Rússia enfrenta colapso demográfico e aposta em incentivos para gravidez precoce
Os valores variam de 20 mil a 150 mil rublos (aproximadamente R$ 1,3 mil a R$ 10,2 mil) e têm como objetivo estimular a maternidade precoce.
- Publicado: 11/02/2026
- Alterado: 27/04/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Itaú Cultural
A Rússia vive uma das maiores crises demográficas de sua história recente. Com o agravamento da queda nas taxas de natalidade e o aumento do êxodo populacional, a prolongada guerra com a Ucrânia apenas acelerou um processo já em curso: a redução expressiva do número de nascimentos.
Estratégia polêmica: bônus financeiros para estudantes grávidas
Em uma tentativa de reverter o quadro, 27 regiões russas passaram a oferecer, desde o início de 2025, pagamentos únicos a estudantes universitárias e até mesmo a adolescentes grávidas. Os valores variam de 20 mil a 150 mil rublos (aproximadamente R$ 1,3 mil a R$ 10,2 mil) e têm como objetivo estimular a maternidade precoce.
A lógica das autoridades é que mulheres que tenham filhos mais cedo possam, ao longo da vida, ter mais crianças. No entanto, especialistas contestam essa premissa, alegando que não existem provas concretas de que antecipar a maternidade leve, de fato, a um aumento significativo da taxa de natalidade. A medida provocou debates intensos entre a população e dentro do próprio governo.
Números alarmantes e adesão tímida aos incentivos
Apesar dos esforços, os resultados iniciais indicam baixa adesão. Segundo dados do serviço russo da BBC, apenas 310 estudantes receberam o benefício nos primeiros meses de 2025. A situação é agravada por números já preocupantes: em 2024, a Rússia registrou apenas 1,2 milhão de nascimentos — o menor índice em 25 anos.
O público-alvo dos pagamentos são, majoritariamente, universitárias em tempo integral e adolescentes do ensino médio com menos de 25 anos. Em algumas regiões, houve expansão dos programas para adolescentes ainda mais jovens, diante do aumento das gestações na faixa etária entre 12 e 17 anos. No entanto, a taxa de natalidade entre adolescentes também caiu: em 2023, cerca de 9 mil bebês nasceram de mães adolescentes, com quase 40% dessas gestações terminando em aborto.
Divergências no governo e preocupações futuras
Dentro do próprio governo, as iniciativas dividem opiniões. A deputada Ksenia Goryachova criticou a normalização da gravidez precoce, defendendo que a maternidade na adolescência deve ser vista como um problema e não como um ato heroico. Já o Ministro do Trabalho, Anton Kotyakov, afirmou que os bônus têm como principal objetivo oferecer suporte a jovens mães em situações difíceis, e não incentivar partos precoces.
O Kremlin, por sua vez, mantém distância dessas políticas regionais e não planeja implementar programas nacionais voltados para adolescentes grávidas. As medidas locais surgem em meio a novos critérios para avaliar a gestão dos governadores, impostos pelo presidente Vladimir Putin.
O futuro demográfico da Rússia permanece incerto. Pesquisadores alertam que incentivos financeiros, isoladamente, não conseguem sustentar o crescimento populacional a longo prazo. Além dos riscos à saúde associados à gravidez precoce, estimativas apontam que a população do país pode cair dos atuais 146 milhões para 138 milhões até 2046, desenhando um cenário desafiador para as próximas décadas.