Ritual de lavagem da escadaria da Catedral de Campinas celebra 40 anos de resistência e fé

Lavagem da escadaria da Catedral em Campinas: uma celebração de resistência cultural e fé que une diferentes religiões e homenageia os ancestrais.

Crédito: Martinho Caires/Agencia SN

Desde 1983, a escadaria da Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição, em Campinas (SP), se torna palco de um ritual que transcende a religiosidade, celebrando a resistência cultural e o combate à intolerância religiosa. Todos os anos, no Sábado de Aleluia, aproximadamente cinco mil fiéis se reúnem para participar da lavagem dos degraus, um evento que tem suas raízes nas tradições das comunidades de Candomblé e outras religiões de matriz africana.

A cerimônia tem um significado profundo: além de homenagear Nossa Senhora da Conceição, busca honrar a memória dos povos Bantus, etnia que compunha a maioria dos negros escravizados trazidos ao Brasil. A celebração é um testemunho da resiliência e da luta contra o racismo, transformando a escadaria da catedral em um espaço de união e espiritualidade.

A EPTV, emissora afiliada à TV Globo, reportou a edição deste ano do ritual, destacando seu caráter festivo e cultural. O evento começa com um cortejo que parte da Estação Cultura e segue pela Rua 13 de Maio até chegar à praça em frente à catedral. Os participantes derramam água de cheiro nos degraus enquanto realizam a lavagem com vassouras, um ato simbólico que representa o pedido de licença à Nossa Senhora para saudar seus ancestrais.

Mãe Dango, uma das fundadoras dessa tradição, enfatiza que a água de cheiro simboliza energia e conexão espiritual. Ela observa que a cerimônia não apenas preserva a cultura afro-brasileira como também promove a união entre praticantes de diferentes credos religiosos. “As igrejas em Campinas foram construídas por escravos. Portanto, nada mais justo do que colocar água de cheiro aos pés de Nossa Senhora e resistir”, afirma Mãe Dango.

A celebração vai além dos religiosos; atrai muitos espectadores que se juntam ao cortejo para vivenciar esse momento significativo. Renata Daniel, pedagoga presente no evento, ressalta: “É uma forma de valorizar a cultura afro-brasileira, frequentemente marginalizada no nosso país.” Para ela, o ritual é fundamental para reconhecer e respeitar os terreiros e as tradições religiosas africanas.

Giovani da Silva, assessor sindical que participou do evento, destaca a força espiritual presente durante o ritual: “A nossa ancestralidade está viva aqui.” Ana Palmira, aposentada e participante ativa do evento, vê na festa uma expressão vital da cultura. “É fantástico podermos ter isso em nossa cidade”, comenta entusiasticamente.

Isa Dantas também expressou sua admiração pelo ritual: “Independente da religião, é uma prática pura que reúne as pessoas. É muito bonito o que eles fazem. Pena que acontece apenas uma vez por ano.” Assim, o ritual de lavagem da escadaria da Catedral Metropolitana permanece como um poderoso símbolo de fé e resistência cultural na cidade.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 19/04/2025
  • Fonte: Sorria!,