Rio Grande da Serra aposta no turismo em meio à crise dos serviços básicos

Em meio a dificuldades financeiras, gestão de Akira Auriani prioriza plano turístico e empréstimo milionário

Crédito: (Divulgação/PMRGS)

Preocupações à vista para Rio Grande da Serra. É o que se pode vislumbrar diante do anúncio de mais um projeto turístico em uma cidade que ainda não consegue entregar serviços públicos básicos com eficiência.

É impossível não lembrar da história do rapaz que vive com a família em uma casa cheia de goteiras, piso quebrado, geladeira vazia, fossa transbordando, sofá rasgado e paredes sem pintura. Decidido a mudar de vida, ele vai ao banco, consegue um empréstimo — mesmo já enfrentando dificuldades para pagar as contas básicas — e, no caminho de volta para casa, entra na concessionária e compra um carro do ano.

Chega orgulhoso, estaciona o veículo na garagem com infiltrações, abre a geladeira vazia, pega uma garrafa de água e brinda à conquista. Agora endividado, toma um gole refrescante antes da próxima sede. A metáfora se encaixa com precisão na atual realidade administrativa do município.

Falta de identidade e vocação turística clara

Rio Grande da Serra enfrenta um problema estrutural de identidade e vocação econômica. A cidade se comporta como extensão periférica de Ribeirão Pires, já que seu centro de comércio, serviços e entretenimento está concentrado na cidade vizinha.

O projeto turístico apresentado pelo prefeito Akira Auriani parece uma colcha de retalhos: um pouco de natureza (o óbvio), um pouco de gastronomia (sem tradição consolidada), um pouco de aventura (em atrativos que sequer pertencem ao município) e até a proposta de uma “via expressa” com viaduto sobre a linha férrea.

Mas surge a pergunta técnica: qual é a justificativa do viaduto?

O principal gargalo de trânsito da cidade ocorre na cancela da estação ferroviária. Com a mudança da estação para o novo terminal rodoviário em construção, a tendência é que o fluxo naquele ponto diminua drasticamente, já que o volume de veículos é baixo e o bloqueio na cancela praticamente deixará de existir.
Ou seja, projeta-se um viaduto para um trânsito que deixará de existir.

Diferente do viaduto em construção em Ribeirão Pires — este sim justificado por fluxo intenso — a proposta do prefeito de Rio Grande carece de estudo técnico robusto que comprove sua necessidade.

Cópias de outros projetos, confusão geográfica e inconsistências

O projeto menciona como ponto turístico local a Cachoeira da Fumaça, localizada em Santo André, o que levanta questionamentos sobre a autoria técnica da proposta. Foi copiada?

Fala-se também em Boulevard Gastronômico e turismo na pedreira, além da criação de mais parques lineares, quando a própria manutenção urbana enfrenta dificuldades: mato alto, conservação precária e fiscalização insuficiente nos parques já existentes.

Parece uma festa decorada com enfeites de Natal, Carnaval e aniversário — mas ninguém sabe exatamente o que está sendo comemorado. A única coisa que não aparece no “cardápio” do Boulevard Gastronômico é o prato principal: a verdadeira vocação turística de Rio Grande da Serra.

Empréstimo milionário e formalidade técnica

O ponto central da preocupação não é apenas o turismo, mas o financiamento. O projeto turístico surge como justificativa formal para obtenção de empréstimo milionário junto à Caixa. A narrativa de longo prazo pode servir como argumento – e talvez a pegadinha – para eventual não execução plena, deixando como herança mais uma dívida bancária para o município.

Enquanto isso, segundo relatos e bastidores políticos, persistem dificuldades no pagamento de fornecedores, denúncias envolvendo empreiteiros, atrasos salariais e desgaste administrativo.

Isolamento político e risco institucional em Rio Grande da Serra

Akira Auriani (PSB) - Akira Auriani - Rio Grande da Serra | Prefeitos do Grande ABC
Prefeito de Rio Grande da Serra, Akira Auriani (Reprodução/Redes Sociais)

No campo político, o cenário também impõe riscos. Filiado ao PSB — partido que ocupa a vice-presidência da República — Akira naturalmente se posiciona em oposição ao governador Tarcísio de Freitas.

Para uma cidade de baixa arrecadação, o distanciamento do Governo do Estado pode significar redução de apoio estratégico, convênios e investimentos estruturais.

Exemplo recente foi a necessidade de apoio externo para doação de ambulância do SAMU por Santo André, evidenciando dependência regional. A própria conclusão da nova rodoviária dependerá de articulações externas.

Municípios pequenos sobrevivem de articulação política inteligente. Conflitos ideológicos, nesse contexto, podem custar caro.

A administração de Rio Grande da Serra enfrenta pressão crescente:

  • Trocas frequentes de secretários
  • Apoios políticos questionáveis
  • Dificuldades financeiras
  • Estrutura pública deteriorada
  • Cidade com problemas de limpeza urbana

O município que em 2021 protagonizou ações conjuntas com o Governo Estadual hoje vive de favores parlamentares e da intermediação de cidades vizinhas, por meio do Consórcio Intermunicipal do ABC.

Turismo começa pelo morador

Sim, Rio Grande da Serra merece um projeto turístico. Mas antes de atrair visitantes, é preciso cuidar de quem mora na cidade. Moradores satisfeitos se tornam os melhores anfitriões. Cidades organizadas vendem sua identidade naturalmente.

Turismo não se constrói com viaduto desnecessário ou cópia de projetos de cidades vizinhas. Constrói-se com planejamento, vocação clara, equilíbrio fiscal e prioridade nas necessidades básicas. Caso contrário, o carro novo continuará estacionado na garagem com goteiras — enquanto a geladeira segue vazia.

Márcio Prado

Márcio Prado - Peninha - Ribeirão Pires - Rio Grande da Serra
Peninha (Divulgação)

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 24/02/2026
  • Fonte: Sorria!,