São Paulo possui mais câmeras que habitantes e vive era da hipervigilância

Capital paulista celebra aniversário com recorde de monitoramento e debate sobre privacidade em meio a milhões de lentes.

Crédito: Smart Sampa

Caminhar pelo marco zero de São Paulo exige a consciência imediata de que o anonimato deixou de existir na metrópole em 2026. A celebração dos 472 anos da cidade, marcada pela histórica missa na Praça da Sé, ocorre sob o olhar atento e constante de milhões de lentes digitais. Na região central, onde o fluxo de pessoas é intenso, a coleta de dados biométricos e o registro de faces tornaram-se a norma, não a exceção.

A densidade do monitoramento impressiona quem transita entre a estação Sé e o edifício do programa Smart Sampa. Nesse curto trajeto, utilizado por milhares de cidadãos diariamente, existem pelo menos 55 dispositivos de vigilância instalados. A média estatística revela um cenário de “Big Brother” urbano: há uma câmera a cada oito metros observando o coração de São Paulo.

São Paulo supera população em número de dispositivos

A infraestrutura de controle opera a partir de uma sala de guerra na interseção das ruas 15 de Novembro e 3 de Dezembro. Lá, um telão gigante e 88 monitores curvos processam o cotidiano da cidade. No entanto, o alcance da vigilância em São Paulo ultrapassa as iniciativas governamentais, criando um ecossistema onde as máquinas superam o elemento humano.

Dados cruzados revelam que o número de “olhos digitais” é superior aos 11,9 milhões de habitantes da capital. O inventário de vigilância compõe-se de:

  • Smartphones: Estimados em 9,6 milhões de aparelhos ativos (91% da população acima de 10 anos).
  • Segurança Privada: Cerca de 3,8 milhões de câmeras instaladas por empresas e condomínios (dados da Abese).
  • Setor Público: Câmeras corporais policiais, monitoramento da CET e dispositivos em transportes.

Essa onipresença tecnológica levanta questões profundas sobre a privacidade. Carolina Freitas, pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole da USP, alerta que a sensação de segurança não deve ser confundida com eficácia de política pública. Para a especialista, existe um risco real de que a discussão sobre violência urbana em São Paulo seja simplificada pela crença messiânica na tecnologia.

Eficácia na investigação versus prevenção

A aplicação prática desse aparato tecnológico apresenta resultados mistos. O sistema de reconhecimento facial demonstrou alta eficiência punitiva, auxiliando na captura de mais de 2.600 foragidos da Justiça e na localização de 146 pessoas desaparecidas em apenas uma semana. Contudo, pesquisadores apontam limitações no caráter preventivo dessas ferramentas nas ruas de São Paulo.

Daniel Edler, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, reforça que o impacto no policiamento ostensivo — evitar que o crime aconteça — ainda é questionável. Além disso, há o temor sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Sem garantias robustas, o acesso indiscriminado a imagens por empresas e indivíduos pode gerar abusos.

O comportamento do paulistano também sofreu mutações. A vigilância deixou de ser vertical (do Estado para o cidadão) e tornou-se horizontal. Vizinhos monitoram vizinhos em grupos de mensagens, e incidentes menores ganham proporções virais nas redes sociais. Esse fenômeno cria uma camada extra de tensão social, onde o controle comportamental se torna uma obsessão coletiva.

Ao completar mais um ano, a metrópole enfrenta o desafio de equilibrar inovação e liberdade civil. A tecnologia veio para ficar, mas definir os limites éticos de seu uso será determinante para a qualidade de vida no futuro de São Paulo.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 25/01/2026
  • Fonte: Farol Santander São Paulo