“Caça às bruxas”: como os EUA viram a condenação de Bolsonaro
Reações externas, diplomacia e o jogo de cena internacional
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 22/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
Abertura
Assim seguimos, parecendo um Fla-Flu do inferno, mas em uma versão geopolítica: EUA contra Brazil — com ‘Z’ de Zumbi. Ao menos nesse Brasília apitou o jogo, e Washington respondia no contragolpe. A cena repetida em democracias conectadas ganhou forma imediata: políticos estrangeiros, redes sociais fervendo e diplomatas tentando, em silêncio, salvar o que a retórica pública inflama. Foi nesse compasso que o termo “caça às bruxas” atravessou fronteiras, trazendo para dentro do debate nacional um eco global que complicou ainda mais um enredo já polarizado.
O palco americano
Quando a notícia da condenação ganhou espaço, a reação americana foi rápida, previsível e com camadas: retórica pública imediata, ecos em redes sociais e um trabalho técnico nos bastidores para avaliar consequências práticas. Figuras como Marco Rubio classificaram o episódio com expressões duras — “caça às bruxas” foi uma delas — e Donald Trump, com o estilo próprio, deu declarações empáticas ao condenado, traçando paralelos entre os processos que o atingem nos EUA e o julgamento no Brasil.
A primeira frente dessa reação foi teatral, marcada por entrevistas e tuítes que qualificaram o veredito como politicamente motivado. Esse discurso mobiliza opinião, tanto doméstica quanto internacional, funcionando bem em circuitos populistas: a narrativa clara de vítima versus sistema. Já a segunda frente foi técnica, silenciosa, e envolveu avaliações sobre cooperações bilaterais, riscos em programas conjuntos e potenciais medidas a serem tomadas.
Enquanto a retórica pública gerava manchetes, o trabalho diplomático nos bastidores buscava medir impactos concretos. A cominação de discursos e posturas criou um mix perigoso: amplificou a sensação de intervenção externa para parte da base política do ex-presidente e colocou Brasília numa posição de ter de responder com firmeza institucional e jogo de cena diplomático.
O Itamaraty em ação
Para o Itamaraty, o primeiro movimento foi reafirmar soberania judicial: notas oficiais destacaram que decisões internas cabem às instituições brasileiras e que esse é um assunto a ser tratado no foro nacional. O tom teve de ser firme e diplomático ao mesmo tempo — firme na defesa das instituições, diplomático na gestão de parceiros cuja retórica podia causar atrito prático.
Em paralelo, técnicos do governo começaram a avaliar onde possíveis represálias poderiam causar prejuízo real. Cooperação em defesa, intercâmbio científico e acordos comerciais pontuais entraram no radar. A prioridade foi blindar os canais que exigem continuidade técnica, preservando parcerias que não devem virar moeda de retaliação em embates políticos passageiros.
Essa postura teve também função simbólica: mostrar para a plateia doméstica que o Brasil não se intimida, mas, ao mesmo tempo, não arrisca arruinar relações estratégicas por causa de frases de efeito disparadas em redes sociais ou comícios nos Estados Unidos.
A retórica como munição interna
O uso interno dessa retórica externa foi imediato. Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro aproveitaram as declarações americanas para reforçar a narrativa de perseguição: “vejam, até os gringos falam”, transformando atenção internacional em argumento doméstico de vitimização. Esse efeito foi palpável: mobilizou bases, justificou protestos e complicou costuras políticas que poderiam reduzir o choque institucional.
Por outro lado, opositores trataram a reação estrangeira como ruído a ser relativizado: “interferência externa não invalida processo bem fundamentado”. O resultado foi um ciclo de instrumentalização que ampliou a polarização e dificultou qualquer diálogo que pudesse reduzir a temperatura da crise.
Na prática, a retórica externa virou insumo para os dois lados da disputa. O que, lá fora, era cena política, aqui dentro se tornou combustível para a narrativa de guerra cultural, reforçando trincheiras já profundamente cavadas.
O delicado jogo diplomático
Na arena diplomática, reagir bem é uma arte de equilíbrio. A estratégia eficaz combina firmeza pública com conversas discretas: telefonemas entre chanceleres, reuniões de embaixadores e explicações técnicas em organismos multilaterais. Esse tipo de ação serve para reduzir a temperatura sem perder legitimidade.
Diplomacia prática evita que retórica intensa vire barreira a cooperações essenciais. Quando o custo de ruptura é alto — no comércio, em projetos de pesquisa ou em segurança — prevalece a lógica do entendimento. Ainda assim, nem sempre a retórica pública se contém, e a necessidade de gestão contínua passa a ser um trabalho de 24 horas para diplomatas brasileiros.
Nesse cenário, cada palavra pesa: um tuíte inflamado em Washington pode gerar telefonema urgente em Brasília, e uma declaração seca em nota oficial pode evitar prejuízos concretos em contratos bilionários.
Mercados, imagem e repercussões
Aspectos práticos e econômicos também entraram no jogo. Investidores reagem a incertezas e tensões diplomáticas; movimentos em mercados de curto prazo podem ocorrer se a retórica se transformar em ação concreta, como sanções setoriais ou restrições comerciais.
No entanto, impor medidas economicamente relevantes contra o Brasil envolve custos para quem as aplica. Cadeias de fornecimento, interesses comerciais e riscos geopolíticos moderam decisões. Por isso, muitas das reações iniciais tendem a ser mais simbólicas do que substanciais: notas, condenações e declarações públicas que servem mais para consumo político do que para alterar parcerias de fato.
Ainda assim, o risco reputacional não pode ser ignorado. Para organismos de direitos humanos e observadores internacionais, cada nota oficial pode ser interpretada como sinal de instabilidade. E, para mercados sensíveis, percepção vale tanto quanto realidade.
Polarização global e redes ideológicas
O episódio também revelou sintoma de algo maior: a polarização global cria redes de solidariedade e reação transnacional. Grupos políticos com afinidade ideológica tendem a responder em bloco a eventos que atingem aliados, fazendo da política doméstica ferramenta de diplomacia paralela.
Essa teia complica ainda mais a vida dos diplomatas, que precisam navegar entre princípios e interesses. Defender a democracia e o Estado de Direito exige firmeza, mas preservar parcerias estratégicas exige flexibilidade. O equilíbrio entre os dois é tênue e exige habilidade constante.
A consequência prática é um cenário em que cada decisão brasileira reverbera fora de proporção. O país vira palco global, onde disputas locais se entrelaçam com agendas internacionais que não pediram passagem, mas chegaram com força.
Entre ruído e gestão
Para mitigar riscos, há caminhos práticos. O governo brasileiro pode priorizar diálogo técnico com parceiros, esclarecer procedimentos jurídicos e reafirmar compromissos com acordos multilaterais. Transparência e previsibilidade ajudam a conter narrativas apocalípticas e a evitar que declarações se convertam em ruptura prática.
Internamente, fortalecer comunicação que explique o arcabouço jurídico e os limites da decisão ajuda a reduzir espaço para a instrumentalização externa. Mostrar o devido processo legal, com transparência, é forma de se blindar contra críticas que chegam embaladas como solidariedade política.
A curto prazo, o resultado provável é gestão: retórica forte no palco público, mas contenção nos bastidores. A médio prazo, o que importará será se Brasília consegue transformar a onda de ruído em canal de diálogo, preservando cooperações sem ceder em princípios.
Conclusão: o eco além-mar
No fim, o episódio deixa lição clara: no mundo conectado, decisões domésticas reverberam globalmente. Para os EUA, a reação foi parte de sua política externa seletiva. Para o Brasil, o teste é administrar a imagem sem renunciar à soberania institucional.
O desafio está em ouvir o ruído sem perder a bússola. A condenação foi fato jurídico; a reação americana, fato político. Juntos, criaram um episódio que mostrou como, em tempos de redes, nenhuma decisão fica apenas dentro de casa.
Se Brasília aprender a equilibrar firmeza e diplomacia, o eco internacional pode ser administrado. Do contrário, o barulho de fora será usado como arma aqui dentro — e aí, mais uma vez, o tribunal e a rua terão de dividir protagonismo com o palco global.