Saúde mental da juventude e o perigo real do sofrimento silencioso

Estudo da Fiocruz revela índices críticos de suicídio e internações. Especialistas alertam: o sofrimento psíquico dos jovens requer prioridade nacional.

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A saúde mental da juventude vive hoje um de seus capítulos mais dramáticos na história recente do Brasil. Em meio a uma rotina marcada pela aceleração digital, pressões por desempenho e instabilidade econômica, adolescentes e jovens adultos enfrentam uma escalada silenciosa de sofrimento. Dados recentes divulgados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmam o que consultórios e famílias já percebiam na prática: o quadro é de alerta máximo e exige intervenção imediata.

O Informe Epidemiológico sobre a Situação de Saúde da Juventude Brasileira aponta que a taxa de suicídio nesta faixa etária atingiu 31,2 casos por 100 mil habitantes. O número supera a média geral da população, fixada em 24,7 por 100 mil. A gravidade se acentua ao analisarmos o recorte de gênero, onde homens jovens apresentam uma taxa de 36,8 por 100 mil, evidenciando uma vulnerabilidade letal.

Diante de estatísticas tão contundentes, a psiquiatra Aline Sena da Costa Menezes, da ViV Saúde Mental e Emocional, explica que não estamos lidando com eventos isolados. Trata-se de uma confluência de fatores.

“Do ponto de vista técnico, observamos um acúmulo de determinantes, desde transtornos depressivos não diagnosticados até o uso problemático de substâncias, associado a contextos de desigualdade e insegurança emocional. Quando esses elementos se somam, criam um ambiente propício para a escalada de comportamentos autolesivos.”

Para a especialista, cada número no relatório representa um processo de adoecimento longo, muitas vezes invisibilizado. A resposta, portanto, não pode se limitar ao atendimento de emergência; ela precisa ser estrutural.

O colapso silencioso da saúde mental da juventude

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Entender a crise da saúde mental da juventude exige olhar para além dos números frios e compreender a dinâmica das internações. O estudo da Fiocruz revela que homens jovens (15 a 29 anos) foram responsáveis por 61,3% das hospitalizações por transtornos mentais entre 2022 e 2024.

As causas variam drasticamente conforme o gênero, desenhando perfis de adoecimento distintos:

  • Homens: A principal causa de internação envolve o abuso de múltiplas substâncias, álcool e cocaína.
  • Mulheres: A depressão severa aparece como o principal motivo para a hospitalização.

Essa discrepância na saúde mental aponta para uma falha sistêmica na prevenção. Quando um jovem chega à internação, o sistema falhou em acolhê-lo nos estágios iniciais do sofrimento. A psiquiatra Aline Sena reforça que a emergência psiquiátrica é, muitas vezes, o último refúgio de quem sofreu calado por anos. O estigma, a sensação de invulnerabilidade e a falta de informação criam barreiras que impedem o cuidado precoce.

Sinais de alerta: Quando buscar ajuda?

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Uma das maiores dificuldades das famílias é distinguir as oscilações típicas do crescimento de patologias que exigem tratamento. A psicóloga Nathalia Melo esclarece essa fronteira tênue. Segundo a especialista, oscilar é parte da adolescência. Irritação, dúvidas e mudanças de humor são esperadas. O problema reside na intensidade e na permanência.

Para proteger a saúde mental da juventude, pais e educadores devem atentar-se ao que Melo classifica como sinais silenciosos. Muitas vezes, o perigo não mora no grito, mas no silêncio.

Os sinais mais preocupantes nem sempre são os mais barulhentos. Muitas vezes o que chama atenção é um jovem que vai se apagando aos poucos: se isola mais, perde o interesse por coisas que antes gostava, fica constantemente cansado ou desmotivado”, alerta Nathalia Melo.

Fique atento a estes indicadores comportamentais:

  • Alterações no sono: Insônia persistente ou excesso de sono (hipersonia).
  • Queda de rendimento: Dificuldades súbitas na escola ou faculdade.
  • Autocrítica severa: Sentimento constante de insuficiência.
  • Isolamento: Desconexão de amigos e atividades prazerosas.
  • Desesperança: Falas como “não adianta falar” ou “ninguém vai entender”.

A literatura médica é taxativa: quanto mais internalizado o sintoma, maior o risco de ele passar despercebido até que seja tarde demais. Se as mudanças de comportamento durarem semanas e afetarem a funcionalidade do jovem, a busca por ajuda profissional deixa de ser uma opção e torna-se uma necessidade de saúde.

Gênero e expressão da dor emocional

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A socialização desempenha um papel crucial na forma como a saúde mental da juventude se manifesta em rapazes e moças. Embora a dor emocional não tenha gênero, a permissão social para expressá-la é distribuída de forma desigual.

Nathalia Melo desconstrói o estereótipo simplista de que o homem apenas “age” e a mulher “sente”. A realidade clínica é mais complexa. Meninas, historicamente, recebem mais “autorização” social para verbalizar tristeza, medo e insegurança. Isso facilita, em tese, o diagnóstico de quadros depressivos e ansiosos, pois o sintoma é comunicado.

Por outro lado, meninos são frequentemente ensinados a reprimir a vulnerabilidade. O resultado é uma expressão de sofrimento que foge do padrão clássico da tristeza:

  • Irritabilidade explosiva;
  • Impulsividade;
  • Comportamentos de risco (velocidade, brigas, abuso de substâncias).

“Muitos rapazes sofrem profundamente, mas têm menos repertório emocional e menos espaço para falar sobre isso”, explica Melo.

Essa falta de letramento emocional nos homens jovens contribui diretamente para as altas taxas de suicídio e internação por abuso de substâncias citadas pela Fiocruz. O jovem tenta “anestesiar” uma dor que não sabe nomear. Portanto, promover a saúde mental da juventude passa, obrigatoriamente, por ensinar meninos a reconhecerem e validarem suas emoções sem julgamento.

O paradoxo da solidão na era da conexão

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Vivemos um fenômeno contraditório. Nunca houve tanta facilidade de conexão digital, e, no entanto, os consultórios estão lotados de jovens que relatam uma solidão profunda. A psicóloga Nathalia Melo analisa esse paradoxo como um dos grandes vilões da atualidade para a saúde mental.

As redes sociais, embora prometam aproximação, muitas vezes funcionam como vitrines de uma felicidade inatingível. O jovem é bombardeado por imagens de sucesso, produtividade e estabilidade emocional alheia. Cria-se uma pressão desumana: a proibição da falha.

“Muitos jovens sentem que não podem falhar, que não podem demonstrar fraqueza. Existe uma pressão constante para parecer produtivo e feliz. Isso faz com que, mesmo cercados de pessoas, eles sintam que não têm com quem falar de verdade quando algo dói”, pontua a psicóloga.

Esse cenário digital impacta diretamente a decisão de buscar terapia. Admitir que precisa de ajuda é visto, equivocadamente, como uma derrota pessoal ou um “bug” no sistema de autossuficiência que a internet vende. Romper essa lógica é vital para a saúde mental. A terapia deve ser encarada não como um conserto para quem falhou, mas como uma ferramenta de alta performance emocional para organizar o caos interno.

Caminhos para um futuro saudável

Reverter os índices alarmantes da saúde mental na juventude apresentados pela Fiocruz exige um esforço conjunto. A psiquiatra Aline Sena é enfática ao afirmar que a solução para a crise na saúde mental da juventude depende de políticas públicas integradas. Não basta tratar o sintoma; é preciso atacar a causa.

Isso envolve investir na formação de profissionais capacitados para identificar o sofrimento precoce, ampliar o acesso a serviços de psicologia e psiquiatria no SUS e, fundamentalmente, fortalecer as redes comunitárias de apoio. Escolas, famílias e o Estado precisam falar a mesma língua.

Para Nathalia Melo, a chave também está na desidealização. É preciso normalizar o pedido de ajuda. Falar abertamente sobre dores, medos e fracassos retira o peso da perfeição das costas dessa geração.

Cuidar da saúde mental da juventude é um compromisso ético da sociedade. Estamos falando de uma geração inteira que pede socorro — às vezes gritando, mas na maioria das vezes, em silêncio. Cabe a nós ouvir e agir antes que o próximo relatório estatístico seja ainda mais grave.

ABC Cast Conexões discute ansiedade na vida contemporânea

Nathalia Melo esteve conosco no estúdio do ABC Cast Conexões para um papo urgente sobre a ‘epidemia’ de ansiedade moderna. Assista à participação completa e descubra ferramentas da TCC para retomar o equilíbrio emocional.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 05/02/2026
  • Fonte: FERVER