Romance de Ivete Nenflidio revisita a Ditadura de 64

'Eu Verterei o Meu Sol': Ivete Nenflidio revisita a Ditadura Militar de 1964 em obra que transforma a dor em pungente tributo à memória e à resistência

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A escritora, poeta e curadora artística Ivete Nenflidio lança seu novo romance, “Eu verterei o meu sol” (Editora Reformatório, 322 páginas), uma obra de ficção histórica que mergulha com lirismo e precisão nos traumas da Ditadura Civil-Militar brasileira (1964-1985). O livro não é apenas uma revisita ao passado; é um ato de resistência que explora as memórias, a luta e o impacto da violência política na sociedade.

Com uma narrativa poderosa e engajadora, o romance se estrutura como um chamado urgente à reflexão, combatendo o risco do esquecimento em um contexto onde o saudosismo em relação à Ditadura Militar de 1964 ainda persiste. A obra reafirma: o silêncio não é uma opção diante da injustiça.

A Jornada de Luiza: Luta, dor e a busca por justiça

O cerne da trama reside na trajetória de Luiza, uma mulher cuja vida na pacata vila de pescadores, no sul do Brasil, é drasticamente alterada. Seu destino se cruza com o de Gaspar, um líder revolucionário, e o envolvimento amoroso e político a coloca no centro da repressão.

Após o desaparecimento do companheiro, Luiza é lançada em uma jornada marcada pela luta armada, pela prisão e pela tortura. Em um regime que busca o silenciamento a qualquer custo, a protagonista embarca em um processo doloroso, mas necessário, de reconfiguração de sua identidade. Ela se transforma em mulher, militante e, fundamentalmente, em um símbolo de resistência contra o autoritarismo imposto pelo Estado.

Conforme explica a própria autora, Ivete Nenflidio, a história de Luiza é o espelho das vidas que foram despedaçadas pela repressão política. “O romance retrata a impossibilidade de esquecer e a busca coletiva por justiça”, sintetiza a escritora, reforçando a missão da obra.

O lirismo poético na reconstrução da memória histórica

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Um dos diferenciais mais marcantes do livro é a união da sensibilidade literária com uma abordagem histórica rigorosa. O romance é fruto de uma extensa pesquisa documental e histórica, que incluiu a análise de depoimentos de ex-guerrilheiros, o estudo de documentos oficiais e visitas a museus. Esse cuidado confere à ficção consistência e precisão na representação do período da Ditadura Militar de 1964.

A Doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp) e escritora Luciana Lima Silva destaca a força e o lirismo da narrativa: “É nos relatos apaixonados de Luiza, nas memórias refeitas em analogias delicadas e poéticas, que compartilhamos da dor pungente de uma mulher que dedicou sua vida à busca por um grande amor e, nesse caminho, descortinou o próprio olhar sobre um mundo desolador e violento”.

  • Epígrafe Reveladora: O espírito do romance é resumido pela epígrafe escolhida, um potente verso de Lygia Fagundes Telles: “Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas”. A frase não só reforça o compromisso da obra com a memória, mas também indica o caminho da transformação da dor em luta.

Em última análise, “Eu verterei o meu sol” transcende a história de amor; ele se estabelece como um tributo à memória histórica e um chamado imperativo à reflexão.

Ivete Nenflidio: Arte e engajamento político

Ivete Nenflidio
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Ivete Nenflidio é reconhecida no cenário literário por sua capacidade de unir engajamento político e experimentação formal. Seu currículo inclui diversas obras, como “Monstros abissais e cavalos-marinhos” (7Letras), “Ataque – cale-se agora e para sempre” (Kotter) e “O sereno que habita meus olhos” (Telha). A autora possui formação sólida, com pós-graduação em Direitos Humanos (PUC) e especialização em História e Cultura no Brasil (Universidade Municipal de São Caetano do Sul).

Entre seus reconhecimentos, a escritora recebeu o Prêmio Mérito Cultural do Fundo Municipal de Cultura e foi finalista do Prêmio Governador do Estado para as Artes (2025), na categoria Artes e Cultura – Setor Privado, pelo projeto que celebra o protagonismo feminino na cultura.

A autora finaliza o debate reforçando a importância da arte em tempos de crise: “Escrever sobre uma mulher que enfrentou a incerteza da morte e o medo é um ato de resistência. A literatura pode reabrir feridas, não para fazê-las doer novamente, mas para curá-las com consciência, justiça e reparação”, conclui.

Agenda de Lançamento

O lançamento de “Eu verterei o meu sol”, que aprofunda a discussão sobre a Ditadura Militar de 1964, está marcado para o Festival Loba, no dia 14 de dezembro de 2025, das 14h às 15h, no Edifício Oswald de Andrade, localizado na Rua Três Rios, 363, Bom Retiro, São Paulo. O evento contará com uma atividade extra: um bate-papo entre a autora e a historiadora Andrea Paula Kamensky. O projeto tem apoio institucional do PROAC (SP) e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Governo Federal).

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 12/11/2025
  • Fonte: Sorria!,