas administrativas, o adoecimento é impulsionado pela ambiguidade funcional. Sem ordens claras ou escopos de cargo bem definidos, o colaborador se vê obrigado a gerir múltiplas demandas urgentes e mutáveis. Diferente da fábrica, onde a entrega é física e visível, no escritório o trabalho é muitas vezes infinito, gerando uma exaustão cognitiva que não se encerra ao bater o ponto.

Compliance e NR-01 são a nova era da fiscalização

As empresas brasileiras correm contra o tempo para se adequar às novas exigências da NR-10. A norma exige que o ambiente corporativo identifique e monitore riscos psicossociais de forma sistemática. O tema ganha urgência diante dos dados de 2024, que revelaram o maior volume de afastamentos por burnout e depressão da última década.

A negligência com a saúde mental agora tem implicações legais diretas. Bussacarini reforça a gravidade do cenário citando o Guia do Ministério do Trabalho: “Os fatores psicossociais do trabalho são os perigos decorrentes de falhas na concepção, organização e gestão do trabalho e afetam diretamente a saúde psicológica, física e social do trabalhador”.

Para combater esse quadro, as empresas devem se adequar à NR-01, que exige o gerenciamento de riscos psicossociais no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). O advogado trabalhista Dr. Fabrício Tavares alerta que, com a nova regra e o Guia do Ministério do Trabalho de 2025, o diagnóstico psicossocial tornou-se um item de conformidade legal.

“A ausência de diagnóstico e de medidas preventivas, em um cenário de recorde de afastamentos, pode ensejar a responsabilização jurídica da empresa antes mesmo de um funcionário adoecer”, afirma Tavares.

A mente como diferencial competitivo

Brasileiros priorizam saúde mental em 2026
Saúde mental em dia melhora a produtividade não apenas no trabalho, mas em todos os aspectos da vida.

O estudo conclui que a sustentabilidade emocional será o divisor de águas para as empresas brasileiras. Saúde mental em dia é fundamental para uma produtividade positiva em todas as áreas da vida, além do trabalho. “A mente saudável é o novo diferencial competitivo”, encerra o Dr. Sérgio de Lucca. Para as empresas de serviços e comércio, a lição que vem da indústria é clara: organizar processos e definir papéis é a melhor forma de salvar mentes e garantir a produtividade.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 21/01/2026
  • Fonte: FERVER