Saúde mental da juventude e o perigo real do sofrimento silencioso
Estudo da Fiocruz revela índices críticos de suicídio e internações. Especialistas alertam: o sofrimento psíquico dos jovens requer prioridade nacional.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 05/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A saúde mental da juventude vive hoje um de seus capítulos mais dramáticos na história recente do Brasil. Em meio a uma rotina marcada pela aceleração digital, pressões por desempenho e instabilidade econômica, adolescentes e jovens adultos enfrentam uma escalada silenciosa de sofrimento. Dados recentes divulgados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmam o que consultórios e famílias já percebiam na prática: o quadro é de alerta máximo e exige intervenção imediata.
O Informe Epidemiológico sobre a Situação de Saúde da Juventude Brasileira aponta que a taxa de suicídio nesta faixa etária atingiu 31,2 casos por 100 mil habitantes. O número supera a média geral da população, fixada em 24,7 por 100 mil. A gravidade se acentua ao analisarmos o recorte de gênero, onde homens jovens apresentam uma taxa de 36,8 por 100 mil, evidenciando uma vulnerabilidade letal.
Diante de estatísticas tão contundentes, a psiquiatra Aline Sena da Costa Menezes, da ViV Saúde Mental e Emocional, explica que não estamos lidando com eventos isolados. Trata-se de uma confluência de fatores.
“Do ponto de vista técnico, observamos um acúmulo de determinantes, desde transtornos depressivos não diagnosticados até o uso problemático de substâncias, associado a contextos de desigualdade e insegurança emocional. Quando esses elementos se somam, criam um ambiente propício para a escalada de comportamentos autolesivos.”
Para a especialista, cada número no relatório representa um processo de adoecimento longo, muitas vezes invisibilizado. A resposta, portanto, não pode se limitar ao atendimento de emergência; ela precisa ser estrutural.
O colapso silencioso da saúde mental da juventude

Entender a crise da saúde mental da juventude exige olhar para além dos números frios e compreender a dinâmica das internações. O estudo da Fiocruz revela que homens jovens (15 a 29 anos) foram responsáveis por 61,3% das hospitalizações por transtornos mentais entre 2022 e 2024.
As causas variam drasticamente conforme o gênero, desenhando perfis de adoecimento distintos:
- Homens: A principal causa de internação envolve o abuso de múltiplas substâncias, álcool e cocaína.
- Mulheres: A depressão severa aparece como o principal motivo para a hospitalização.
Essa discrepância na saúde mental aponta para uma falha sistêmica na prevenção. Quando um jovem chega à internação, o sistema falhou em acolhê-lo nos estágios iniciais do sofrimento. A psiquiatra Aline Sena reforça que a emergência psiquiátrica é, muitas vezes, o último refúgio de quem sofreu calado por anos. O estigma, a sensação de invulnerabilidade e a falta de informação criam barreiras que impedem o cuidado precoce.
Sinais de alerta: Quando buscar ajuda?

Uma das maiores dificuldades das famílias é distinguir as oscilações típicas do crescimento de patologias que exigem tratamento. A psicóloga Nathalia Melo esclarece essa fronteira tênue. Segundo a especialista, oscilar é parte da adolescência. Irritação, dúvidas e mudanças de humor são esperadas. O problema reside na intensidade e na permanência.
Para proteger a saúde mental da juventude, pais e educadores devem atentar-se ao que Melo classifica como sinais silenciosos. Muitas vezes, o perigo não mora no grito, mas no silêncio.
“Os sinais mais preocupantes nem sempre são os mais barulhentos. Muitas vezes o que chama atenção é um jovem que vai se apagando aos poucos: se isola mais, perde o interesse por coisas que antes gostava, fica constantemente cansado ou desmotivado”, alerta Nathalia Melo.
Fique atento a estes indicadores comportamentais:
- Alterações no sono: Insônia persistente ou excesso de sono (hipersonia).
- Queda de rendimento: Dificuldades súbitas na escola ou faculdade.
- Autocrítica severa: Sentimento constante de insuficiência.
- Isolamento: Desconexão de amigos e atividades prazerosas.
- Desesperança: Falas como “não adianta falar” ou “ninguém vai entender”.
A literatura médica é taxativa: quanto mais internalizado o sintoma, maior o risco de ele passar despercebido até que seja tarde demais. Se as mudanças de comportamento durarem semanas e afetarem a funcionalidade do jovem, a busca por ajuda profissional deixa de ser uma opção e torna-se uma necessidade de saúde.
Gênero e expressão da dor emocional

A socialização desempenha um papel crucial na forma como a saúde mental da juventude se manifesta em rapazes e moças. Embora a dor emocional não tenha gênero, a permissão social para expressá-la é distribuída de forma desigual.
Nathalia Melo desconstrói o estereótipo simplista de que o homem apenas “age” e a mulher “sente”. A realidade clínica é mais complexa. Meninas, historicamente, recebem mais “autorização” social para verbalizar tristeza, medo e insegurança. Isso facilita, em tese, o diagnóstico de quadros depressivos e ansiosos, pois o sintoma é comunicado.
Por outro lado, meninos são frequentemente ensinados a reprimir a vulnerabilidade. O resultado é uma expressão de sofrimento que foge do padrão clássico da tristeza:
- Irritabilidade explosiva;
- Impulsividade;
- Comportamentos de risco (velocidade, brigas, abuso de substâncias).
“Muitos rapazes sofrem profundamente, mas têm menos repertório emocional e menos espaço para falar sobre isso”, explica Melo.
Essa falta de letramento emocional nos homens jovens contribui diretamente para as altas taxas de suicídio e internação por abuso de substâncias citadas pela Fiocruz. O jovem tenta “anestesiar” uma dor que não sabe nomear. Portanto, promover a saúde mental da juventude passa, obrigatoriamente, por ensinar meninos a reconhecerem e validarem suas emoções sem julgamento.
O paradoxo da solidão na era da conexão

Vivemos um fenômeno contraditório. Nunca houve tanta facilidade de conexão digital, e, no entanto, os consultórios estão lotados de jovens que relatam uma solidão profunda. A psicóloga Nathalia Melo analisa esse paradoxo como um dos grandes vilões da atualidade para a saúde mental.
As redes sociais, embora prometam aproximação, muitas vezes funcionam como vitrines de uma felicidade inatingível. O jovem é bombardeado por imagens de sucesso, produtividade e estabilidade emocional alheia. Cria-se uma pressão desumana: a proibição da falha.
“Muitos jovens sentem que não podem falhar, que não podem demonstrar fraqueza. Existe uma pressão constante para parecer produtivo e feliz. Isso faz com que, mesmo cercados de pessoas, eles sintam que não têm com quem falar de verdade quando algo dói”, pontua a psicóloga.
Esse cenário digital impacta diretamente a decisão de buscar terapia. Admitir que precisa de ajuda é visto, equivocadamente, como uma derrota pessoal ou um “bug” no sistema de autossuficiência que a internet vende. Romper essa lógica é vital para a saúde mental. A terapia deve ser encarada não como um conserto para quem falhou, mas como uma ferramenta de alta performance emocional para organizar o caos interno.
Caminhos para um futuro saudável
Reverter os índices alarmantes da saúde mental na juventude apresentados pela Fiocruz exige um esforço conjunto. A psiquiatra Aline Sena é enfática ao afirmar que a solução para a crise na saúde mental da juventude depende de políticas públicas integradas. Não basta tratar o sintoma; é preciso atacar a causa.
Isso envolve investir na formação de profissionais capacitados para identificar o sofrimento precoce, ampliar o acesso a serviços de psicologia e psiquiatria no SUS e, fundamentalmente, fortalecer as redes comunitárias de apoio. Escolas, famílias e o Estado precisam falar a mesma língua.
Para Nathalia Melo, a chave também está na desidealização. É preciso normalizar o pedido de ajuda. Falar abertamente sobre dores, medos e fracassos retira o peso da perfeição das costas dessa geração.
Cuidar da saúde mental da juventude é um compromisso ético da sociedade. Estamos falando de uma geração inteira que pede socorro — às vezes gritando, mas na maioria das vezes, em silêncio. Cabe a nós ouvir e agir antes que o próximo relatório estatístico seja ainda mais grave.
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