Raio X Enem - Formação dos pais faz a diferença
Maior renda e formação superior são características da maioria dos pais de estudantes que se destacaram nos resultados do Enem. Negras e pobres não são incentivadas a prosseguir estudos
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 14/01/2018
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Mais de 70% dos pais dos alunos que estão entre as mil melhores notas do Enem são formados em ensino superior ou pós-graduação. Além disso, quase 25% deles têm renda familiar acima de R$ 17,6 mil e quase 90% nunca trabalharam. São números que mostram que esses estudantes fazem parte da elite intelectual e econômica, muito diferente do total de candidatos à prova. Menos de 14% dos pais dos inscritos têm a mesma formação, só 0,7% vive com a mesma renda e 44% nunca trabalhou.
“O meu resultado se deve a uma questão de oportunidade mesmo, boa condição financeira para poder estudar”, diz Milena Figueiredo Miranda, de 19 anos, que nasceu na cidade de Boa Esperança, em Minas. Ela é parda e ficou na 18.ª colocação da lista dos mil melhores do Enem em 2016. Sua nota – 824,9 em 1.000 possíveis – garantiu um lugar no curso de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A mãe de Milena é professora de Matemática da escola em que ela estudou; sua nota na área foi 961,9.
Guilherme Pinho Cicivizzo, de 18 anos, mora nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, e tem pais advogados. Ele não fez cursinho e entrou direto com a nota do Enem em Medicina na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Eu sempre estudei muito e adoro Química”, conta. A média de 798,7 garantiu a ele o 268.º lugar no Enem. “Eu fico surpreso de ter tantos homens na lista, as meninas com quem estudei também eram muito boas.”
O ranking com as maiores notas também está dominado pelas grandes capitais do País: 62%. Dos mil alunos, 218 estão em São Paulo, enquanto apenas 4,5% dos inscritos no Enem são paulistas. Em segundo lugar está Belo Horizonte, com 67 alunos, seguida de Brasília, Fortaleza e Rio, respectivamente. Dos mais de 5 mil municípios do País, apenas 223 têm representantes entre os mil melhores colocados.
O estudante de Física Luiz Rodrigo Torres Neves, de 18 anos, que se declara negro, conta que passava o dia todo estudando quando chegou ao último ano do ensino médio. “Na minha escola, a rotina de aulas já era sobrecarregada, com aulas pela manhã, à tarde e no fim de semana. No 1.º e no 2.º ano do ensino médio, eu também estudei por conta própria para o vestibular”, lembra-se.
Egresso de escola privada, como 92% dos alunos com as melhores notas no Enem, Neves foi o único morador de São Luís (MA), a tirar uma das mil notas mais altas. Na capital, 64 mil alunos fizeram a prova.
O fato de nunca ter precisado trabalhar contribuiu. “Sempre que sobrava um tempo da escola, eu também estudava. Meus pais trabalham bastante (o pai é funcionário público e a mãe, nutricionista). Eu só precisei estudar e sempre me educaram para reconhecer a importância do estudo. Sou privilegiado em relação à realidade. Os dados refletem a desigualdade social e racial que existe no País.”
‘SOU NEGRA E POBRE. NÃO ME ENCORAJARAM’, DIZ ENGENHEIRA
Quando ainda estava prestes a concluir o ensino médio, a engenheira Débora dos Santos Carvalho, à época com 17 anos, mal sabia o que era uma universidade. Aluna de uma escola estadual na periferia de Porto Alegre em 1998, o assunto não era prioridade na sala de aula. “Não se tem muitas expectativas para os alunos mais pobres, ainda mais sendo mulher e negra. Universidade não era um tema na periferia. Não me encorajaram para trilhar esse caminho.”
As dificuldades de Débora para chegar ao ensino superior são vistas nos dados da elite do Enem. Negras têm as piores notas nas quatro áreas cobradas na prova objetiva. Em Matemática, por exemplo, a média foi de 444 pontos, quase 30 pontos menor que a de mulheres brancas, de 473,3. Além disso, apesar de serem 34% dos candidatos à prova, representam só 6% das melhores notas.
“As meninas negras acumulam duas dificuldades: são meninas e são negras”, diz a presidente do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz. Ela explica que esse é o grupo sobre o qual as escolas têm menos expectativa de sucesso, o que influencia na motivação das garotas para estudar. Como sempre foi uma das melhores alunas e se destacava nas Exatas, uma professora aconselhou Débora a buscar um curso técnico – mas não uma universidade.
Ao notar que essa poderia ser sua melhor oportunidade, aceitou a proposta. Prestou vestibular na instituição e passou em sétimo lugar. Em paralelo aos estudos, conseguiu um estágio em uma empresa de saneamento municipal. Foi ali que notou, pela primeira vez, que não estava feliz. “Eu via os engenheiros trabalhando e pensava: é isso que eu quero ser.”
Débora então conseguiu uma bolsa em um cursinho e, dividindo o tempo entre trabalho e estudo, foi aprovada em duas universidades – estadual e federal do Rio Grande do Sul. No meio da graduação, ainda conseguiu transferência para a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), em Engenharia Ambiental, onde concluiu um mestrado recentemente. Hoje ela se prepara para fazer doutorado e estagiar em uma universidade na Alemanha. Estar no meio universitário, no entanto, não facilitou as coisas. “Eu tinha notas muito boas nas disciplinas específicas, por causa da minha experiência no curso técnico, mas no ciclo básico, por causa da precariedade do ensino que tive, tinha dificuldade”.
Ela também diz ter sofrido preconceito. “Há sempre um estranhamento às mulheres negras no meio acadêmico. Viviam perguntando se eu era mesmo brasileira. Tinha gente que chegava a perguntar para qual setor da universidade eu trabalhava, por achar que eu não era aluna”, diz a engenheira.
Débora foi uma das estudantes contempladas pelo programa federal Ciência sem Fronteiras, e assim fez o primeiro contato com uma universidade alemã. Em um evento sobre o programa, em Brasília, se emocionou. “Nasci mulher, negra e pobre. Nasci para contrariar estatística.”
‘A CAPACIDADE É A MESMA’, AFIRMA CIENTISTA
O que teria levado uma jovem paraibana, na João Pessoa dos anos 1970, a sonhar em ser cientista? Em parte, pode ter sido a curiosidade e inquietude natural da infância e uma boa dose de apoio familiar. Minha infância, na Praia Formosa, rodeada de natureza, de terra e mar, pode ter sido o primeiro estímulo. Mas também a curiosidade pelas brincadeiras dos meninos, mais criativas e instigantes. Elas me fascinavam, sob o olhar rigoroso de mamãe. Adorava brincar de bolinha de gude com os meninos, criava estratégias. O que tem para pensar numa brincadeira de casinha ou boneca?
Muito estudiosa, na juventude, comecei uma graduação em Medicina para alegria dos meus pais. Mas me apaixonei pela química orgânica e acabei mudando para Farmácia, na Universidade Federal da Paraíba. De lá, vim fazer pós-graduação em Química na USP. Como toda retirante nordestina, cheguei com uma mão na frente e outra atrás, mas não para trabalhar na construção civil e, sim, construir ciência. Somos culturalmente educadas de maneira diferente, mas a capacidade é a mesma. O importante é que as meninas tenham modelos para se inspirar.
MENINOS
O desempenho dos meninos negros surpreende por se parecer muito com o das mulheres brancas no Enem. Entre as mil melhores notas, eles representam 15,7%, enquanto elas são 18%. A nota deles também é maior que a das brancas em Matemática e Ciências da Natureza. Segundo o ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), Reynaldo Fernandes, isso pode ser explicado pelo fato de os meninos negros abandonarem mais a escola. Atualmente, 16% dos meninos negros de 15 a 17 anos estão fora da escola. “Os piores alunos negros já desistiram da escola. Os que ficaram e fizeram Enem são os mais estudiosos”, diz.