Reconhecimento facial e o transporte público

O uso do reconhecimento facial no transporte público pode modernizar a mobilidade, agilizar embarques e ampliar a segurança dos passageiros

Crédito: Prefeitura de Piracicaba/Divulgação

Recentemente foi implementado o acesso obrigatório aos estádios de futebol por meio de reconhecimento facial para partidas do Campeonato Brasileiro. O que chama atenção é a rapidez do processo: o rosto do torcedor é identificado e o acesso liberado em menos de um segundo, sem necessidade de portar ingressos físicos ou cartões.

Mas por que não adotar esse mesmo sistema no transporte público?

A tecnologia eliminaria a necessidade de carregar cartões físicos, enfrentar filas para recarga e ainda evitaria o risco de esquecer o meio de pagamento em casa.

Quando solicitamos uma corrida em aplicativos de transporte, seja de automóvel ou motocicleta, o pagamento já está vinculado a um cartão cadastrado. Basta ter o celular, que hoje é praticamente inseparável, e a transação acontece automaticamente.

Se o reconhecimento facial já garante agilidade para liberar o acesso de dezenas de milhares de torcedores em estádios, por que não o aplicar também ao transporte público? Em jogos com grandes públicos, mais de 35 mil pessoas entram em poucos minutos; essa eficiência poderia transformar a experiência nos terminais e estações do país.

Reconhecimento facial x biometria digital

Por que priorizar a biometria facial em vez da leitura de digitais, como nos caixas eletrônicos?

A resposta está na velocidade e precisão. Impressões digitais podem falhar devido a desgaste, sujeira ou problemas técnicos. Ou até mesmo devido a idade do passageiro, que tem as digitais muito superficiais e sem identificação, além de exigir contato físico com o dispositivo, o que aumenta o tempo de embarque e pode gerar filas expressivas. A biometria facial é mais rápida, precisa e sem contato, garantindo fluidez no processo.

Segurança e proteção de dados

A tecnologia também é uma aliada no combate à criminalidade. Assim como nos estádios, o reconhecimento facial pode inibir furtos, assaltos e fraudes, reforçando a segurança de passageiros e operadores. Tudo isso deve ser feito respeitando rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), garantindo a privacidade dos passageiros.

Reconhecimento Facial - Transporte Público
Reprodução/@Freepik/Freepik

Inteligência para dimensionar o transporte

Além da segurança, o reconhecimento facial pode revolucionar o dimensionamento da frota. Ao registrar embarques e desembarques com precisão, gestores terão dados em tempo real sobre a demanda, permitindo ajustar linhas, horários e veículos. Isso favorece a revisão de contratos de concessão e melhora o equilíbrio entre oferta e demanda de transporte, algo inédito no Brasil.

Além disso, se bem planejado e operacionalizado, o reconhecimento se torna aliada no estímulo do transporte público, no qual há perdas de passageiros a cada ano em relação ao transporte individual.

Experiências internacionais e nacionais

Experiências internacionais já demonstram a viabilidade do modelo. Desde 2019, a cidade de Zhengzhou, na China, utiliza o reconhecimento facial no metrô para identificar passageiros e debitar automaticamente a tarifa. Em Seul, na Coreia do Sul, o sistema funciona desde 2021, permitindo que os usuários cadastrem uma selfie e um cartão de pagamento, com liberação do acesso mesmo usando máscara.

No Brasil, Fortaleza já utiliza a tecnologia para combater fraudes, confirmando a identidade de beneficiários de gratuidades e vale-transporte, mas neste caso, ainda há o uso do cartão de acesso no transporte público.

Um caminho para a mobilidade inteligente

O reconhecimento facial aplicado ao transporte público vai muito além da inovação tecnológica: é um passo fundamental para modernizar a mobilidade urbana. Ao eliminar cartões físicos e filas, a tecnologia agiliza o embarque, facilita a operação, oferece maior segurança e contribui para uma experiência de viagem mais prática e confortável.

O desafio agora é investir em infraestrutura, proteção de dados e confiança pública, integração nos transportes, criando uma base sólida para a adoção ampla dessa tecnologia.

Com governança e transparência, o transporte público brasileiro pode se tornar mais eficiente, inteligente e inclusivo, transformando a relação do cidadão com a mobilidade urbana.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 05/09/2025
  • Fonte: Sorria!,