Reaplicação do Enem tem questões antecipadas por estudante
Materiais de estudante de medicina anteciparam lógica e valores de questões da reaplicação do Enem
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 23/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou, nesta terça-feira (23), o caderno de questões da reaplicação do Enem. O documento, no entanto, trouxe de volta a polêmica envolvendo o estudante de medicina Edcley Teixeira. Uma análise detalhada aponta que questões presentes em suas apostilas digitais “previram” com precisão milimétrica a estrutura lógica e até dados numéricos de problemas de matemática e análise combinatória aplicados no último exame.
O caso, que já havia levado à anulação de questões na prova regular de novembro, ganha novos contornos com a reaplicação. Embora Edcley negue acesso privilegiado e o Inep descarte a hipótese de vazamento, a proximidade entre os enunciados — que mantêm raciocínios centrais idênticos, alterando apenas contextos pontuais — levanta debates sobre a segurança do Banco Nacional de Itens (BNI).
O caso dos televisores e da combinatória no Enem
A análise técnica das questões revela padrões difíceis de ignorar. No caderno de Matemática, uma questão sobre a compra de 40 televisores com 60% de desconto no frete aparece tanto na prova oficial quanto no material “Estarão no Enem“. Enquanto a prova do Inep pede o recalculo da quantidade total, a apostila foca no número máximo de aparelhos adicionais. O caminho de resolução, contudo, é rigorosamente o mesmo.
Outro ponto de convergência ocorreu na análise combinatória. Ambos os textos exigiam que o candidato calculasse códigos de 13 dígitos com os três primeiros prefixados (7, 8 e 9). A aplicação do princípio multiplicativo, base para a resposta correta, foi antecipada com exatidão no material do estudante.
“Método algorítmico” ou acesso a pré-testes?
Edcley Teixeira afirma que seu sucesso preditivo é fruto de uma “percepção algorítmica” desenvolvida em 13 participações no Enem e análise estatística da matriz de referência. Por outro lado, o presidente do Inep, Manuel Palacios, atribui as coincidências à natureza dos “pré-testes”.
Esses testes do Enem consistem na aplicação de itens isolados a estudantes para medir o nível de dificuldade antes de entrarem na prova oficial. Palacios argumenta que:
- Mais de 4.000 questões já passaram por esse processo;
- O pré-teste é essencial para garantir a comparabilidade das notas através da Teoria de Resposta ao Item (TRI);
- O acesso aos itens durante esses testes pode gerar memorização, mas não compromete a lisura do certame.
Mudanças estruturais e o uso de textos literários
Além das ciências exatas, o material do estudante antecipou o uso de textos literários específicos, como o conto “O diplomático“, de Machado de Assis. Enquanto o Enem focou no ideário realista, a apostila abordou a análise psicológica do personagem na sequência do mesmo texto.
A antecipação da estreia do modelo testlet — onde cinco questões compartilham o mesmo texto-base — também reforça a precisão das previsões feitas pelo universitário. O Inep afirma que a adoção deste formato não era sigilosa e faz parte da modernização pedagógica para tornar o exame mais contextualizado.
A Polícia Federal segue investigando se houve quebra de sigilo ou se as coincidências são, de fato, reflexo de uma exposição indevida de itens durante as etapas de calibração do Inep. Enquanto isso, o instituto mantém a validade das notas da reaplicação, assegurando que nenhum candidato teve acesso à prova completa de forma antecipada.