Santos aumenta fiscalização sobre tráfico internacional

Aumento da fiscalização em Santos leva grupos criminosos a buscar novos portos para manter operações de tráfico internacional

Santos aumenta fiscalização sobre tráfico internacional

Crédito: Divulgação/Porto de Santos

O aperto na fiscalização do Porto de Santos, no litoral de São Paulo, tem levado operadores do tráfico internacional de drogas a buscar diferentes terminais marítimos do país. Investigações da Polícia Federal analisadas pela Folha de S.Paulo mostram que organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passaram a explorar novas rotas para enviar cocaína ao exterior. Em um dos casos investigados, o esquema também envolve integrantes das máfias italiana e albanesa.

As operações movimentam valores bilionários e dependem de uma estrutura complexa para tentar driblar os mecanismos de fiscalização. Segundo as investigações, os grupos recorrem a mergulhadores, funcionários de empresas de logística cooptados e equipes especializadas na adulteração de contêineres. A mudança de estratégia fez com que portos de diferentes regiões do litoral brasileiro passassem a aparecer em investigações sobre tráfico internacional.

Tráfico internacional busca novas rotas

Quatro investigações federais ajudam a mostrar a expansão geográfica das rotas utilizadas pelas organizações criminosas. Os casos analisados envolvem terminais que vão de Santana, no Amapá, a Itajaí, em Santa Catarina, passando por portos do Nordeste, Paraná e outros pontos da costa brasileira.

A Receita Federal reconhece que as organizações criminosas alteram constantemente seus métodos e rotas para tentar escapar da fiscalização. O órgão afirma acompanhar de forma permanente as mudanças nas cadeias logísticas e nas estratégias empregadas pelos grupos e diz manter uma estratégia nacional de fiscalização dos portos.

Segundo a Receita, combater a mudança das rotas não depende apenas do aumento da presença física nos terminais. A estratégia envolve aprimoramento da análise de risco, integração de dados, intercâmbio de informações com outros órgãos e administrações aduaneiras e direcionamento das inspeções para cargas consideradas mais suspeitas.

Santos amplia fiscalização, mas ainda enfrenta vulnerabilidades

O movimento de operadores do tráfico internacional para outros terminais ocorre em paralelo ao endurecimento da fiscalização no Porto de Santos, considerado o maior da América Latina. Atualmente, o terminal conta com 17 scanners, aproximadamente 4.400 câmeras de videomonitoramento, além de drones e equipamentos capazes de captar ondas de calor para acompanhar a movimentação na área portuária.

Apesar da estrutura reforçada, Santos não é considerado completamente protegido contra o tráfico de drogas. Uma das vulnerabilidades apontadas está na chamada área de fundeio, região marítima onde os navios permanecem ancorados antes de entrar no porto. É nesse espaço que podem ocorrer ações criminosas envolvendo cargas e embarcações antes da chegada ao terminal.

A pesquisadora Isabela Vianna Pinho, que analisou o tráfico internacional pelo Porto de Santos em sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que as drogas continuam circulando. Um exemplo ocorreu na terça-feira (18), quando 702 quilos de cocaína foram apreendidos em uma carga de café que seria enviada à Europa.

Para o auditor fiscal Ivan da Silva Basílico, chefe da Divisão de Vigilância e Repressão da Alfândega de Santos, a fiscalização mais rigorosa não eliminou o tráfico, mas aumentou a dificuldade para os grupos criminosos que utilizavam o terminal. A consequência, segundo ele, foi a busca por novas rotas para realizar os embarques.

Operação Conexão Paraíba investigou portos do Nordeste

Uma das principais investigações sobre a mudança das rotas é a Operação Conexão Paraíba, deflagrada em 2024 contra 15 suspeitos de participar de um esquema de tráfico internacional por portos do Nordeste. A investigação cita terminais de Suape, em Pernambuco; Pecém, no Ceará; Cabedelo, na Paraíba; além de Fortaleza, Salvador e Natal.

O caso entrou no radar da Polícia Federal em 2021, após as prisões dos italianos Vincenzo Pasquino e Rocco Morabito. Segundo a polícia, os dois atuavam como uma ligação entre a ‘Ndrangheta, organização mafiosa italiana, e o PCC. Ambos foram posteriormente extraditados para a Itália.

De acordo com a investigação, o grupo movimentou cerca de R$ 4 bilhões em seis anos e manteve suas operações mesmo após a prisão dos dois italianos. Os embarques eram realizados preferencialmente pelo Sudeste, mas a intensificação da fiscalização em Santos levou os integrantes a procurar alternativas.

Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam a preocupação dos criminosos com o aumento da vigilância no principal porto paulista. Em uma das conversas investigadas, um dos envolvidos afirmou que Santos estava difícil para realizar as operações. O grupo também teria utilizado doleiros e uma casa de câmbio localizada na avenida Paulista, em São Paulo, para tentar ocultar a origem dos recursos movimentados.

Paranaguá e portos de Santa Catarina entram no radar

Outra investigação da Polícia Federal, a Operação Novos Rumos, identificou movimentações relacionadas ao tráfico internacional nos portos de Santos e do Paraná. Em uma conversa obtida pelos investigadores, um dos alvos afirmou que o Porto de Santos estava muito vigiado e apontou Paranaguá como uma alternativa mais favorável para os embarques.

Paranaguá também aparece em uma investigação envolvendo integrantes do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), de Santa Catarina. Em 2023, integrantes do grupo tentaram enviar pelo menos 100 quilos de cocaína pelo terminal. A droga foi apreendida, mas a Polícia Federal suspeita que outras remessas tenham conseguido passar pela fiscalização.

A investigação também cita os portos de Navegantes, Imbituba, Itapoá, Itajaí e São Francisco do Sul, em Santa Catarina. Segundo a PF, os suspeitos tinham grande capacidade financeira e uma estrutura operacional robusta. Durante as buscas, os agentes apreenderam, além de drogas, armas como fuzis, pistolas, granadas e metralhadoras calibre .50.

PCC e Comando Vermelho atuam nos mesmos portos

As investigações apontam ainda para uma característica particular das operações de tráfico internacional: integrantes de organizações criminosas rivais podem utilizar estruturas semelhantes e até os mesmos operadores quando existem interesses econômicos em comum.

O PGC é associado ao Comando Vermelho, enquanto o PCC e o CV são considerados grupos rivais. Apesar disso, investigações apontam a presença de integrantes ligados às três organizações em determinados terminais portuários. Entre os portos citados estão Paranaguá, Itajaí, Navegantes e Itapoá.

Segundo o agente da Polícia Federal e pesquisador da Organização das Nações Unidas (ONU) Christian Vianna, que atualmente ocupa o cargo de subsecretário de Integração da Segurança em Minas Gerais, a relação pode ser explicada pela busca de ganhos financeiros. A avaliação é que cada organização mantém sua própria logística sem interferir diretamente na operação da outra quando há interesses comerciais em comum.

As investigações também apontam que PCC e Comando Vermelho podem recorrer aos mesmos operadores para realizar o tráfico internacional. No fim de junho, uma investigação da PF teve como alvo suspeitos de comandar uma estrutura de tráfico internacional que, segundo os investigadores, prestava serviços para organizações ligadas tanto ao grupo paulista quanto ao carioca.

Novos portos surpreendem autoridades

A expansão das rotas não segue um padrão único. As organizações criminosas modificam seus métodos de acordo com as condições de fiscalização e as oportunidades encontradas em cada terminal. Por isso, portos que anteriormente registravam poucos casos passaram a aparecer em investigações e apreensões de grandes carregamentos.

No Amapá, por exemplo, uma apreensão de 155 quilos de cocaína no Porto de Santana chamou a atenção das autoridades. Em depoimento à Justiça no ano passado, o delegado da Polícia Federal Bruno Belo afirmou que aquela havia sido, até então, a única operação desse tipo registrada em dois anos de atuação na região.

O cenário reforça o desafio das autoridades para combater o tráfico internacional nos portos brasileiros. O aumento da fiscalização em Santos dificulta a atuação dos grupos no maior terminal do país, mas também estimula a criação de novas rotas e métodos de transporte. Com isso, o combate às organizações criminosas passa a exigir não apenas mais equipamentos e agentes nos portos, mas também integração entre órgãos de segurança, inteligência e fiscalização para acompanhar a rápida adaptação das redes de tráfico.

  • Publicado: 22/08/2026 13:34
  • Alterado: 22/08/2026 13:34
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: FolhaPress