Reforma Tributária expõe fragilidade e divide preparo entre empresas do ABC
Pesquisa nacional indica desorganização estrutural enquanto grandes grupos investem em adaptação sistêmica e mudança cultural
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 13/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A poucos meses da consolidação das regras operacionais da Reforma Tributária sobre o consumo, o ambiente empresarial revela um contraste que vai além do porte das companhias e alcança o nível de maturidade na gestão. Enquanto a maior parte das empresas ainda tenta compreender os impactos práticos do novo modelo, organizações com estruturas mais consolidadas já tratam a transição como um processo estratégico de longo prazo, com revisão de sistemas, treinamento de equipes e reconfiguração de políticas comerciais. No Grande ABC, onde a indústria e o varejo convivem com margens pressionadas e elevada complexidade operacional, a discussão deixou de ser teórica e passou a influenciar decisões de investimento, precificação e relacionamento com fornecedores.
Um levantamento recente, realizado pela GestãoClick revelou que 97% das empresas não se sentem preparadas para a Reforma Tributária. A ausência de integração entre áreas, o baixo domínio sobre custos reais e a dependência excessiva de informações externas dificultam a leitura de impactos e comprometem o planejamento. Nesse contexto, a Reforma Tributária não aparece como fator isolado de risco, mas como catalisador de problemas estruturais que já afetavam a competitividade, sobretudo entre micro e pequenas empresas.
Preparação exige mudança cultural e integração de áreas
No varejo, onde a dinâmica de preços, promoções e relacionamento com fornecedores é contínua, a transição tributária exige reorganização transversal. A Coop, uma das principais redes de consumo do país com presença relevante na região, vem tratando o tema como agenda permanente de gestão e não como ajuste pontual de compliance.
Segundo o superintendente administrativo e financeiro Manases Ferreira dos Santos, a adaptação envolve revisão de processos, capacitação de equipes e análise estratégica de cenários, com impactos que ultrapassam a esfera fiscal e alcançam decisões comerciais e operacionais. “A Coop avalia que está em fase de preparação e adaptação para a Reforma Tributária, acompanhando de perto a evolução da legislação e os desdobramentos regulatórios. Já iniciamos análises técnicas e estratégicas sobre os impactos do novo modelo, mas reconhecemos que a magnitude da mudança exige um processo contínuo de ajustes ao longo dos próximos anos”, afirma o executivo.
O processo de transição, segundo ele, não se limita ao cumprimento de obrigações fiscais e já influencia o planejamento de expansão e o relacionamento com fornecedores, exigindo leitura antecipada de cenários e revisão de políticas comerciais. “Especialmente durante o período de convivência entre os regimes tributários, os impactos não atingem apenas processos internos, mas também estratégias que vão desde as negociações com fornecedores até a eventual abertura de novas unidades”, pontua também.

A preparação interna tem sido conduzida por meio de treinamentos e fóruns interdisciplinares que envolvem áreas comerciais, financeiras, operacionais e de tecnologia, numa tentativa de antecipar efeitos práticos antes mesmo da consolidação das normas complementares. A estratégia reflete a percepção de que o novo modelo altera a lógica de formação de preços e exige maior previsibilidade na gestão de margens e capital de giro, elementos críticos para o varejo alimentar, marcado por alta rotatividade de estoque e sensibilidade a variações tributárias. “Treinamentos internos, workshops interdisciplinares e fóruns executivos vêm sendo realizados para disseminar os impactos da Reforma Tributária, garantindo que as decisões do dia a dia já passem a considerar o novo contexto tributário”, afirma Manases.
A mudança, segundo o executivo, não se restringe ao campo fiscal e já impõe revisão de práticas históricas de planejamento e tomada de decisão dentro da organização, com maior integração entre áreas e alinhamento estratégico. “A reforma afeta toda a organização, desde compras, abastecimento e marketing até tecnologia da informação, finanças, jurídico e operações de loja, exigindo integração entre áreas e mudança cultural na forma de planejar margens, contratos e investimentos”, acrescenta.
Operação diária concentra riscos e pressiona margens
A adaptação prática para a Reforma Tributária passa por pontos sensíveis da operação, especialmente na emissão de documentos fiscais, na apuração de tributos e na formação de preços ao consumidor. A convivência temporária entre dois modelos de tributação amplia a complexidade dos sistemas e aumenta o risco de inconsistências, exigindo investimentos em tecnologia e revisão de rotinas administrativas.
No varejo, onde pequenas variações de custo podem comprometer a competitividade, a incerteza sobre créditos tributários e mecanismos como o split payment adiciona pressão sobre o fluxo de caixa. “As áreas que demandam maior atenção são aquelas diretamente ligadas à operação cotidiana do varejo, como a emissão de documentos fiscais, a formação de preços ao consumidor, a apuração e recolhimento de tributos, além dos reflexos nos custos logísticos e administrativos. Também há preocupação com a integração entre sistemas, a convivência temporária de dois modelos tributários e os impactos sobre margens, capital de giro e estratégias comerciais de relacionamento com fornecedores”, explica o superintendente.
A revisão de políticas comerciais passa a ocupar papel central, uma vez que a precificação deixa de ser apenas reação ao custo de compra e passa a depender de simulações tributárias mais complexas. A necessidade de capacitar equipes comerciais para negociar em um ambiente regulatório diferente indica que a Reforma Tributária, na prática, redefine o processo decisório dentro das empresas, exigindo maior coordenação entre áreas que tradicionalmente operavam de forma fragmentada.
Indústria aposta em estrutura técnica e governança de processos
No setor industrial, onde a complexidade fiscal já é elevada, a preparação tem sido conduzida com foco em governança de processos e adequação tecnológica. A Termomecanica, grupo com forte presença no Grande ABC, estruturou um projeto interno dedicado à Reforma Tributária, envolvendo especialistas tributários e equipes multidisciplinares para mapear impactos e revisar sistemas.
A antecipação das mudanças permitiu à companhia adequar seus documentos fiscais eletrônicos e criar rotinas de monitoramento contínuo da legislação, transformando a adaptação tributária em um projeto estruturado de governança de processos e tecnologia. Esse movimento, segundo o gerente de planejamento econômico-financeiro Alexandro Ferreira de Souza, começou ainda na fase de discussão dos projetos de lei e envolveu a formação de um núcleo técnico dedicado ao tema. “A Termomecanica tem direcionado esforços sobre a Reforma Tributária desde as divulgações dos projetos de lei. Um corpo de especialistas fiscal-tributário foi designado para estudos e debates aprofundados sobre as legislações e aderências aos negócios do grupo econômico”, afirma.
A estrutura interna, de acordo com o executivo, permitiu criar um grupo de trabalho interdepartamental responsável por revisar processos e sistemas de tecnologia, além de acompanhar de forma permanente as atualizações regulatórias. “Esse trabalho trouxe segurança técnica e possibilitou a condução do projeto de adequação com base em análises consistentes, enquanto o monitoramento contínuo das mudanças tem sido fundamental para antecipar impactos e garantir uma transição segura e bem estruturada”, acrescenta.

A estratégia incluiu benchmarking com outras empresas, participação em fóruns especializados e capacitação de equipes, indicando que a adaptação para a Reforma Tributária não se restringe ao cumprimento de obrigações fiscais, mas envolve redesenho de fluxos internos e integração entre áreas comerciais, de controladoria e tecnologia.
A preservação de margens e a precisão na apuração de tributos aparecem como prioridades, uma vez que o novo modelo altera a incidência ao longo da cadeia produtiva. “As áreas comerciais, de controladoria e de tecnologia são as mais impactadas. O modelo de tributação sobre o consumo exige ajustes constantes nos processos e nos sistemas, e os reflexos precisam ser observados minuciosamente, principalmente nas apurações dos tributos, na formação dos preços e na preservação das margens”, destaca Alexandro.
Desorganização estrutural amplia riscos para pequenas empresas
Enquanto grandes organizações estruturam projetos de adaptação, a maior parte das empresas ainda enfrenta limitações básicas de gestão que antecedem a própria Reforma Tributária. A dificuldade em mapear impactos operacionais, compreender a lógica de créditos e revisar a formação de preços evidencia um problema anterior à mudança legal, a ausência de leitura integrada dos próprios números. A dependência quase exclusiva da contabilidade como fonte de informação e o uso restrito de sistemas de gestão impedem análises preditivas e reduzem a capacidade de planejamento em um ambiente que exigirá simulações constantes de cenário.
A fragmentação entre áreas financeira, fiscal e comercial amplia o risco de decisões desalinhadas e torna a transição da Reforma Tributária mais onerosa, sobretudo para empresas com margens reduzidas e menor capacidade de investimento. Sem domínio sobre custos reais e indicadores de desempenho, a tendência é reagir de forma tardia, absorvendo aumentos operacionais ou repassando preços de maneira descoordenada, com perda de competitividade. Nesse contexto, a Reforma Tributária atua como mecanismo de seleção, favorecendo organizações com governança de dados e planejamento estruturado.
Investimentos e custos de adaptação pressionam resultados
A adequação para a Reforma Tributária exige investimentos relevantes em tecnologia, consultorias especializadas e capacitação de equipes, com impacto direto no resultado de curto prazo. No varejo, a revisão de contratos com fornecedores e a reconfiguração de sistemas de precificação aumentam a complexidade operacional, enquanto na indústria a adaptação envolve reestruturação de processos produtivos e logísticos com horizonte de longo prazo.
A pressão sobre o fluxo de caixa é intensificada pela necessidade de manter conformidade simultânea com dois regimes tributários e pela indefinição de alguns mecanismos operacionais. “Todo o processo de adaptação para a Reforma Tributária exigirá investimentos e dispêndios financeiros, sendo algo incremental a pressionar o resultado de todas as empresas”, observa Manases, ao destacar que a transição implica revisão estratégica do modelo de negócios e não apenas ajustes de compliance.
A adoção de sistemas integrados passa a ser elemento de sobrevivência, permitindo simulações tributárias, ajuste dinâmico de preços e controle mais preciso de margens. Empresas que operam com dados consolidados conseguem antecipar impactos e reduzir incertezas, enquanto estruturas baseadas em controles fragmentados tendem a enfrentar dificuldades para mensurar o custo real das operações no novo ambiente fiscal.
Reforma Tributária como catalisador de transformação empresarial

A Reforma Tributária está redefinindo padrões de gestão ao exigir integração de áreas, uso intensivo de tecnologia e maior previsibilidade na tomada de decisão. Mais do que simplesmente mudança fiscal, o novo modelo impõe revisão de práticas históricas de planejamento e fortalece a centralidade da governança de dados como instrumento de competitividade.
A experiência de organizações que iniciaram a adaptação de forma antecipada indica que a Reforma Tributária pode funcionar como um vetor de profissionalização, estimulando processos mais transparentes e estruturados. Mas é inegável que ao mesmo tempo, expõe a vulnerabilidade das pequenas empresas, que concentram menor capacidade de investimento e maior dependência de estruturas externas para interpretação das regras.
A consolidação das normas operacionais da Reforma Tributária deverá intensificar a pressão por eficiência e coordenação interna, estabelecendo um novo patamar de exigência para o ambiente empresarial. No Grande ABC, a capacidade de adaptação das empresas tende a influenciar diretamente o ritmo de investimentos, a preservação de margens e a manutenção da competitividade regional nos próximos anos.