O impacto das redes sociais na saúde mental infantil

Especialistas e novos projetos de lei propõem restrições para menores de 16 anos em redes sociais

Crédito: Marcello Casal jr/Agência Brasil

É cada vez mais comum observar cenas que se repetem em restaurantes e transportes públicos: crianças e adolescentes totalmente absorvidos pelas telas, muitas vezes rolando feeds infinitos de redes sociais durante as refeições ou trajetos. O crescimento do acesso digital infantojuvenil no Brasil é expressivo e, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, a grande maioria dos jovens usuários de internet já possui contas em plataformas sociais. Esse cenário expõe um cérebro ainda em formação a riscos que vão do vício digital ao assédio, exigindo um olhar atento sobre a vulnerabilidade desse público.

Proteção de crianças e adolescentes exige rigor após caso Roblox
(Divulgação/Freepik)

O impacto do vício digital e a luta por limites nas redes sociais

A psicóloga Suellen Martins, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, explica que a imaturidade cognitiva torna as crianças mais suscetíveis a estímulos viciantes. Os algoritmos das redes sociais são projetados para prender a atenção, estimulando o sistema de recompensa do cérebro por meio de curtidas e notificações. Esse processo gera uma dependência de dopamina que pode resultar em ansiedade e na dificuldade de concentração em tarefas mais lentas, como a leitura. Além disso, a exposição a filtros e vidas aparentemente perfeitas pode afetar a autoestima e abrir caminho para transtornos alimentares.

A segurança e a privacidade também estão em jogo, já que a falta de discernimento sobre o que é público ou privado pode levar à exposição de dados sensíveis e à vulnerabilidade diante de criminosos e do cyberbullying.

Para tentar organizar esse uso, a Sociedade Brasileira de Pediatria estabelece limites claros: bebês de até dois anos não devem ter contato com telas, enquanto crianças maiores e adolescentes devem ter o tempo rigidamente controlado, variando de uma a três horas diárias, sempre evitando o uso antes de dormir ou durante as refeições. Suellen reforça que o controle é um cuidado necessário: “O uso consciente e supervisionado das redes sociais é um ato de proteção para as crianças. Os pais têm o papel de estabelecer limites e promover um diálogo aberto”, afirma.

Crianças no Celular - Excesso de Telas
(Imagem: Freepik)

No dia a dia, impor esses limites exige persistência e diálogo, como mostra o exemplo de Leticia, moradora de Ribeirão Pires. Seu filho Eduardo, de 15 anos, usa redes sociais desde os 11, mas sob regras claras, como não levar o celular para a escola e ter o tempo restrito a uma hora por noite. “A criação dele sempre foi na base da conversa. Explico que ele precisa aproveitar a fase para brincar, se divertir na rua e não ficar rolando uma tela de celular”, relata a mãe.

Leticia aposta no convívio direto, uma estratégia que tem garantido um desenvolvimento mais equilibrado para o jovem. “Teve dias que ele queria ficar mais tempo no insta, mas logo inventava outra coisa para ele fazer e tem dado certo”, completa.

Enquanto famílias buscam o equilíbrio dentro de casa, governos ao redor do mundo começam a agir de forma mais rígida. A Austrália saiu na frente e, desde o fim de 2025, proibiu o uso de redes sociais por menores de 16 anos. No Brasil, o debate caminha no mesmo sentido com projetos de lei na Câmara dos Deputados que visam proibir o acesso dessa faixa etária a plataformas de acesso aberto. As propostas buscam atualizar a legislação para proteger a saúde mental de crianças e adolescentes, reforçando que o controle do ambiente digital é, acima de tudo, uma medida de proteção à infância contra a ansiedade, o bullying e conteúdos inadequados.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 09/02/2026
  • Fonte: FERVER